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Grazi Massafera, André Luiz Miranda e David Júnior em imagem de divulgação de Dona Beja- Divulgação HBO MAX
Cinema e StreamingCrítica

Primeiras Impressões: Linda e ousada, ‘Dona Beja’ foca na centralidade das mulheres

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 28 de janeiro de 2026
6 Min Leitura
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Grazi Massafera, André Luiz Miranda e David Júnior em imagem de divulgação de Dona Beja- Divulgação HBO MAX
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Criado por Daniel Berlinsky, Dona Beja propõe releitura da época para discutir a contemporaneidade

Após o sucesso internacional de Beleza Fatal (2025, Raphael Montes), era natural que a HBO Max continuasse investindo em novelas brasileiras para o streaming. Nesse contexto surge Dona Beja, outra produção centrada em personagens femininas fortes, agora ambientada em Araxá (MG), em um período imediatamente anterior à Independência do Brasil. É nesse cenário que conhecemos Beja, uma mulher claramente à frente de seu tempo.

Inspirada na vida de Ana Jacinta de São José, a história já havia sido adaptada em 1986, com Maitê Proença no papel-título. Quatro décadas depois, Grazi Massafera assume a personagem em um papel que dialoga diretamente com sua própria trajetória. Essa proximidade se reflete tanto na construção da protagonista quanto no discurso da atriz em coletiva realizada em 27 de janeiro, quando afirmou que abordar questões femininas faz parte de seu cotidiano.

David Júnior e Grazi Massafera em cena de Dona Beja- Divulgação HBO

David Júnior e Grazi Massafera em cena de Dona Beja- Divulgação HBO

Apesar da presença de personagens masculinos, é inegável a centralidade das mulheres em Dona Beja, da protagonista a figuras como Maria, Indira Nascimento, e Candinha, Erika Januza. Essa força feminina contemporânea, no entanto, revela-se simultaneamente uma das maiores virtudes e um dos principais problemas do início da novela.

Assim como Bastardos Inglórios (2009, Quentin Tarantino), a obra parte de um contexto histórico real, incorporando figuras como Dom Pedro I e debates sobre racismo, escravidão e o ciclo do ouro. Berlinsky, porém, opta por inserir discussões contemporâneas, como transexualidade, emancipação e liberdade feminina, de forma deliberadamente anacrônica. Embora intencionais, esses deslocamentos frequentemente quebram a imersão e tiram o espectador do eixo, tão acostumado em conhecer a história de outra forma.

Se a intenção é provocar choque e reforçar a ideia de que tanto Beja quanto a própria novela estão “acima de seu tempo”, a novela cumpre um exemplo papel por meio de uma trilha sonora atual, e momentos que beiram um erotismo claro. Ainda assim, o desconforto persiste, sobretudo quando surgem maneirismos vocais e diálogos bem mais próximos do século XXI, transformando a narrativa em um espaço quase isolado no tempo.

Visualmente, a produção impressiona. A fotografia meticulosa valoriza os personagens em meio à natureza, somada à construção de um amplo set de filmagem e a figurinos que transitam do simples ao luxuoso. Quando iluminada com precisão, Beja literalmente brilha em cena, compondo um espetáculo à parte. O problema principal reside no roteiro, que demonstra uma ânsia constante por se afirmar como subversivo e relevante, deixando a progressão orgânica da narrativa em segundo plano. O resultado são interações repetitivas e conflitos que pouco contribuem para o avanço da história.

Embora preserve marcas clássicas da telenovela, intrigas, traições, mal-entendidos e mentiras, Dona Beja parece excessivamente contida. Sob a superfície, há uma obra que deseja se libertar, mas se prende a arcos truncados e sentimentos contraditórios que não se desenvolvem plenamente. Personagens como Severina, por exemplo, surgem com boas intenções dramáticas, mas acabam vítimas de decisões fáceis, tomadas em nome de uma representação cuidadosa, porém pouco integrada à narrativa.

Ver mulheres fortes, livres e confiantes em cena é sempre bem-vindo. No entanto, quando a imagem que essas personagens projetam se sobrepõe à sua humanidade, algo se perde. Apesar de interessante, a narrativa soa fragmentada, excessivamente apoiada em flashbacks que acabam se contradizendo, e diálogos carregados de chavões já familiares ao público, que pouco acrescentam a debates previamente estabelecidos.

Grazi Massafera em cena de Dona Beja- Divulgação HBO

Grazi Massafera em cena de Dona Beja- Divulgação HBO MAX

A quebra de tradições é necessária, e Dona Beja tem potencial para gerar discussões relevantes. Ainda assim, mesmo com tamanho cuidado estético, o início da novela transmite uma sensação de artificialidade, como se estivesse mais preocupada em comunicar suas ideias do que em construir uma história envolvente. Resta torcer para que, à medida que Beja assuma plenamente seu posto como “Mulher Dama”, a narrativa encontre maior equilíbrio.

Com 40 capítulos no total e ainda 35 por vir, Dona Beja precisa decidir com mais clareza o que deseja ser. Ao priorizar a organicidade de seus personagens e arcos dramáticos, a mensagem certamente emergirá de forma mais potente, sem a necessidade de ser reiterada constantemente, um risco que pode afastar rapidamente o público, algo particularmente perigoso para uma novela que tem tanto a dizer.

Produção da HBO Max, Dona Beja estreia no catálogo do streaming em 2 de fevereiro, com distribuição prevista para mais de 100 países.

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Tags:Cinemacinema brasileirocinema nacionalcríticaCritica Dona BejaDaniel Berlinskygrazi massafera
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