Dirigido por Gabriel Mascaro, O Último Azul é uma distopia conta uma jornada íntima de libertação, somente tangenciando o seu universo futurista e seu enorme potencial.
Segundo o Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade (IDL), o estado de SP apresenta 5 das melhores cidades do Brasil para quem procura envelhecer com bem estar e dignidade, entre as cidades, se encontram São Caetano do Sul e Santos, locais que ficam afastados dos grandes centros, e que apesar de apresentarem muitas qualidades, principalmente para esta população de maior idade, ainda ficam longe dos grandes centros populacionais. Esta é uma das reflexões que O Último Azul ocasionou em mim.
O Último Azul acompanha Tereza, Denise Weinberg, uma mulher obrigada por lei a ser enviada para uma colônia isolada por ter ultrapassado os 75 anos. Durante a coletiva do 53º Festival de Gramado, a atriz destacou o quanto essa ideia distópica não parece tão distante da realidade brasileira, onde o medo do envelhecimento e o afastamento dos idosos são questões urgentes, basta observar cidades como Santos, que segundo o censo municipal de 2022, apresenta o maior percentual de pessoas acima dos 60 anos da região, muitas vezes vivendo longe de suas famílias. É nesse espelho social que o filme encontra força.

Denise Weinberg e Rodrigo Santoro em cena de “O Último Azul”- Divulgação Primeiro Plano
Com 85 minutos que soam mais longos devido ao ritmo lento da produção, a narrativa se constrói como um “boat movie”: Tereza desce os rios da Amazônia buscando realizar o seu sonho de voar, encontrando pelo caminho personagens simbólicos como o barqueiro de Rodrigo Santoro, em breve e memorável participação, e a “freira” vivida por Miriam Socarras. Aos poucos, Tereza transforma seu sonho de voar em uma busca interna por liberdade.
Apesar de evocar referências a clássicos como Admirável Mundo Novo (1932, Aldous Huxley), Mascaro prioriza um retrato poético e intimista da protagonista, deixando nas entrelinhas temas que poderiam enriquecer a trama: o funcionamento da colônia, a relação entre Tereza e a filha, ou mesmo o simbolismo místico do caracol da baba azul. Esses elementos surgem, mas raramente se desenvolvem, gerando uma sensação de vazio narrativo, apesar de uma fotografia deslumbrante e uma brilhante atuação de Weiberg.
A catarse final, quando Tereza renasce simbolicamente no cassino ilegal, assumindo uma postura que nega sua idade, é poderosa e carrega a mensagem central de que o envelhecimento não deve ser um limite imposto pela sociedade. No entanto, até chegar a esse momento, a produção se arrasta em cenas pouco significativas, como se o percurso fosse mais longo do que precisava realmente ser, na medida que nem mesmo sua protagonista sabe com certeza o que quer, e seguindo uma quantidade grande de simbolismos, que não apresentam recompensa.

Denise Weinberg em cena de O Último Aul-Divulgação Primeiro Plano
Selecionado entre os 16 filmes cotados para representar o Brasil no Oscar 2026, O Último Azul aposta em uma atmosfera quase xamânica, com trilha etérea de percussões e sopros, permanecendo sempre no limiar entre o sensorial e o narrativo. O resultado é um filme bonito, de impacto temático, mas que se restringe a um público nichado, e que pode sair decepcionado diante das expectativas já criadas em cima do filme.
O Último Azul é um ode à melhor idade e à liberdade tardia, conduzido com delicadeza visual e uma performance memorável de Denise Weinberg, optando por focar em sua personagem e sua jornada, e deixando para a audiência a reflexão sobre a força da narrativa deste universo dito como distópico, porém, tão próximo da realidade.
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim 2025, e com distribuição da Vitrine Filmes, O Último Azul estreia no dia 28 de Agosto de 2025, com pré estreias oficiais a partir do dia 19 de Agosto.
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