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Lucas Agrícola em cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Brasil 70: A Saga do Tri’ é tão emocionante quanto deveria ser

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 20 de junho de 2026
6 Min Leitura
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Lucas Agrícola em cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX
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Criada por Naná Xavier, Brasil 70: A Saga do Tri emociona, provoca reflexões e amplia um dos maiores momentos da nossa história, que ressoa até os dias de hoje

Existem poucos esportes tão amados no Brasil quanto o futebol. Ainda mais em época de Copa do Mundo, quando todo o país se une para torcer, chorar, gritar e comemorar, quase como em um Carnaval fora de época. Entre as diversas formas de retratar o esporte no audiovisual, Brasil 70: A Saga do Tri combina com maestria o fator nostálgico a um estudo não apenas de personagens tão marcantes, mas também de um povo inteiro.

Ao longo de cinco episódios, acompanhamos não somente os jogos da seleção que reuniu alguns dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, mas também seus conflitos, intrigas políticas e os laços afetivos que uniam aquele grupo. A espinha dorsal da produção está em três personagens fundamentais: Pelé (Lucas Agrícola), João Saldanha (Rodrigo Santoro) e Zagallo (Bruno Mazzeo).

Embora a equipe funcione como um grande personagem coletivo, e pequenos arcos como os torcedores brasileiros que simbolizam todo um arquétipo, estejam sempre presentes, esse trio é essencial para compreendermos todas as nuances de Brasil 70: A Saga do Tri e nos emocionarmos com mais facilidade.

Cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX

Cena de “Brasil 70: A Saga do Tri”- Divulgação NETFLIX

Pelé é o nosso representante dentro de campo. É por meio dele que acompanhamos os bastidores da equipe, as conversas de vestiário e a individualidade de cada jogador. Mesmo com grandes atuações, como a de Ravel Andrade no papel de Tostão, é Hugo Haddad quem entrega um dos arcos secundários mais eficientes da série ao interpretar o goleiro Félix. A trama envolvendo o chamado “Fantasma do Maracanazo” amplia o sentimento patriótico e reforça a forma orgulhosa com que a série revisita o passado do país.

João Saldanha surge como o símbolo do patriotismo em sua forma mais intensa. Mesmo afastado do cargo de técnico, permanece como mentor e comentarista daquela seleção. Com observações ácidas e diretas, Rodrigo Santoro constrói um personagem que carrega um profundo orgulho de seu país, mas que também entende a importância de lutar por ele diariamente. É justamente nesse contexto que a série se aproxima da ditadura militar.

A partir do terceiro episódio, Brasil 70: A Saga do Tri abraça com mais força o contexto político da época e demonstra como os militares utilizaram a popularidade dos jogadores, especialmente a de Pelé, para promover sua própria imagem. Uma sequência que contrapõe a alegria da Copa do Mundo à fotografias de pessoas torturadas pelo regime militar reforça a política do “pão e circo” praticada pelo governo. A interferência política alcança até mesmo a seleção, culminando na troca do treinador em um dos momentos mais marcantes da narrativa.

Rodrigo Santoro em cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX

Rodrigo Santoro em cena de “Brasil 70: A Saga do Tri”- Divulgação NETFLIX

Zagallo representa o homem que precisa provar seu valor. Desde o início, ele não conta com o apoio de praticamente ninguém: nem do elenco que passa a comandar, nem da opinião pública, que o enxerga com desconfiança e certa arrogância. Aos poucos, Bruno Mazzeo conquista o espectador ao revelar as superstições, inseguranças e a síndrome do impostor que acompanham o personagem. Até mesmo a rivalidade inicial entre Zagallo e Saldanha se transforma em um dos pontos altos da série, à medida que percebemos que ambos compartilham os mesmos objetivos.

No aspecto técnico, a produção exibe as qualidades de uma grande realização da Netflix. Com gravações realizadas inclusive no México, a grandiosidade dos cenários chama atenção em diversos momentos. A direção de fotografia recria as partidas com precisão e verossimilhança, embora exagere ocasionalmente no uso da câmera lenta. Em contrapartida, a série poderia ter aprofundado ainda mais suas discussões políticas, mas esse claramente não parece ser seu principal objetivo.

A produção resgata um sentimento de esperança e união que, para muitos, parece ter se perdido ao longo dos anos. Enquanto atualmente a relação entre parte da torcida e a Seleção Brasileira se mostra mais distante, nos anos 1970 o entusiasmo, a alegria e o ufanismo estavam em seu auge. Por meio de Brasil 70: A Saga do Tri, parte desse sentimento retorna à tela com força e emoção.

Uma produção da Netflix em parceria com a O2 Filmes, Brasil 70: A Saga do Tri está disponível no catálogo da plataforma.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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