Dirigido por Carine Wallauer, Copan retrata o cotidiano, as contradições e a vida dos moradores de um dos prédios residenciais mais tradicionais de São Paulo
Quando vou à Tokyo, karaokê e balada presente no centro de São Paulo, gosto de ficar na área externa observando não somente a cidade, mas também os prédios ao redor, especialmente o Copan. Uma vez, uma amiga comentou que hóspedes de Airbnbs no edifício costumam receber abafadores de ouvido, por conta do barulho da cidade. Durante o documentário de Carine Wallauer, esse detalhe me voltou à cabeça diversas vezes.
Semelhante a Edifício Master (2002, Eduardo Coutinho), Copan retrata o cotidiano, as contradições e a intimidade dos moradores de um dos edifícios mais tradicionais de São Paulo. Entre reuniões de condomínio, funcionários trabalhando, famílias acompanhando a apuração das eleições de 2022, um DJ e até uma camgirl, o documentário percorre diferentes vidas que coexistem dentro do prédio projetado por Oscar Niemeyer.

Cena de “Copan”- Divulgação Vitrine Filmes
A produção se inicia com vozes em off enquanto a câmera sobrevoa São Paulo. O encerramento repete o movimento, agora deixando o edifício após apresentar parte de seus corredores, apartamentos e moradores. A escolha cria uma sensação de ciclo e reforça a ideia do Copan como uma pequena cidade vertical, carregada de histórias, conflitos e diferentes visões de mundo.
Apesar disso, o documentário raramente consegue transformar essas vivências em algo realmente marcante. Carine Wallauer, que morou sete anos no edifício, opta por uma abordagem observacional e íntima, acompanhando momentos privados de seus personagens sem grandes interferências. A câmera captura conversas, rotinas e silêncios com naturalidade, mas frequentemente mantém uma distância emocional que impede o longa de atingir um impacto maior.
O problema não está na proposta intimista, mas na repetição. Após certo ponto, as interações passam a soar semelhantes demais, tornando os 90 minutos cansativos. Enquanto Eros (2024, Rachel Daisy Ellis), utilizava quartos de motéis para construir perspectivas distintas e muito particulares, Copan prefere observar seus personagens quase sempre em terceira pessoa. Falta uma quebra mais direta, um momento em que os moradores assumam o controle do olhar e conversem frontalmente com a câmera, permitindo que o público enxergue o edifício através de suas próprias perspectivas.

Cena de “Copan”- Divulgação Vitrine Filmes
Outro aspecto que enfraquece o filme é a pouca exploração do entorno do prédio. Embora o foco esteja em seu interior, especialmente nos corredores que, em alguns momentos, lembram cenários de filmes de terror, o documentário deixa de lado parte da potência urbana do Copan. Um dos momentos mais interessantes surge justamente quando a câmera chega ao Copanzinho, tradicional bar da região. É ali que o longa finalmente parece respirar a cidade ao redor.
Considerando a localização do edifício, em plena República, o filme poderia explorar de maneira mais significativa a relação entre o Copan e o centro de São Paulo. Existe uma grandiosidade arquitetônica, social e histórica que permanece apenas sugerida, nunca plenamente desenvolvida.
Com trilha sonora assinada por KL Jay, membro fundador dos Racionais MC’s, Copan transmite intimidade e carinho pelo edifício. Como retrato de um Brasil politicamente dividido e como homenagem afetiva ao prédio, o documentário funciona. Ainda assim, ao limitar seu olhar a observações repetitivas e distantes, deixa escapar a chance de se tornar tão grandioso quanto o próprio edifício que retrata.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Copan estreia nos cinemas no dia 28 de maio.
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