Dirigido por Ale McHaddo, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste expande o universo da série infantil e amplia a mitologia deste sertão futurista
Quando pensamos em conteúdo infantil brasileiro, poucas produções vêm à cabeça. Em contrapartida, ao observarmos a vasta quantidade de filmes e séries internacionais, especialmente estadunidenses, voltados para esse público, percebemos a dimensão desse mercado. Nesse contexto, a importância de produções originais como Os Cordélicos torna-se inestimável, sobretudo como forma de formar público para futuras produções nacionais.
Em termos de narrativa, a produção expande o universo da série homônima disponível na plataforma da Looke, desta vez contando a origem de seu principal vilão, o Cabra da Peste. Apesar de ter uma duração relativamente curta para os padrões atuais dos longas-metragens de animação, o filme se arrasta em determinados momentos, sustentado por um roteiro que alterna entre acertos e tropeços.

Cena de “Cordélicos- A Origem do Cabra da Peste”- Divulgação Retrato Filmes
Seus protagonistas permanecem presos a arquétipos facilmente associáveis a personagens de RPG ou de produções como Caverna do Dragão (1983). O líder, o vilão, o gênio, a corajosa e o tanque são figuras reconhecíveis, mas pouco desenvolvidas. Como parte do público já conhece esses personagens por meio da série, o longa comete um erro crucial: não os apresenta adequadamente. Em vez disso, simplesmente os insere na jornada, sem contextualizar quem são ou quais são seus objetivos e motivações.
É possível argumentar que se trata de uma produção infantil. No entanto, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste apresenta conceitos e temas que dialogam também com o público adulto, incluindo questões ecológicas exploradas pela série, mas que acabam praticamente ausentes no filme. Como resultado, a narrativa se limita a sequências de ação, piadas repetitivas e referências que, embora inicialmente divertidas, perdem força com o passar do tempo.
A abordagem da viagem no tempo tampouco alcança a clareza necessária. Os acontecimentos se desenrolam em ritmos muito distintos: enquanto a transição dos Cordélicos de 1933 para 3333 ocorre de forma extremamente acelerada, a jornada de Sid e Bonita no passado se prolonga além do necessário, comprometendo o equilíbrio narrativo.

Cena de “Cordélicos- A Origem do Cabra da Peste”- Divulgação Retrato Filmes
Apesar dessas questões, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste oferece uma introdução histórica e narrativa para um público que carece desse tipo de representação. Evidentemente, esses cangaceiros não correspondem às figuras retratadas na cinematografia de Glauber Rocha, nem às registradas em fotografias e documentos históricos. Entretanto, dentro de um universo fantástico habitado por cabras antropomorfizadas, máquinas do tempo e aventuras futuristas, tudo se insere no campo da ficção. Trata-se de uma proposta voltada principalmente para encantar crianças e jovens.
Nos aspectos técnicos, o design de som poderia ter recebido um tratamento mais cuidadoso. Os ruídos constantes chegam a dificultar a compreensão de alguns diálogos e reforçam o direcionamento da obra para o público infantil, funcionando como elemento cômico. Ao mesmo tempo, comprometem momentos que exigiriam maior respiro para que a audiência assimilasse melhor o contexto e o ritmo acelerado da narrativa.
Com muito potencial, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste representa um primeiro mergulho promissor nesse universo fantástico. Sua brasilidade e seu compromisso com o entretenimento são inegáveis. Ainda assim, a produção se beneficiaria de um trabalho mais cuidadoso de introdução de personagens e construção de roteiro, equilibrando melhor suas piadas e referências e aprofundando uma jornada que já possui elementos interessantes, mas que precisaria explorar suas próprias ideias com mais profundidade.
Distribuído pela Retrato Filmes, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste estreia em 4 de junho.
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