Dirigido por Luiz Sergio Person, São Paulo Sociedade Anônima resiste ao tempo não como documento, mas como sintoma.
No teatro clássico, a tragédia está ligada ao destino, enquanto a comédia, à revelação da falha humana. Quando se pensamos em São Paulo Sociedade Anônima, vemos que Person estruturou uma tragédia, mas é o tempo que acrescenta a camada cômica. Não uma comédia de risos, e sim a ironia amarga de assistir a um projeto de progresso que já sabemos fracassado, principalmente pelo olhar contemporâneo que temos da cidade de São Paulo.
Ambientado entre 1957 e 1961, sob o entusiasmo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e seu lema “50 anos em 5”, o filme observa o nascimento de uma classe média industrial que acredita estar diante de um salto histórico. Carlos, seu protagonista, encarna esse impulso. Ele não é herói, tampouco vilão, é alguém que confunde ascensão com pertencimento. Sua tragédia não é cair como Ícaro; é nunca ter estado, de fato, no lugar que imaginava ocupar, por mais que tente ignorar a todos que estão em sua volta para chegar neste objetivo, desde colegas de trabalho até as mulheres de sua vida.
Em toda a sua potência arquitetônica e temerosa, a cidade funciona como uma espécie de coro grego. Comentando com uma trilha sonora quase onírica, e sufocando seus respectivos personagens. A câmera captura uma São Paulo que cresce verticalmente e implode interiormente, servindo como personagem. Concreto, aço e vidro não simbolizam apenas modernidade, mas distanciamento. O progresso aqui não é celebração, é vertigem.

Eva Wilma em cena de “São Paulo Sociedade Anônima”- Divulgação Oficial
Person adota procedimentos do cinema moderno: fragmentação narrativa, elipses bruscas, vozes em off que não confortam, não como exercício estético, mas como desorientação deliberada. A forma acompanha a asfixia. O filme não quer explicar, quer colocar o espectador dentro de um organismo que se expande enquanto corrói seus próprios habitantes.
Dentro da jornada de Carlos, a indústria automobilística surge como promessa de mobilidade e termina como metáfora de deslocamento moral. Tudo avança, menos os personagens que se encontram estagnados dentro de suas próprias ambições. Há um nacionalismo latente, uma crença insistente de que o Brasil está a poucos passos de se tornar potência. Mas o que se constrói, no fim, é um vazio elegante.
Rever São Paulo Sociedade Anônima hoje altera sua tonalidade. O que era tragédia se torna ironia histórica. O espectador sabe que não existe redenção no horizonte. Essa consciência muda o filme. O drama íntimo adquire contornos quase satíricos, não por deboche, mas por lucidez tardia.
Carlos Chagas compõe um anti-herói de ambição nervosa, sempre à beira de um gesto maior do que sua própria estrutura moral suporta. Há algo de pícaro nele, mas também de profundamente comum. Ao final, sua ruína não é exceção; é regra de um sistema que promete elevação enquanto produz desgaste, e que como as melhores peças gregas, impedem o protagonista de fugir de seu próprio destino.

Carlos Chagas em cena de “São Paulo Sociedade Anônima”- Divulgação Oficial
Talvez seja por isso que São Paulo Sociedade Anônima permaneça tão atual. A São Paulo de Person não é a de hoje, mas ainda apresenta muitos de seus traços. O sentimento de compressão, a busca incessante por validação econômica, a crença no crescimento como solução universal: nada disso envelheceu, em sua grande parte ainda estão presentes e constantes em muitas regiões.
Ao final, o filme oferece constatação. A tragédia permanece, mas agora acompanhada de uma ironia silenciosa. O progresso continua sendo vendido como destino inevitável. E a cidade segue observando, impassível, enquanto seus protagonistas repetem os mesmos movimentos, acreditando, sempre, que desta vez será diferente, e em uma jornada sisífica, sempre falhando. Por conta disso, que atualmente São Paulo Sociedade Anônima pode ser enxergado quase como uma sátira irônica, ao invés de somente uma das maiores tragédias gregas já retratadas no audiovisual brasileiro.
Com distribuição da Vitrine Filmes, a remasterização em 4k de São Paulo Sociedade Anônima estreia nos cinemas no dia 26 de Fevereiro.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



