Dirigido por Antoine Fuqua, Michael segue uma cartilha conhecida: muito espetáculo, muitos momentos icônicos e pouco interesse em investigar, de fato, a complexidade de seu protagonista.
A melhor forma de definir Michael talvez seja através de uma analogia simples: trata-se de uma obra que encanta à primeira vista, mas que rapidamente revela a ausência de substância. Assim como certos interesses amorosos idealizados em comédias românticas, a produção de Antoine Fuqua constrói uma imagem sedutora de seu protagonista sem jamais se preocupar em aprofundá-lo. O que resta é uma superfície bonita, porém incapaz de sustentar envolvimento emocional duradouro.
Esse esvaziamento não parece acidental. Com a família Jackson diretamente envolvida na produção, o filme opta por uma abordagem claramente higienizada da trajetória de Michael Jackson. Conflitos, controvérsias e aspectos mais delicados de sua vida são sistematicamente evitados, criando um retrato que se aproxima mais da idealização do que da realidade. A figura de Joe Jackson, por exemplo, surge significativamente suavizada, enquanto a ausência de Janet Jackson levanta questionamentos sobre a integridade narrativa do projeto. O filme não apenas simplifica, ele reescreve e estrutura um conto de fadas bonito e poético, mas que remete a um sonho que nunca alcança seu verdadeiro potencial.

Jaafar Jackson em cena de “Michael”- Divulgação Universal Pictures
Narrativamente, Michael sofre de um problema recorrente no gênero: a obsessão em cobrir toda a vida do artista. Ao acompanhar cerca de duas décadas da carreira do cantor, do Jackson 5 até o início da era Bad, o roteiro sacrifica profundidade em nome de abrangência. Em vez de construir um arco dramático consistente, o filme se organiza como uma sucessão de episódios e momentos marcantes, muitos deles já amplamente conhecidos pelo público. Sem um fio condutor forte, a experiência se torna previsível e, em diversos momentos, monótona.
A atuação de Jaffar Jackson evidencia outra limitação importante. Embora exista um evidente comprometimento em capturar trejeitos e presença de palco, o trabalho é restringido por um roteiro que se recusa a explorar contradições. O Michael apresentado aqui é quase sempre gentil, incompreendido, infantil e altruísta, uma figura unilateral que pouco evolui ao longo da narrativa, afinal, a jornada não é em busca de seu estrelato, e sim uma busca por liberdade. Ao evitar qualquer ambiguidade, o filme elimina justamente o que poderia torná-lo interessante.
Essa superficialidade se estende aos personagens secundários. Miles Teller, no papel de John Branca, é reduzido a uma função puramente utilitária: surge apenas quando a narrativa precisa avançar ou explicar decisões de carreira. Falta a esses personagens qualquer densidade que contribua para a construção do universo ao redor do protagonista.

Jaafar Jackson em cena de “Michael”- Divulgação Universal Pictures
Do ponto de vista técnico, Michael cumpre o esperado. As recriações de performances e o uso do repertório musical do artista, incluindo o icônico clipe Thriller, conferem energia e impacto às cenas. No entanto, esses elementos funcionam mais como compensação do que como integração orgânica à narrativa. São picos de entretenimento que mascaram, mas não resolvem, a fragilidade estrutural do filme.
No fim, Michael se encaixa perfeitamente em uma tendência recente de cinebiografias que priorizam a celebração em detrimento da investigação. Ao evitar riscos e conflitos reais, constrói um retrato excessivamente polido, que pode agradar os fãs mais apaixonados que buscam um espetáculo, mas dificilmente satisfaz quem busca compreensão mais profunda do artista. É um espetáculo eficiente, mas vazio: uma obra que impressiona pela forma, mas que falha em capturar a essência de um dos nomes mais complexos da cultura pop.
Distribuído pela Universal Pictures, Michael estreia nos cinemas no dia 23 de Abril, porém, já apresenta sessões especiais a partir do dia 21.
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