Dirigido por Mona Fastvold, O Testamento de Ann Lee traz potência estética e material histórico, porém tropeça no elemento que deveria sustentar sua grandiosidade: o ritmo.
O gênero musical apresenta muitas possibilidades de ser representado no cinema, desde uma forma mais clássica e tradicional como La La Land: Cantando Estações (2016, Damien Chazelle) até de uma maneira mais experimental e inserida em sua história, como é o caso de O Testamento de Ann Lee.
Na produção de Mona Fastvold, acompanhamos a fundação da religião Shaker, oficialmente chamada de Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Vinda de Cristo, e exploramos a história de sua fundadora, Ann Lee, seus impactos tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, e as contradições e problemas inerentes ao movimento. Para contar essa trajetória, a produção adota uma atmosfera de musical que busca trazer maior dinamismo e intensidade à narrativa.
Em teoria, a ideia de retratar a origem de uma religião cujos próprios princípios a tornam insustentável é extremamente interessante, especialmente quando consideramos o celibato imposto aos membros da comunidade. Mona Fastvold constrói essa história com evidente coragem visual, criando planos belíssimos que ganham ainda mais força quando combinados a uma edição que se aproveita muito bem de cortes secos e planos sequências durante as performances musicais.

Amanda Seyfried em “O Testamento de Ann Lee”- Divulgação Searchlight
Apesar de O Testamento de Ann Lee tratar sua religião e seus seguidores com respeito, especialmente sua líder, um certo senso de ironia permeia constantemente a narrativa. Nos rituais Shaker, em que os fiéis sacudiam o corpo em êxtase para receber o Espírito Santo, a semelhança com um orgasmo é difícil de ignorar. Em diversos momentos, a intensidade física das performances faz parecer que os personagens estão prestes a iniciar uma orgia coletiva, algo que, ironicamente, jamais poderia acontecer, justamente por conta do rígido celibato que estrutura a comunidade.
As regras, contradições e fragilidades dessa organização aparecem ao longo do filme, embora muitas delas acabem pouco exploradas. Isso se torna evidente quando observamos personagens próximos de Ann Lee, como seu irmão William, que a acompanha até o fim do mundo enquanto abdica de um relacionamento homoafetivo, um conflito dramático que infelizmente recebe pouca atenção, ou no marido da líder. O foco é constante no épico espiritual de Ann Lee, e esse é, de fato, o eixo central da narrativa.
Assim como nas narrativas bíblicas, O Testamento de Ann Lee constrói sua história a partir da relação entre Deus e aqueles que o seguem. Dentro da lógica da produção, Ann Lee surge como uma espécie de personificação de Cristo, enquanto seus seguidores assumem o papel de ovelhas obedientes, acatando suas decisões mesmo quando demonstram dúvidas ou hesitação.

Amanda Seyfried em “O Testamento de Ann Lee”- Divulgação Searchlight
Cada rito e passagem do filme é retratado com grande apelo estético. No entanto, quando algumas performances musicais dos Shakers se estendem por cinco, às vezes quase dez, minutos, e os cânticos começam a soar excessivamente semelhantes entre si, o cansaço do público se torna inevitável.
Com 2 horas e 17 minutos de duração, O Testamento de Ann Lee tinha potencial para se tornar muito mais do que um espetáculo visual impressionante. A produção apresenta uma história repleta de contradições, conflitos e curiosidades históricas, além de performances musicais bem encenadas que, graças ao uso de planos gerais e sequências prolongadas, capturam uma grandiosidade que em certos momentos supera até mesmo a escala vista em Wicked (2024), dirigido por Jon M. Chu. Soma-se a isso um elenco competente liderado pela força magnética de Amanda Seyfried.
A narrativa acompanha toda a trajetória de Ann Lee, desde seu nascimento até sua morte, e os letreiros finais revelam o destino que a religião Shaker acabaria tomando. Ainda assim, a história se estende além do necessário, com longos intervalos dedicados às performances musicais e cenas que poderiam facilmente ser condensadas. O resultado é uma obra que, apesar de visualmente hipnotizante, sofre com um ritmo irregular que compromete seu impacto dramático.
Ironicamente, assim como os Shakers precisavam de contenção em seus impulsos, O Testamento de Ann Lee também se beneficiaria de uma maior disciplina narrativa, assim, limitando certos excessos para permitir que sua história fluísse com mais força.
Distribuído pela 20th Century Studios, O Testamento de Ann Lee estreia nos cinemas no dia 12 de fevereiro.
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