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Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Mestres do Universo’ é bem mais do que você estava esperando

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 2 de junho de 2026
9 Min Leitura
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Adam (imagem: Amazon MGM)
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Dirigido por Travis Knight, Mestres do Universo encontra sua identidade ao expandir a mitologia de Eternia e utilizar sua fantasia como ferramenta para discutir masculinidade, amadurecimento e identidade.

A franquia Mestres do Universo nasceu como uma linha de brinquedos criada para competir com o sucesso de Star Wars, mas acabou transcendendo sua origem comercial. Seja pela força imagética de seu universo repleto de castelos, espadas mágicas e criaturas fantásticas, seja pelo impacto cultural do desenho original, Mestres do Universo permaneceu relevante ao longo das décadas justamente por sua capacidade de se reinventar. Sob a direção de Travis Knight, essa reinvenção alcança talvez sua forma mais ambiciosa.

Funcionando mais como uma história de origem do que como uma continuação direta da mitologia, o filme acompanha a jornada de Adam em direção ao papel que o destino lhe reserva. Em sua superfície, a narrativa segue uma estrutura clássica de fantasia heróica: o jovem que não acredita em seu próprio valor até descobrir sua verdadeira força. Não há grande originalidade nessa construção. Pelo contrário, diversos momentos evocam referências claras a Star Wars (1977, George Lucas) e a inúmeras outras jornadas que moldaram o cinema de aventura moderno.

O diferencial está na forma como Knight utiliza essa estrutura familiar para explorar questões mais íntimas. Desde os primeiros minutos, Mestres do Universo sugere uma reflexão sobre os modelos de masculinidade apresentados aos seus personagens. Essa discussão ganha força à medida que acompanhamos as trajetórias paralelas de Adam e Mentor, figuras que representam diferentes visões de força, responsabilidade e vulnerabilidade. Quando o tema finalmente emerge de forma explícita no final do segundo ato, a aventura deixa de ser apenas uma disputa entre bem e mal para se transformar em uma jornada interna de autoconhecimento.

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Jared Leto em cena de “Mestres do Universo”- divulgação / Sony Pictures

Essa abordagem também se reflete na expansão da mitologia. Elementos conhecidos pelos fãs retornam, mas raramente apenas como fan service. Cenários, personagens, histórias e até interpretações populares sobre o universo original são revisitados sob uma nova perspectiva. Um dos exemplos mais interessantes é a maneira como o filme trabalha a Espada do Poder. Em vez de tratá-la simplesmente como a fonte das habilidades de He-Man, a narrativa sugere que ela funciona como um canal para algo que sempre esteve presente dentro do próprio Adam.

O mesmo cuidado aparece na construção dos personagens secundários. Mentor e Teela recebem arcos dramáticos próprios, evitando a sensação de que existem apenas para auxiliar o protagonista. Suas jornadas ajudam a enriquecer o universo e oferecem diferentes perspectivas sobre os conflitos apresentados. Ao mesmo tempo, o elenco demonstra uma compreensão clara do tom que o filme busca alcançar, equilibrando humor, aventura e emoção sem comprometer a seriedade dos momentos mais importantes.

Entre todos os destaques do elenco, Jared Leto surpreende ao entregar uma das interpretações mais memoráveis de sua carreira recente. Sua performance como Esqueleto encontra um equilíbrio interessante entre ameaça e excentricidade, abraçando o caráter teatral do personagem sem transformá-lo em caricatura. O resultado lembra a energia caótica que Jim Carrey trouxe para Doutor Eggman na franquia Sonic, criando um vilão que diverte tanto quanto intimida.

A relação entre Esqueleto e Evil-Lyn também merece atenção especial. Embora não ocupe o centro da narrativa, ela adiciona camadas interessantes ao conflito principal e serve como contraponto aos temas explorados na jornada de Adam. Em um filme que frequentemente discute poder e identidade, essa dinâmica ajuda a mostrar como relações construídas sobre manipulação e controle inevitavelmente se tornam destrutivas.

Allison Brie em cena de "Mestres do Universo"- Divulgação Sony Pictures

Alison Brie em cena de “Mestres do Universo”- Divulgação Sony Pictures

Visualmente, Travis Knight demonstra mais uma vez seu talento para criar mundos fantásticos que parecem vivos. Eternia é apresentada como um lugar vasto, mágico e constantemente fascinante de explorar. O amor pelos anos 80 está presente em praticamente todos os aspectos da produção, desde o design dos personagens até a estética geral de Mestres do Universo.

A trilha sonora de Daniel Pemberton desempenha papel fundamental nesse processo. Com a colaboração de Brian May, lendário guitarrista do Queen, a música imprime energia, grandiosidade e emoção desde os créditos iniciais. É uma trilha que compreende perfeitamente o espírito da aventura e ajuda a transformar diversos momentos importantes em verdadeiros eventos cinematográficos.

Outro mérito de Mestres do Universo está em sua capacidade de dialogar simultaneamente com fãs antigos e novos espectadores. Pequenas decisões criativas ajudam a reintroduzir conceitos clássicos sem parecerem deslocadas. Talvez o exemplo mais divertido seja a explicação para nomes como Mandíbula e Aríete, apresentados como criações da imaginação de um Adam ainda criança, sonhando em retornar para casa.

Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Em determinados momentos, o filme demonstra dificuldade em controlar o próprio entusiasmo. A quantidade de referências, piadas, homenagens e momentos pensados para provocar reações imediatas da audiência ocasionalmente sobrecarrega a narrativa. Existe uma sensação de excesso, como se a produção estivesse constantemente tentando oferecer um novo estímulo antes que o anterior pudesse ser plenamente absorvido.

Esse problema, no entanto, revela uma das maiores qualidades e fraquezas do longa ao mesmo tempo. Os momentos que interrompem o fluxo dramático para celebrar elementos específicos da franquia podem afastar parte do público geral, mas provavelmente serão responsáveis por arrancar os maiores sorrisos dos fãs mais apaixonados. É uma escolha que nem sempre favorece o ritmo, mas reforça a identidade da obra.

Mestres do Universo

Idris Elba, Nicholas Galitzine e Camila Mendes em cena de “Mestres do Universo”- Divulgação Sony Pictures

Ao final, Mestres do Universo nos transporta para uma forma de fantasia cada vez mais rara no cinema contemporâneo. Uma fantasia em que heróis podem ser genuinamente heroicos, vilões podem simplesmente desejar o poder, e a aventura existe para inspirar maravilhamento antes de qualquer outra coisa. Ainda que utilize temas modernos em sua construção, o filme nunca perde o encanto simples das histórias que marcaram gerações.

Mais do que uma adaptação ou uma celebração nostálgica, Mestres do Universo é uma reafirmação da força desse universo. Travis Knight compreende o que tornou Eternia especial décadas atrás e, ao mesmo tempo, encontra novas maneiras de torná-la relevante.

Entre espadas mágicas, monstros, guitarras eletrizantes e reflexões surpreendentemente sensíveis sobre identidade, o diretor entrega um espetáculo imperfeito, mas extremamente apaixonado. E, em um período em que tantas produções parecem receosas de abraçar sua própria fantasia, isso já é um poder considerável.

Distribuído pela Sony Pictures, Mestres do Universo estreia nos cinemas em 4 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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