Como o telefone transformou a vida dos brasileiros ao longo do século XX? E o que objetos aparentemente comuns, como o orelhão, podem revelar sobre desigualdade, inovação e acesso à comunicação no país? Essas são algumas das questões que estarão em debate no seminário que o Musehum – Museu das Comunicações e Humanidades realiza na próxima sexta-feira, 26 de junho, no espaço Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro.
O encontro marca o lançamento da pesquisa “Dos Telefones às Gambiarras: Abrindo as Máquinas da Comunicação e do Progresso no Brasil do Século XX”, estudo desenvolvido pelo Instituto Futuros com apoio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Aberto ao público e com entrada gratuita, o seminário reunirá pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), representantes da Finep e do Instituto Futuros para discutir a evolução das tecnologias de comunicação e sua influência na formação da sociedade brasileira.
Um dos pontos centrais da pesquisa é a análise do papel histórico do orelhão, considerado pelos autores um dos maiores exemplos de democratização do acesso à comunicação no Brasil.
O estudo destaca que, no início dos anos 2000, o país chegou a contar com aproximadamente 1,3 milhão de orelhões espalhados pelas cidades brasileiras. Mais do que um equipamento urbano, o aparelho tornou-se um símbolo de acesso público à telefonia em um país marcado por profundas desigualdades regionais e econômicas.
O trabalho também relembra que o conceito brasileiro do orelhão chamou atenção internacionalmente e foi exportado para países como Colômbia, Angola, Paraguai e China.
Segundo os pesquisadores, o equipamento representou um dos momentos mais próximos da universalização do acesso à comunicação no Brasil, em contraste com décadas em que possuir uma linha telefônica era privilégio de uma parcela reduzida da população.
Das centrais telefônicas às “gambiarras” brasileiras
A publicação analisa a trajetória das telecomunicações brasileiras entre as décadas de 1920 e 1990 a partir do acervo do Musehum, que reúne documentos históricos, fotografias, equipamentos e exemplares da revista Sino Azul.
A pesquisa propõe uma reflexão sobre a relação entre tecnologia, cultura e sociedade, examinando como os brasileiros se apropriaram dos meios de comunicação ao longo do tempo.
O estudo também explora o conceito de “gambiarra” como expressão da criatividade popular diante das limitações tecnológicas e estruturais do país.
Ao revisitar objetos históricos da telefonia, os autores buscam compreender como a tecnologia moldou relações sociais, formas de trabalho e experiências cotidianas ao longo do século passado.
Outro aspecto abordado pelo trabalho é a chamada “memória da tecnicidade”. A pesquisa analisa como os equipamentos antigos permitiam uma relação mais direta entre usuários e máquinas, em contraste com muitos dispositivos digitais contemporâneos.
Uma fotografia de 1977, mostrando uma funcionária realizando a manutenção de um aparelho telefônico, serve como ponto de partida para a discussão sobre objetos tecnológicos “abertos” e “fechados”.
Segundo os pesquisadores, os equipamentos do passado eram mais acessíveis à compreensão e ao reparo, enquanto boa parte das tecnologias atuais funciona como verdadeiras “caixas-pretas”, cuja lógica interna permanece inacessível para a maioria dos usuários.
Pesquisa integra projeto de preservação do patrimônio das comunicações
A publicação é o primeiro volume da coleção “Musehum Acervos Vivos” e faz parte do projeto Identidade Brasil – Recuperação e Preservação de Acervos.
O conteúdo será disponibilizado gratuitamente em formato digital pelo Instituto Futuros após o lançamento.
Para Carla Uller, diretora de Programas, Projetos e Comunicação do Instituto Futuros, a pesquisa demonstra como objetos históricos podem revelar aspectos fundamentais da formação social brasileira.
“O orelhão é um exemplo perfeito do tipo de descoberta que essa parceria com a Finep torna possível: uma pesquisa que parte de um objeto do nosso acervo e revela toda uma história de criatividade popular, desigualdade e busca por comunicação pública e universal no Brasil.”
Segundo ela, o conhecimento produzido servirá de base para futuras exposições e atividades educativas do museu.
O seminário também integra um projeto mais amplo desenvolvido pelo Musehum e pela Finep, voltado à preservação da história das tecnologias de comunicação e à reflexão sobre seus impactos contemporâneos.
Entre os objetivos estão:
- Ampliação da catalogação e digitalização do acervo;
- Modernização da reserva técnica do museu;
- Desenvolvimento de pesquisas sobre tecnologias de comunicação;
- Criação de novas exposições interativas;
- Ampliação das ações educativas;
- Promoção do letramento midiático e da cidadania digital.
As iniciativas estão alinhadas ao novo plano museológico do Musehum, lançado em 2024, que aborda temas como inteligência artificial, comunicação para sustentabilidade, democratização tecnológica e inclusão digital.
Programação do seminário
10h – Abertura institucional
10h25 – Mesa 1
Em obras para melhor atendê-los: o imaginário do progresso no Brasil
11h15 – Mesa 2
Memórias da tecnicidade: abrindo as máquinas
11h55 – Debate com o público
12h15 – Lançamento do e-book
“Dos Telefones às Gambiarras – Abrindo as máquinas da comunicação e do progresso no Brasil do século XX”
12h20 – Encerramento
Serviço
Data: 26 de junho de 2026
Horário: das 10h às 12h20
Local: Futuros – Arte e Tecnologia
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro
Entrada gratuita
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