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Cena de "O Labirinto dos Garotos Perdidos"- Divulgação Filmicca
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘O Labirinto dos Garotos Perdidos’ é subversão de contos de fadas com tons de erotismo

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 27 de maio de 2026
5 Min Leitura
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Cena de "O Labirinto dos Garotos Perdidos"- Divulgação Filmicca
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Dirigido por Matheus Marchetti, O Labirinto dos Garotos Perdidos poderia aprofundar suas ideias, mas tem uma narrativa repetitiva e excessivamente apoiada em tons de erotismo.

Logo nos primeiros minutos, O Labirinto dos Garotos Perdidos mergulha o espectador em uma atmosfera fantástica por meio de uma narradora onisciente, discutindo diretamente com a lógica de contos de fadas. Em meio à escuridão, ouvimos apenas a pergunta sobre o início da história antes de acompanharmos um protagonista hesitante diante de uma porta misteriosa. Quando finalmente aberta, ela revela uma intensa luz azul, remetendo diretamente à estética marcante de Suspiria (1977, Dario Argento).

Na sequência, a fantasia dá lugar a uma cena de sexo filmada de maneira extremamente íntima, marcada por suor, respiração ofegante, closes e gemidos. Pouco depois, o prazer é abruptamente interrompido pela morte de um dos personagens, em uma cena de violência estilizada, com sangue escarlate escorrendo pelo corpo nu. Conto de fadas, erotismo homoafetivo e violência formam o tripé temático que sustenta o longa.

Assim como Depois de Horas (1985, Martin Scorsese), o filme acompanha um jovem introvertido que, após um encontro frustrado por aplicativo, atravessa uma noite marcada por figuras excêntricas e experiências desconfortáveis. Entre os personagens que cruzam seu caminho estão um homem excessivamente dependente da mãe, um sujeito com fetiches inusitados, um personagem suicida e até o namorado de sua prima. Em nenhuma dessas interações, porém, o prazer ou o desejo parecem conduzir a algum tipo de realização.

Cena de "O Labirinto dos Garotos Perdidos"- Divulgação Filmicca

Cena de “O Labirinto dos Garotos Perdidos”- Divulgação Filmicca

Sem o humor ácido presente no clássico de Scorsese, O Labirinto dos Garotos Perdidos aposta em uma estética que remete ao cinema de horror das décadas de 1970 e 1980. As cores saturadas, os personagens caricatos, a iluminação onírica e a trilha sonora constante ajudam a construir uma atmosfera de pesadelo urbano. Elementos da cidade de São Paulo, como o Aquário de São Paulo, o Parque Ibirapuera e até a exposição de terror realizada no MIS em 2024, são incorporados não apenas como cenário, mas como parte fundamental da construção simbólica do filme.

Essa ambientação reforça a sensação de deslocamento do protagonista diante de uma cidade opressiva e quase inatingível, situada entre o sonho e a realidade. Ainda assim, o longa hesita entre abraçar plenamente sua dimensão fantástica ou permanecer preso a um realismo psicológico mais convencional.

A proposta de subverter contos de fadas também acaba se revelando mais superficial do que aparenta inicialmente. A premissa envolvendo um assassino de homens perde força ao longo da narrativa, diluída em episódios episódicos da jornada de Miguel pela cidade. Embora exista uma intenção clara de transformar comportamentos cotidianos em experiências desconfortáveis e ameaçadoras, o filme nem sempre consegue sustentar a lógica onírica necessária para que esses exageros funcionem plenamente.

Cena de "O Labirinto dos Garotos Perdidos"- Divulgação Filmicca

Cena de “O Labirinto dos Garotos Perdidos”- Divulgação Filmicca

Ainda assim, há méritos importantes na maneira como a obra articula referências ao cinema de horror com uma representação abstrata de relacionamentos queer e da solidão contemporânea. O que começa como um filme de terror gradualmente se transforma em uma narrativa melancólica sobre desejo, isolamento e idealização afetiva.

Ao final, permanece a sensação de vazio. Apesar da estética sofisticada, da ousadia visual e das boas intenções temáticas, O Labirinto dos Garotos Perdidos encontra dificuldades em desenvolver uma narrativa à altura de suas ambições. Em muitos momentos, aproxima-se mais do cinema experimental, evocando obras como Valerie e a Semana das Maravilhas (1970, Jaromil Jireš). Diferentemente de Suspiria, em que a forma potencializa plenamente o conteúdo, aqui o impacto visual não é suficiente para sustentar o filme sozinho.

Distribuído pela Filmicca, O Labirinto dos Garotos Perdidos estreia nos cinemas brasileiros em 04 de Junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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