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Maika Monroe e Emma Corin em cena de "100 noites de Desejo"- Divulgação Paris Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘100 Noites de Desejo’ transforma contos de fadas em grito de resistência

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de junho de 2026
6 Min Leitura
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Maika Monroe e Emma Corin em cena de "100 noites de Desejo"- Divulgação Paris Filmes
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Dirigido por Julia Jackman, 100 Noites de Desejo é espetáculo visual que remete aos grandes contos de fantasia.

É quase mágico que, em pleno 2026, uma produção como 100 Noites de Desejo tenha sido realizada com tanta delicadeza. Enquanto grande parte do cinema contemporâneo abraça um realismo cada vez mais niilista, Julia Jackman aposta na esperança, na perseverança feminina e na força do amor. Mesmo sem um desfecho tão grandioso quanto poderia ter, o filme preserva sua sensibilidade até o fim.

A trama acompanha Cherry, Maika Monroe, uma jovem inocente presa a um casamento distante e negligente. Sua única alegria é a companhia da devota empregada Hero, Emma Corrin, com quem compartilha seus medos e desejos. Quando o marido, Jerome, parte em uma misteriosa viagem de negócios, Cherry fica sozinha com um visitante inesperado: Manfred, Nicholas Galitzine, amigo charmoso e libertino de seu esposo. A chegada do personagem desencadeia uma dinâmica delicada que coloca os sentimentos de Cherry à prova.

Tecnicamente, 100 Noites de Desejo é um verdadeiro espetáculo. O uso da iluminação à luz de velas é particularmente belo, enquanto os enquadramentos meticulosamente calculados e o desfoque constante remetem aos melhores trabalhos de Wes Anderson. A direção de arte constrói um universo que vai além do triângulo formado por Cherry, Hero e Manfred, explorando temas como religião, medo e opressão feminina.

Nicholas Galitzine e Emma Corin em cena de "100 noites de Desejo"- Divulgação Paris Filmes

Nicholas Galitzine e Emma Corin em cena de “100 noites de Desejo”- Divulgação Paris Filmes

É nesse contexto que a narrativa se desenvolve. O filme faz questão de reforçar constantemente o abismo entre homens e mulheres dentro da sociedade criada por Birdman, a divindade desse universo. Mulheres não podem ler, escrever ou desafiar a vontade dos maridos sem enfrentar consequências fatais. Em seus 92 minutos, a obra raramente permite que o espectador esqueça essa realidade, seja por meio da narração irônica ou da própria jornada de suas protagonistas.

A relação que floresce entre Cherry e Hero faz a imaginação do espectador percorrer longas distâncias. De As Mil e Uma Noites a produções tchecas como A Princesa Terrivelmente Triste (1968, Bo?ivoj Zeman), passando por Mulheres que Correm com os Lobos, o filme utiliza diversas referências para construir um conto feminista e romântico que, em muitos momentos, alcança seu objetivo.

Entretanto, quando uma boa ideia é repetida à exaustão, o desgaste se torna inevitável. É fascinante acompanhar a história das três irmãs que desafiaram o patriarcado, mas o ritmo excessivamente lento e a insistência em enfatizar temas já estabelecidos prejudicam a experiência. O resultado é uma obra capaz de encantar admiradores de contos de fadas e fantasia, mas que pode afastar parte do público pela falta de sutileza.

Podendo ser classificado como cinema de arte, 100 Noites de Desejo exige reflexão e mente aberta. Seus simbolismos raramente são explicados de forma direta, o que não chega a ser um problema. Dentro desse rico universo de opressão religiosa, bruxaria, feitiços e amores proibidos, inúmeras possibilidades narrativas se apresentam. Ainda assim, o roteiro prefere concentrar sua atenção no microcosmo de Cherry e Hero. Até mesmo Manfred, peça importante para o desenrolar da trama, acaba relegado a um papel secundário.

Maika Monroe e Emma Corin em cena de "100 noites de Desejo"- Divulgação Paris Filmes

Maika Monroe e Emma Corin em cena de “100 noites de Desejo”- Divulgação Paris Filmes

O potencial da obra era enorme. Havia espaço para desenvolver um conto de fadas ainda mais ambicioso, dialogando com Teorema (1968, Pier Paolo Pasolini), e com narrativas clássicas do norte da Europa. Em vez disso, Jackman opta por um caminho mais seguro, ainda que competente.

A cinematografia impressiona, a direção de arte se destaca e o elenco entrega ótimas performances, especialmente Nicholas Galitzine. Ainda assim, esses elementos não compensam totalmente um roteiro que, por vezes, parece mais interessado em funcionar como literatura do que como cinema.

Ao final, 100 Noites de Desejo permanece como uma obra imperfeita, mas memorável. Seja pela beleza de seus cenários, pela riqueza visual ou pela celebração da força feminina, o filme encontra maneiras de permanecer na mente do espectador muito depois dos créditos finais.

Distribuído pela Paris Filmes, 100 Noites de Desejo chega aos cinemas em 4 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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