Dirigido por Damian Mc Carthy, Hokum – O Pesadelo da Bruxa entrega um potente healing horror que consegue assustar não apenas por seus sustos, mas pela construção de uma atmosfera densa e constante.
Minha relação para realmente apreciar o terror, foi tardia. Quando assisti Coraline e o Mundo Secreto (2009, Henry Selick) aos 9 anos, fui tomado por um medo tão grande que evitei qualquer contato com a obra por quase uma década. Ao revisitá-la anos depois, ficou claro o quão genial era sua construção atmosférica, elemento que também se torna o principal destaque em Hokum – O Pesadelo da Bruxa.
Ao transportar um protagonista antipático, autocentrado e emocionalmente marcado para regiões remotas da Irlanda, o filme mergulha com força no folclore local. Desde os primeiros momentos, com bonecos que narram histórias perturbadoras, somos inseridos em um universo onde bruxas e entidades fazem parte do imaginário coletivo, e da realidade que se impõe gradualmente.

Cena de “Hokum – O Pesadelo Da Bruxa”- Divulgação Diamond Pictures
A estrutura narrativa aposta em um primeiro ato, e parte do segundo, mais contemplativos, dedicados à ambientação e construção de mundo. Se por um lado isso fortalece a imersão e a tensão latente, por outro pode afastar espectadores que esperam um desenvolvimento mais imediato do horror. Quando o filme engrena de vez, no entanto, entrega uma sequência quase ininterrupta de tensão e mistério, ao mesmo tempo com simbolismos que engrandecem o filme, como um simples fechar de olhos final que traz muitos significados.
Os jump scares seguem uma fórmula bastante reconhecível dentro do gênero, o que pode torná-los previsíveis para um público mais habituado ao terror. Ainda assim, funcionam com eficiência justamente por conta da atmosfera cuidadosamente construída, que amplifica seu impacto. Mais do que sustos pontuais, é o conjunto técnico, com destaque para o desenho de som, direção de arte e fotografia, que sustenta uma sensação constante de desconforto.
Adam Scott, mais conhecido por seus trabalhos televisivos, entrega um protagonista que equilibra antipatia e vulnerabilidade. Seu arco se desenvolve de maneira gradual, revelando traumas e inseguranças que dialogam diretamente com os horrores enfrentados. A profundidade de campo é muito bem trabalhada em contextualizar o horror e tornar o espectador consciente de algo que seus personagens estão alheios. Ao longo de Hokum – O Pesadelo da Bruxa, não são apenas as entidades sobrenaturais que o transformam, mas também os encontros humanos que o forçam a confrontar o próprio passado.
É nesse ponto que Hokum – O Pesadelo da Bruxa se insere no chamado healing horror, subgênero que utiliza o terror como ferramenta de catarse emocional. Obras como O Babadook (2014, Jennifer Kent) e Coraline e o Mundo Secreto já exploraram essa abordagem, em que o horror externo reflete conflitos internos, conduzindo personagens, e espectadores, a um processo de enfrentamento e possível cura.

Florence Ordesh em cena de “Hokum – O Pesadelo Da Bruxa”- Divulgação Diamond Pictures
Visualmente, Mc Carthy demonstra domínio ao explorar os cenários naturais da Irlanda, especialmente ao situar a narrativa durante o Halloween. A utilização de luz diegética reforça a vulnerabilidade dos personagens, amplia o horror, e momentos de completa escuridão ampliam a sensação de angústia. Hokum – O Pesadelo da Bruxa não hesita em abraçar o grotesco, o bizarro e o violento, construindo uma experiência que oscila entre o medo primitivo e o simbolismo emocional.
Ao final, a produção se sustenta como uma experiência sensorial e emocionalmente envolvente, ainda que não reinvente as ferramentas do gênero. É justamente na combinação entre atmosfera, simbolismo e catarse que o filme encontra sua força, entregando um terror que assusta, provoca e, ao final, oferece uma narrativa potente, assustadora, e que entrega um inesperado alívio.
Distribuído pela Diamond Pictures, Hokum – O Pesadelo da Bruxa estreia no dia 30 de abril.
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