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Sonhar com Leões
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Sonhar com Leões’ é um exorcismo poético sobre vida e morte

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 8 de setembro de 2025
6 Min Leitura
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Dirigido por Paolo Marinou Blanco, Sonhar com Leões é um filme ousado que faz rir, pensar, chorar e torcer pela morte

Há um certo brilho em produções corajosas o suficiente para encarar tabus até o fim, sem oferecer ao espectador a salvação ou o conforto de um desfecho redentor, como ocorre em produções norte americanos que crescemos assistindo. Sonhar com Leões se destaca justamente por esta coragem, transformando a morte, tema denso, complexo e cercado de silêncios, em um exorcismo cômico e criativo que reflete sobre muitos assuntos, porém, acima de tudo, sobre a própria vida.

Na coletiva de imprensa, Denise Fraga, o diretor Paolo Marinou-Blanco e o produtor Eduardo Rezende destacaram como o longa funcionou como uma catarse pessoal e artística. Essa dimensão psicológica se revela na forma como o filme aborda a finitude: sem banalizar o tema, mas explorando com leveza as contradições entre medo, desejo e liberdade, por meio de um humor que traz uma graça e uma individualidade para a produção como um todo.

Sonhar com Leões acompanha Glória, mulher diagnosticada com câncer que, após algumas tentativas frustradas de suicídio, encontra uma ONG clandestina que promete ensinar pacientes terminais a encerrar a própria vida de modo indolor. Entre palestras absurdas e workshops sem rumo, ela conhece Amadeu, João Nunes Monteiro, um jovem que se torna seu parceiro de reflexões, descobertas e novas jornadas em uma vida que aparentava já estar no fim.

Sonhar com Leões

Denise Fraga em cena de Sonhar com Leões- Divulgação Pandora Filmes

O longa começa em tom de comédia cartunesca, a cena inicial da tentativa de suicídio é editada com ritmo anárquico e um caos muito bem recebido, abrindo margem para uma chave estética que funciona com maestria: a quebra da quarta parede. Glória fala diretamente ao público, expondo sua dor sem suavizá-la, contando com naturalidade que tentou se matar com um tiro, ou eletrocutada na banheira. Ao mesmo tempo, a personagem desafia a plateia acostumada a produções mais agradáveis: se Glória deseja tomar as rédeas da própria morte, quem somos nós para negá-la?

No meio do filmes, existe uma sequência que Glória sofre um acidente e é internada com muita dor, e neste momento de raiva e agonia, a câmera se afasta somente para Glória rapidamente a puxar de volta, indignada que neste momento nós queremos ir embora. Esta é uma das sequência mais inteligentes de uma produção recheada de momentos marcantes.

O elenco coadjuvante reforça essa força simbólica. João Nunes Monteiro equilibra com sensibilidade o peso de contracenar com Denise Fraga, e Joana Ribeiro, com breves aparições, marca presença com intensidade e um sorriso extremamente marcante.

Com o avanço da narrativa, as interrupções da quarta parede diminuem e o tom da produção se transforma. O riso dá lugar a uma tragicomédia contemplativa, na qual seguimos a amizade improvável entre dois solitários que encontram consolo na companhia um do outro. O humor cede espaço à reflexão, levando com que Sonhar com Leões nos convide a simplesmente viver esse tempo junto com seus personagens, e continuar vivendo muito tempo depois que a produção já se encerrou.

Sonhar com Leões

Joana Ribeiro em cena de Sonhar com Leões- Divulgação Oficial

Em seus curtos 85 minutos, Sonhar com Leões combina crítica social, como as instituições que lucram com a dor alheia, com um olhar íntimo sobre o que significa escolher o próprio fim, abrindo discussões sobre o direito individual de se viver e o de morrer. A cena de Glória cantando Maracangalha, canção eternizada por Dorival Caymmi, condensa a busca por um Éden particular: não um lugar de chegada, mas um estado de paz.

Se a desaceleração do terceiro ato pode soar arrastada, ela parece intencional: Marinou-Blanco nos convida a sentir a passagem do tempo, a degustar cada instante como quem se despede, após rirmos no começo, agora sentimos com muito mais peso a jornada, levando a um resultado paradoxal e belo: torcemos para que Glória morra em paz, não por frieza, mas por compreendemos que, para ela, esse é o gesto mais pleno de vida, e por empatia, nós queremos que ela a alcance, colocando em cheque o tabu de tirar a sua própria vida, com o ato humano de se decidir como deseja partir deste plano.

Distribuído nacionalmente pela Pandora Filmes, Sonhar com Leões é uma co-produção entre Brasil, Portugal e Espanha, e estreia nos cinemas no dia 11 de Setembro de 2025.

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Tags:Cinemacinema brasileirocinema nacionalcríticaCrítica Sonhar com LeõesDenise FragaDestaque no ViventePaolo Marinou BlancoSonharSonhar com LeõesVida
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