Dirigido por Brandt Andersen, O Caso dos Estrangeiros utiliza diferentes pontos de vista para estruturar uma teia narrativa que expõe o melhor, o pior e o mais real da humanidade.
Tramas paralelas que convergem em uma única história não são novidade no cinema. Magnólia (2000, Paul Thomas Anderson) e Dunkirk (2015, Christopher Nolan) são exemplos claros dessa construção fragmentada. Em O Caso dos Estrangeiros, personagens distintos são inseridos no cenário devastado da guerra na Síria, demonstrando assim os horrores do conflito e os dilemas morais que atravessam cada um deles. Mas a pergunta permanece: isso sustenta a narrativa por si só?
A produção acompanha uma médica, interpretada pela libanesa Yasmine Al Massri; um soldado em conflito moral, vivido pelo sírio Yahya Mahayni; um contrabandista de pessoas, interpretado pelo francês Omar Sy; e um capitão de navio de resgate, papel do grego Constantine Markoulakis. A própria composição internacional do elenco já evidencia um dos focos centrais do filme: a ideia de humanidade compartilhada em meio ao colapso. Empatia e consciência tornam-se fios condutores deste quebra-cabeça narrativo.

Omar Sy em cena de “O Caso dos Estrangeiros”- Divulgação Paris Filmes
Ao transitar da zona de guerra síria para uma Tunísia claustrofóbica e solitária, marcada constantemente por uma paleta pastel dessaturada e um silêncio agonizando, O Caso dos Estrangeiros reforça a sensação de esgotamento moral. A escolha de abrir a obra com uma citação de William Shakespeare que exemplifica justamente o nome do filme, não soa gratuita: o contraponto entre indiferença e envolvimento ecoa ao longo de toda a narrativa, sugerindo que permanecer alheio é, por si só, uma escolha ética.
A comparação com Yes (2026, Nadav Lapid) surge quase naturalmente. Porém, enquanto o filme de Nadav Lapid adota uma sátira pop e caótica para discutir a impossibilidade da neutralidade, O Caso dos Estrangeiros opta por um realismo de viés mais docuficcional. Longos planos-sequência intensificam a sensação de tempo real; mortes abruptas e silenciosas reforçam a frieza do conflito; a câmera posiciona o espectador dentro da ação, seja na intimidade dos personagens, seja na brutalidade direta da guerra.
Esteticamente, a construção é sólida. O uso do silêncio, a movimentação de câmera e a montagem contribuem para um sentimento constante de tensão. No entanto, quando observamos os personagens mais de perto, percebe-se um descompasso: seus conflitos externos são evidentes, mas os internos raramente ultrapassam o arquétipo. Com exceção de Mustafa, o soldado dividido entre dever e consciência, os demais personagens acabam reduzidos a funções dramáticas: o traficante que também é pai atencioso, o capitão exausto pelo acúmulo de tragédias. Elementos interessantes mas que permanecem na superfície por conta da mensagem que é do grupo, e não de alguém específico.

Konstantinos Markoulakis em cena de “O Caso dos Estrangeiros”- Divulgação Paris Filmes
Assim, apesar da competência técnica e da relevância temática, O Caso dos Estrangeiros orbita mensagens já esperadas: “a guerra é devastadora” e “a solidariedade é necessária”, sem aprofundá-las de maneira realmente transformadoras ou originais. Há momentos em que a mise-en-scène captura a violência com tamanha elaboração estética que o impacto emocional se dilui, aproximando-se mais de uma contemplação estilizada do trauma do que de uma investigação genuína de suas consequências humanas.
Andando na corda bamba entre intensidade visual e desenvolvimento dramático limitado, O Caso dos Estrangeiros cumpre sua função ao provocar desconforto e reflexão. No entanto, ao final, o que permanece não são seus personagens, mas suas imagens. Potentes e fortes, sem dúvida, porém insuficientes para sustentar a complexidade moral que o próprio filme sugere.
Distribuído pela Paris Filmes, O Caso dos Estrangeiros estreia nos cinemas em 26 de fevereiro.
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