Dirigido por Anne Émond, Amor Apocalipse se perde em sua própria ambição ao tentar ser algo maior do que sua narrativa comporta
À medida que se torna mais previsível, o subgênero das comédias românticas passa a exibir algumas convenções que frequentemente desgastam o espectador. Embora sucessos formulaicos como Paixão de Escritório (2026, Ol Parker), comprovem que ainda existe público para o “mais do mesmo”, produções independentes têm buscado explorar novas vertentes dos símbolos e estruturas que permeiam essas jornadas amorosas. Amor Apocalipse é uma das tentativas mais experimentais dentro dessa proposta.
A trama começa apresentando Adam, um solitário dono de canil consumido pela depressão e por constantes crises existenciais. Em busca de alívio para sua ansiedade, ele encomenda uma lâmpada solar terapêutica. Ao entrar em contato com o suporte técnico do fabricante, conhece Tina, uma mulher radiante que lhe devolve um motivo para levantar da cama no dia seguinte. Diante da conexão que surge entre os dois, o fim do mundo parece um problema menor.
Fim do mundo? Sim, fim do mundo.

Piper Perabo e Patrick Hivon em cena de “Amor Apocalipse”- Divulgação Synpase Distribution
Amor Apocalipse não trata apenas do colapso da sociedade como a conhecemos, mas também do fim do mundo particular de Adam. É por meio do amor que ele encontra significado e alegria onde antes existia apenas escuridão. A relação dos dois começa por telefone, mas, quando finalmente se torna presencial, após uma dose considerável de perseguição por parte de Adam, descobrimos que Tina é casada.
O que poderia ser explorado de diversas maneiras acaba sendo tratado de forma excessivamente fria. Não compreendemos o que motiva a paixão entre os protagonistas, e nem sequer a proximidade deles, tampouco entendemos por que a reclusa filha de Tina decide compartilhar questões tão íntimas com Adam. Mais do que não entendermos o universo interior desses personagens, também não conseguimos compreender o mundo que desmorona ao redor deles.

Piper Perabo e Patrick Hivon em cena de “Amor Apocalipse”- Divulgação Synpase Distribution
O apocalipse é retratado de forma minimalista. Tempestades climáticas, preocupações ambientais e pouco mais. Até mesmo a lâmpada terapêutica, elemento que dá início à narrativa, perde relevância ao longo da trama, tornando-se apenas um MacGuffin que aproxima duas pessoas perdidas em busca de sentido para suas vidas.
Com um ritmo lento e contemplativo, que constantemente lembra o espectador de que está diante de uma subversão da comédia romântica tradicional, Amor Apocalipse tangencia discussões interessantes sobre saúde mental, solidão e a empatia necessária para seguirmos em frente. Ainda que apresente algumas ideias pertinentes, como a importância de abraçar a aventura mesmo em meio à escuridão, o resultado final soa morno.
O apocalipse nunca parece tão iminente quanto em Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (2012, Lorene Scafaria), enquanto o romance central transmite uma artificialidade quase robótica. A comparação que surge naturalmente é com O Lagosta (2015, Yorgos Lanthimos): os personagens parecem tão desconectados da realidade que seus gestos mais afetuosos acabam soando estranhos, mesmo quando a narrativa tenta conduzi-los a uma espécie de paraíso particular.
Tecnicamente, a produção aposta em tons pastéis e em uma atmosfera que reflete o estado emocional de Adam. Afinal, o apocalipse é simultaneamente interno e externo. Ainda assim, ao final resta a pergunta: o que sobra além de um sentimento de vazio? Mesmo com todos os seus problemas, até mesmo o complexo June e John (2025, Luc Besson), consegue transmitir uma sensação de proximidade entre seus protagonistas muito maior do que Amor Apocalipse sequer se propõe a alcançar.
Distribuído pela Synapse Distribution, Amor Apocalipse estreia nos cinemas brasileiros em 11 de junho.
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