Dirigido por Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira, Hungria: A Escolha de um Sonho parte de um material potente mas se perde ao tentar abraçar conflitos sem desenvolver nenhum com profundidade.
Assim como no cenário internacional, o cinema brasileiro já explorou diversas vezes o formato da cinebiografia musical. De retratos mais solenes como Elis (2016, Hugo Prata) a abordagens irreverentes como Homem com H (2025, Esmir Filho), essas produções costumam equilibrar dificuldades e conquistas para construir empatia com seus protagonistas. O problema em Hungria: A Escolha de um Sonho é mais básico: falta um eixo narrativo claro.
Enquanto Meu Sangue Ferve por Você (2023, Paulo Machline) encontra força justamente em seu recorte íntimo e bem delimitado, Hungria: A Escolha de um Sonho se dispersa ao tentar dar conta de múltiplas frentes. Logo no início, o filme apresenta uma série de elementos: o “milagre” de seu nascimento, o bullying escolar, o primeiro interesse amoroso, o desejo de ajudar a mãe, a descrença geral em seu sonho. Nenhum deles, porém, é desenvolvido de forma consistente, ou realmente marcante, quase como se fosse material para aumentar o tempo de duração do filme.

Gabriel Santana em cena de “Hungria: A Escolha de Um Sonho”- Divulgação Studio 10
O conflito que mais se sustenta é a relação entre Hungria e seu primo e empresário, Gabiru. Esta parceria marcada por ambição, violência, persistência e decisões moralmente questionáveis é o farol de toda a narrativa. Ainda assim, mesmo esse núcleo carece de maior aprofundamento. A jornada até Brasília, as enganações pelo empresário, o fato de não conseguir entrar na boate, são fatores externos que afetam o sucesso deles, nada diretamente relacionado à Hungria em si.
A própria premissa de que o protagonista “desafia as regras do rap” nunca se concretiza. O filme não estabelece quais são essas regras, nem como ele as rompe. Em contrapartida, os obstáculos mais concretos: equipamentos precários, exploração financeira, limitações legais, soam muito mais relevantes e críveis do que questionamentos sobre o próprio talento do rapper, que mantém um padrão de sempre ser reconhecido, sendo comparado em certo momento até mesmo com Snoopy Dog.

Neguim Pacificadores em cena de “Hungria: A Escolha de Um Sonho”- Divulgação Studio 10
O excesso de subtramas também pesa. A personagem da “namorada”, por exemplo, existe apenas como gatilho de conflito superficial e desaparece sem resolução, ou justificativa. O pai do protagonista é retratado como uma figura opressora, mas sem base dramática suficiente para sustentar essa percepção, um contraste evidente com construções mais sólidas vistas em produções recentes como Michael (2026, Antoine Fuqua). Já a relação de Gabiru com agiotas é tratada de forma apressada e pouco significativa.
Essa fragmentação constante enfraquece o envolvimento do espectador. O filme parece pressupor que a identificação virá automaticamente pelo fato de se tratar de Hungria, um artista já consagrado com mais de 13 milhões de seguidores no Instagram. Isso funciona até certo ponto, mas em nenhum momento substitui uma narrativa bem construída.
Ao final, Hungria: A Escolha de um Sonho tenta posicionar seu protagonista como alguém que venceu um sistema injusto, mas falha em definir esse sistema ou em estruturar claramente os obstáculos que moldaram sua trajetória. Ao priorizar a exaltação em detrimento da construção dramática, a produção entrega uma jornada rasa, e muito aquém do potencial de sua própria história.
Distribuído pela Studio 10, Hungria: A Escolha de um Sonho estreia nos cinemas no dia 07 de Maio.
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