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Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de "Cinco da Tarde"- Divulgação 3 Tabela Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Cinco da Tarde’ transforma luto, memória e solidão em poesia visual

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 20 de junho de 2026
6 Min Leitura
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Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de "Cinco da Tarde"- Divulgação 3 Tabela Filmes
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Dirigido por Eduardo Nunes, Cinco da Tarde discute luto, perda e conexão de modo lento, porém muito eficiente

A discussão sobre memória e luto é sempre uma luta à parte, seja na vida real ou no campo audiovisual. Diferentemente do nosso dia a dia, porém, a vantagem de um filme é apresentar começo, meio e fim. Em um período relativamente curto, as melhores obras nos conduzem por jornadas capazes de despertar empatia, angústia e compreensão sobre sentimentos complexos. Essa é uma das grandes belezas da sétima arte e também uma das maiores forças de Cinco da Tarde.

Com uma estética que remete a produções orientais clássicas, como Era uma Vez em Tóquio (1953, Yasujiro Ozu), Cinco da Tarde apresenta um lirismo e um ritmo incomuns para a cinematografia nacional contemporânea, tornando-se uma obra bastante particular. Trata-se de um filme contemplativo, inteiramente fotografado em preto e branco, salvo raras exceções. Suas personagens parecem habitar um universo isolado, onde expressam exatamente o que sentem e pensam, mas, ao mesmo tempo, escondem muito de si mesmas.

A pandemia de Covid-19 ganha relevância dentro da narrativa, especialmente no desfecho, quando Anabel, uma jovem brasileira, finalmente dá um longo abraço em Meiko, sua vizinha de origem asiática. Embora a relação entre as duas seja o eixo central da trama, este é um dos momentos mais calorosos e afetuosos do longa, que constrói constantemente uma sensação de distanciamento, não apenas entre as personagens, mas também delas em relação à própria realidade.

Bárbara Luz em cena de "Cinco da Tarde"- Divulgação 3 Tabela Filmes

Bárbara Luz em cena de “Cinco da Tarde”- Divulgação 3 Tabela Filmes

Sabemos pouco sobre Anabel. Entendemos que ela está de luto pela avó e que, após sua morte, precisará se mudar novamente com a mãe. Meiko, por sua vez, também enfrenta o luto pela perda da mãe e compartilha da mesma solidão. Em conversa com o diretor Eduardo Nunes, descobri que a personagem inicialmente seria um menino chamado Hiroshi. Contudo, por conflitos de agenda, Sharon Cho assumiu o papel. A mudança revelou-se um dos grandes acertos da produção, que ganha ainda mais delicadeza e sutileza com essa dinâmica.

Nessa jornada introspectiva, que funciona mais como um estudo de personagens do que como uma narrativa clássica, as situações se prolongam, o silêncio ganha protagonismo e a realidade se mistura a elementos de realismo mágico que poderiam ter sido explorados de forma mais ampla. O fato de Anabel enxergar tanto sua falecida avó quanto a mãe de Meiko contribui significativamente para o desenvolvimento da personagem. Ainda assim, sua natureza estoica impede que determinados momentos alcancem um impacto emocional maior, embora essa aparente contenção faça parte da própria proposta da obra.

Cinco da Tarde não é um grito; é um sussurro. Uma leve ventania em um dia fresco de verão. O espectador pode optar por embarcar nessa jornada contemplativa ao lado das protagonistas ou simplesmente deixar a mente divagar e abstrair. Esse é um risco inerente à proposta do filme, já que a trilha sonora discreta nem sempre consegue aliviar o peso que o silêncio, e os longos planos, carregam ao longo da narrativa.

Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de "Cinco da Tarde"- Divulgação 3 Tabela Filmes

Bárbara Luz e Sharon Cho em cena de “Cinco da Tarde”- Divulgação 3 Tabela Filmes

Luto, memória e diferentes percepções de mundo. Cinco da Tarde aborda todas essas questões à sua maneira, oferecendo tempo e espaço para reflexão, em uma abordagem que dialoga diretamente com tradições do cinema oriental. Dentro desse contexto, algumas sequências parecem deslocadas, como a cena entre Anabel e André, que acrescenta pouco à narrativa. Em contrapartida, o momento em que a jovem confronta o padre sobre o horário da missa se destaca por sua força dramática e emocional.

Ao final, Cinco da Tarde se aproxima de uma videoarte. A poesia e o lirismo ocupam o primeiro plano, enquanto o cinema, embora presente na simbologia do preto e branco e em algumas composições visuais de grande beleza, acaba sendo absorvido por sentimentos expostos de forma visceral. É como se o coração dessas jovens estivesse completamente aberto para que todos possam vê-lo e, principalmente, senti-lo.

Distribuído pela 3 Tabela Filmes, Cinco da Tarde chega aos cinemas no dia 18 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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