Saturday, December 4, 2021

Tick Tick… Boom! | Uma homenagem ao teatro musical

Hoje me retiro um pouco do papel de jornalista/crítica/seja lá como você quiser me chamar para me colocar no papel de fã. Fã de musicais. Fã da pessoa Jonathan Larson. Fã dos musicais de Jonathan Larson.

Em 2006, assisti Rent, o filme (que no Brasil ficou com o péssimo título de Rent – Os Boêmios). Apesar de ser apaixonada por musicais desde a infância, Rent me deixou obcecada. O musical falava de coisas que eu sempre acreditei. Que a arte muda o mundo. Que o bonito é ser diferente. Que ser “normal”, “comum”, é muito sem graça. E que o preconceito era a coisa idiota do mundo. Hoje é algo muito comentado, não tem um lugar que você não veja alguém falando contra preconceitos e sobre os direitos das minorias. Mas na época não era e eu não tinha com quem falar sobre isso. Então veio Rent, com seus boêmios (daí o nome em português), colocando a comunidade LGBT como foco, com importância, artistas e uma variedade imensa de pessoas. Diferentes. Maravilhosas. Me identifiquei imediatamente com aqueles personagens, com a mensagem daquele musical. E fui atrás de tudo sobre ele. Descobri que estreou em 1995 na Broadway. Descobri que os atores do filme são, em sua maioria, os mesmos que estrearam o musical em 1996. Descobri que seu criador se chamava Jonathan Larson. E que ele tinha morrido antes de estreia de Rent no teatro. Com 35 anos.

Corta para 2021. Sexta-feira passada, dia 19 de novembro. Estreia na Netflix um novo musical. Estrelado por Andrew Garfield e dirigido por Lin-Manuel Miranda, o criador de Hamilton. O título: Tick Tick… Boom!. Qual a ligação entre minha história de amor contada acima e o que conto para vocês agora? Tick Tick… Boom! também foi escrito por Jonathan Larson. Foi a peça que ele escreveu antes de Rent. Depois de Superbia, um musical que acabou nunca estreando. E do qual ele fala bastante em Tick Tick… Boom!. Pois além de ter sido escrito por ele, o musical fala sobre ele. Sobre sua vida. Sobre como é a vida de um compositor de musicais, ou pelo menos como era nos anos 1990. E também fala sobre amor à arte. Sobre querer fazer a diferença. Sobre querer mudar o mundo através da arte. Tudo que encontramos depois também em Rent. Porque esse era o objetivo de Jonathan Larson, e continuaria sendo caso ainda estivesse vivo: mudar o status quo e libertar as pessoas. Mostrar que todos eram iguais e que todos eram importantes. Mostrar o quanto a música, o teatro e a arte podem mudar vidas, salvar vidas. Mesmo que a dele estivesse indo de mal a pior. Porque as dificuldades que ele tem para encontrar patrocinadores e manter relacionamentos também estão lá em Tick Tick… Boom!.

Adaptação para as telas

Tick Tick… Boom! começou como um show solo: Jonathan sendo o único ator, e mais os músicos. Após sua morte, a peça foi reescrita e passou a ser apresentada com três atores. Lin-Manuel Miranda foi um dos atores que interpretou a persona semi-autobiográfica de Jonathan no teatro, em 2014. E como grande fã de Jonathan Larson, resolveu transformar Tick Tick… Boom! em filme. Em sua estreia como diretor, ele arrasa. Soube transpor a história dos palcos para a tela com maestria. Muitas vezes, essa transformação pode acabar não fazendo jus ao seu original. Mas o filme está bem redondinho. Conseguimos perceber quando é peça, quando é “vida real”. Pois Lin-Manuel escolheu intercalar a apresentação da peça Tick Tick… Boom! no palco, o John personagem, com a vida real dele, o John pessoa. E faz essa ligação muito bem.

Antes que continue, confira o trailer do filme:

Um grande protagonista

Essa alta qualidade se dá muito, também, pela atuação de Andrew Garfield, que interpreta Jonathan. Mais conhecido pela maioria do público por ter interpretado o Homem Aranha, Garfield deixou claro que não fica preso a um gênero cinematográfico. E que é multitalentoso, já que canta muitíssimo bem no filme. O que foi uma surpresa para os espectadores, que não tinham conhecimento dessa sua habilidade. Normal, já que nem ele mesmo sabia! O ator disse em entrevistas que quando foi convidado por Lin-Manuel para o filme começou a fazer aulas de canto e de piano. E podemos ver o resultado positivo dessas aulas durante todo o longa. Além disso, Andrew Garfield emociona também nas cenas mais tristes. Uma das mais bonitas é quando descobre que seu melhor amigo, Michael, é portador de HIV. Sua performance de “Why” é de fazer qualquer um soluçar em frente à tela.

Michael, aliás, é interpretado por Robin De Jesús. O ator, que está no elenco de The boys in the band (Netflix), é outro ponto alto do filme. Ele controla as emoções quando precisa e as derrama quando Michael precisa encarar momentos drásticos de sua vida. E está ótimo como o ponto de apoio e porto seguro de Jonathan. Outro rosto conhecido do filme é Vanessa Hudgens, mais conhecida por interpretar a protagonista Gabriella de High School Musical. Vanessa não tem um papel de muito destaque, mas arrasa na interpretação da música “Therapy”, junto com Garfield. É uma das cenas mais engraçadas e a coreografia de Ryan Heffington consegue expressar tudo que os personagens estão passando.

Homenagem ao teatro musical

No mais, Tick Tick… Boom! tem músicas deliciosas e que vão ficar na cabeça por dias e dias. Quero ver você não sair cantando por aí a letra de “Boho days” (e fazendo as palminhas). Andrew Garfield honrou a memória de Jonathan Larson com sua atuação. E Lin-Manuel Miranda honrou o teatro musical com a presença, na música “Sunday”, de vários atores e atrizes consagrados da Broadway. E também conseguiu, como o gênio que é, transformar esse musical não tão comentado de outro gênio muito à frente de seu tempo em um filme delicioso de assistir. Eu, como imensa fã de musical e fã ainda maior de Jonathan Larson, agradeço imensamente.

Para quem quiser conhecer mais sobre a vida de Jonathan Larson, há um documentário no YouTube que fala sobre a criação de Rent, mas antes conta toda a história desse grande compositor.

Ademais, leia mais:

The boys in the band | Filme da Netflix discute LGBTfobia

Tamo Junto | Criolo dá voz a personagem de novo curta de animação

Confira uma análise da retomada do Cinema pós-pandemia na EXPOCINE 2021

1 Comment

  • LC
    LC

    Muito bom texto! Detalha as informações e dá vontade de ir direto ver o filme.

    Responder

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