Dirigido por Steven Spielberg, Dia D serve de espelho para alguns dos temas mais recorrentes da filmografia do diretor, ampliando uma paixão presente desde o início de sua carreira.
Juntamente com Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino, Steven Spielberg é um daqueles cineastas cujo nome, por si só, já desperta atenção. Em seu primeiro longa-metragem desde Os Fablemans (2022), o diretor entrega com Dia D um épico de ficção científica que remete diretamente a Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), mas encontra uma maturidade técnica e filosófica que apenas décadas de experiência poderiam proporcionar.
Já em seus minutos iniciais, Dia D mergulha o espectador em uma rede de conspirações governamentais, tecnologia alienígena e sequências de ação sem oferecer explicações imediatas. À medida que a narrativa avança, o contexto é revelado gradualmente por meio das conversas entre Daniel Kellner e sua namorada, Jane, permitindo que o público monte as peças desse quebra-cabeça junto aos personagens.
Paralelamente, conhecemos Margareth Fairchild, Emily Blunt em uma das atuações mais marcantes de sua carreira. Apresentadora da previsão do tempo em uma pequena cidade do Kansas, Margareth passa a enxergar o mundo de forma diferente após um estranho encontro com um pássaro, iniciando uma jornada que representa o verdadeiro coração emocional da obra.

Emily Blunt e Josh O’ Connor em cena de “Dia D”- Divulgação Universal Pictures
Se existe algo que Spielberg domina como poucos, é a capacidade de provocar emoção sem abrir mão do espetáculo. Amparado pela trilha de John Williams, Dia D transforma sua premissa de invasão alienígena em uma reflexão sobre como a humanidade reagiria diante de uma verdade capaz de alterar toda a sua compreensão da realidade: alienígenas convivem conosco há 80 anos, mas permanecemos incapazes de perceber sua presença.
Com quase 150 minutos de duração, o filme alterna momentos de ação com passagens mais contemplativas. É nesse espaço que Spielberg encontra terreno para explorar temas que sempre o fascinaram, aproximando sua narrativa dos contos de fadas e da fantasia clássica.
Se em Contatos Imediatos do Terceiro Grau havia ecos de Pinóquio, aqui o paralelo surge de forma mais sutil com Branca de Neve e os Sete Anões, especialmente através da canção Someday My Prince Will Come. Assim como a princesa sonha com a chegada de algo que transformará sua vida, Margareth busca um propósito maior para sua existência, e a resposta parece estar além das estrelas.
Apesar da presença dos extraterrestres, Dia D está menos interessado na ficção científica do que em discutir empatia. Entre perseguições de carro, descobertas e reviravoltas, Spielberg constrói uma narrativa sobre a importância de escutar o outro, compreender perspectivas diferentes e superar o medo do desconhecido. Em um período marcado por divisões políticas e sociais, a mensagem encontra ressonância sem soar excessivamente didática.

Emily Blunt em cena de “Dia D”- Divulgação Universal Pictures
Visualmente, o diretor demonstra total domínio da linguagem cinematográfica. Os planos-sequência transitam entre espaços íntimos e cenários grandiosos, enquanto a fotografia utiliza a luz natural para reforçar a sensação de que os personagens estão constantemente sendo observados por algo maior do que eles próprios. Quando a narrativa alcança seu terceiro ato, mesclando fantasia, espetáculo e emoção, o filme assume sem qualquer constrangimento sua identidade essencialmente spielberguiana.
Enquanto discute paralelos entre alienígenas e religião, o longa não ignora um contexto geopolítico instável, utilizando-o como pano de fundo para discutir poder, informação e controle. Embora essas questões nunca se tornem o foco principal da trama, elas reforçam uma pergunta central: até que ponto a humanidade tem o direito de conhecer a verdade sobre sua própria existência?
Talvez o aspecto mais interessante de Dia D esteja justamente na maturidade de seus personagens. Em uma época em que muitos blockbusters apostam em protagonistas excessivamente irônicos ou emocionalmente imaturos, Spielberg constrói figuras adultas enfrentando dilemas genuinamente humanos.
Essa escolha contribui para que a dimensão emocional da narrativa tenha peso e credibilidade, afinal, como dois lados de uma mesma moeda, as justificativas de porque a informação deve ou não serem liberadas ao público, depende do grau de crença que temos na própria humanidade, e esta discussão é uma das mais interessantes do filme.

Colin Firth em cena de “Dia D”- Divulgação Universal Pictures
Ainda que sua duração seja um pouco excessiva e algumas reflexões não apresentem ideias inéditas dentro da própria filmografia do diretor, Dia D encontra força na maneira como revisita temas familiares sob uma perspectiva mais madura e refinada. Mais do que uma continuação espiritual de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o filme funciona como uma síntese das preocupações artísticas que acompanham Spielberg há décadas.
Quando finalmente parece pronto para explorar as consequências globais de suas revelações, o longa escolhe encerrar sua história. É uma decisão que pode frustrar alguns espectadores, mas que também preserva o impacto emocional de sua conclusão. E, como o próprio Spielberg demonstrou inúmeras vezes ao longo da carreira, saber quando terminar pode ser tão importante quanto saber como começar.
Distribuído pela Universal Pictures, Dia D chega aos cinemas no dia 11 de Junho.
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