Dirigido por André e Salomão Abdala, 2Die4: 24 Horas no Limite foca na estética e prioriza a forma em detrimento de uma construção dramática consistente.
Na pré-estreia de 2Die4: 24 Horas no Limite, realizada no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, os diretores André e Salomão Abdala destacaram a importância do filme e suas influências, citando nomes como Christopher Nolan, obras como Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014, Damien Chazelle), e enfatizando o fato de ser a primeira produção brasileira em Imax. A obsessão pela excelência e pelo triunfo pessoal, temas centrais nessas referências, também moldam o protagonista da obra: o piloto Felipe Nasr, retratado aqui em uma docuficção sobre sua busca pela vitória nas 24 Horas de Le Mans.
O problema é que essa obsessão, que deveria sustentar a narrativa, acaba por esvaziá-la.
Desde o início, entendemos qual é o objetivo de Felipe: vencer Le Mans. No entanto, 2Die4: 24 Horas no Limite pouco se interessa em responder a uma pergunta essencial: quem é Felipe Nasr além desse desejo? Sua construção se limita a uma narração em off constante, marcada por reflexões superficiais e repetitivas, que acabam revelando um personagem unilateral, sem nuances ou conflitos reais. Falta complexidade, falta contradição, elementos fundamentais para gerar envolvimento, e presentes nas principais referências dos diretores.

Cena de ‘2die4: 24 Horas no Limite’- Divulgação O2Play
Ao longo de seus 61 minutos, o filme acompanha apenas fragmentos da corrida, sempre filtrados pela perspectiva do protagonista. Essa escolha, que poderia intensificar a imersão, acaba reforçando a monotonia emocional. Sem evolução dramática, os pensamentos e interações de Felipe entram em um ciclo redundante que rapidamente se esgota.
No quesito ritmo, 2Die4 se apoia em recursos que mais estendem sua duração do que contribuem para sua narrativa. Planos longos de chuva no asfalto, sequências de acidentes, cortes para o preto excessivamente prolongados e inserções musicais pouco orgânicas surgem como tentativas de preencher o tempo. Em vez de ampliar a experiência, essas escolhas enfraquecem o impacto e evidenciam a falta de material dramático mais consistente.
Por outro lado, é inegável o cuidado técnico da produção. O uso do som nas salas IMAX é um dos pontos altos do filme: cada respiração, cada aceleração e cada impacto são sentidos com intensidade. A câmera em primeira pessoa reforça essa proposta, colocando o espectador dentro do carro, dentro da corrida, dentro da experiência. Por momentos, não estamos apenas assistindo, estamos pilotando.
Mas essa imersão não se sustenta sozinha.
Sem uma base narrativa sólida, o impacto sensorial perde força com o tempo. O que começa como uma experiência envolvente gradualmente se torna cansativo, justamente pela ausência de progressão dramática. Felipe não enfrenta dilemas significativos, não passa por transformações, não constrói um arco. Ao final, permanece essencialmente o mesmo, sendo uma escolha que enfraquece até mesmo dentro da proposta documental.
A influência de Christopher Nolan se torna mais evidente na reta final, especialmente na tentativa de replicar um desfecho similar ao de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). No entanto, sem o devido desenvolvimento, essa referência soa menos como homenagem e mais como imitação deslocada, evidenciando um certo descompasso entre ambição e execução.
Ao contrário de obras como Suspiria (1977, Dario Argento), onde a estética se impõe como linguagem e cria uma identidade marcante, aqui o apuro visual não encontra sustentação narrativa. A forma tenta carregar o filme, mas não encontra conteúdo suficiente para justificar seu peso.

Poster Oficial de 2die4, primeiro longa metragem brasileiro concebido para Imax- Divulgação O2Play
No fim, 2Die4: 24 Horas no Limite é um projeto que impressiona pela técnica e pelo seu potencial pioneiro, mas carece de profundidade. Sua estética é cuidadosa, seu som é imersivo, sua proposta é ambiciosa, mas nada disso compensa a ausência de um coração narrativo pulsante.
Quando a música silencia, a chuva cessa e o ruído dos motores desaparece, o que resta é pouco. E talvez esse seja o maior problema do filme: não aquilo que ele mostra, mas aquilo que ele nem sequer tentou construir.
Distribuído pela O2Play, 2Die4: 24 Horas no Limite estreia nos cinemas no dia 30 de abril.
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