Dirigido por Fernando Coimbra, Os Enforcados tem Leandra Leal e Irandhir Santos em um épico shakesperiano com suspense, intrigas e samba.
Ao longo dos séculos, histórias clássicas sempre se reinventam, desde os contos de fada até os épicos trágicos. Assim, de Shakespeare ao cinema contemporâneo, elas ganham novos contornos conforme o tempo e o lugar. Em Os Enforcados, Fernando Coimbra insere essa tradição na alma brasileira, mais especificamente, no coração carnavalesco da Barra da Tijuca.
Inspirando-se não apenas em Macbeth (1623, William Shakespeare), mas também em suas adaptações cinematográficas, como Macbeth – Reinado de Sangue (1948, Orson Welles), Fernando Coimbra constrói uma narrativa transcendental sobre ganância e poder. Ao se apropriar de marcas clássicas da peça, como a decisão de não mostrar a morte do rei pelas mãos de Macbeth, a narrativa conta a trajetória de Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal), um casal da Barra de Tijuca, que decidem assassinar o tio de Valério, para vender o lucrativo, e ilegal, negócio. Contudo, são tragados por uma espiral de ambição que ameaça consumir a ambos.
Ainda que não siga à risca o texto shakespeariano, Os Enforcados adapta a obra de maneira que somente poderia ser realizada no Brasil de hoje. Da mesma forma que Trono Manchado de Sangue (1957, Akira Kurosawa) é uma versão que só poderia existir no Japão feudal, a produção brasileira se passa durante o Carnaval do Rio de Janeiro, destacando não só as escolas de samba cariocas, mas também a música e o folclore local. Logo no letreiro inicial, é apresentada a Sacéia, festa babilônica em que um ladrão assume o posto de rei do Carnaval, desfrutando de todos os privilégios por cinco dias, ao fim dos quais é enforcado.

Irandhir Santos em cena de Os Enforcados- Divulgação Paris Filmes
Essa analogia estabelece o tom severo e obscuro da narrativa, em que ninguém é totalmente confiável ou leal, e todos buscam o poder de alguma forma, o que leva a traições e lutas por um ilusório trono. Mesmo com essa atmosfera sombria, Coimbra não abandona sua veia cômica, evidenciada nos absurdos ditos por Irene Ravache, e nas múltiplas referências que atravessam o filme: de Shakespeare a mitos como o de Tântalo, contos de horror como O Gato Negro (1843, Edgar Allan Poe), e especialmente a figura de uma Medeia radical encarnada por Leandra Leal.
Os Enforcados preserva um dos conceitos centrais de Macbeth: a verdadeira força motriz da tragédia é sua Lady, não o príncipe escocês. Assim, Leandra Leal brilha em um papel que lhe permite explorar todas as suas facetas como atriz, transitando entre momentos dramáticos e íntimos ao lado de um Valério fraco, que degusta do poder pela primeira vez, e não apresenta força em si para manter por conta, motivando suas ações por impulsividade e se equivocando diversas vezes.
Tecnicamente, o filme impressiona com sequências grandiosas filmadas na Barra da Tijuca, incluindo planos-sequência memoráveis. O design de som é um destaque à parte, com analogias sonoras que ampliam o impacto da narrativa, como os tambores de escola de samba que evocam tambores de guerra, e a alternância entre silêncios angustiosos e ruídos ensurdecedores, criando uma confusão interna que também atinge os próprios personagens.

Leandra Leal e Irandhir Santos em cena de Os Enforcados- Divulgação Paris Filmes
Com Os Enforcados, Fernando Coimbra mais uma vez demonstra seu domínio do cinema autoral, explorando com ousadia os limites entre tragédia e grotesco. Ao se utilizar do Carnaval e da realidade brasileira como gatilhos criativos para reimaginar Macbeth, é criado uma narrativa que beira discussões sobre destino e punições divinas, honrando não somente suas referências, mas inaugurando novas possibilidades para o thriller e o drama no audiovisual nacional.
Os Enforcados estreia nos cinemas brasileiros no dia 14 de agosto, com distribuição da Paris Filmes.
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