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Johan Rojas Vasco da Gama x Botafogo pela Campeonato Carioca realizado no Estádio de São Januário em 08 de Fevereiro de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
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Vasco e Botafogo aceleram projetos bilionários de SAF e redesenham o futuro do futebol brasileiro

Recuperação judicial do Botafogo, venda da nova SAF do Vasco e mudanças na legislação mostram que o modelo clube-empresa entra em uma nova fase, marcada por governança, responsabilidade financeira e contratos mais rígidos

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 15 de julho de 2026
12 Min Leitura
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Johan Rojas Vasco da Gama x Botafogo pela Campeonato Carioca realizado no Estádio de São Januário em 08 de Fevereiro de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
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  • Os movimentos simultâneos de Botafogo e Vasco ajudam a explicar como o mercado brasileiro das SAFs amadureceu em poucos anos.
  • A terceira geração das SAFs
  • Rio de Janeiro torna-se laboratório das SAFs
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Poucas vezes o futebol brasileiro viveu uma semana tão emblemática para o futuro das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). Em movimentos distintos, mas igualmente transformadores, Botafogo e Vasco da Gama colocaram em prática estratégias que podem redefinir não apenas seus próprios destinos, mas também servir de parâmetro para uma nova geração de clubes-empresa no país.

De um lado, o Botafogo apresentou à Justiça um plano para reorganizar uma dívida de R$ 1,2 bilhão por meio de uma recuperação judicial que prevê deságios de até 95% para parte dos credores e prazos de pagamento que podem chegar a duas décadas. Do outro, o Vasco deu início ao processo que pode culminar na venda de 90% de uma nova SAF em uma operação estimada em mais de R$ 2 bilhões, tentando virar definitivamente a página após o rompimento com a 777 Partners.

Embora os caminhos sejam diferentes, ambos os clubes carregam a mesma mensagem: as SAFs brasileiras estão entrando em uma fase muito mais sofisticada do que aquela iniciada há poucos anos, quando praticamente qualquer investidor disposto a assumir dívidas bilionárias era recebido como uma solução imediata.

Hoje, a preocupação vai muito além de encontrar dinheiro.

O foco passou a ser sustentabilidade financeira, governança, segurança jurídica e modelos capazes de resistir ao longo dos próximos anos.

O desafio bilionário do Botafogo

Na última segunda-feira (13), a SAF do Botafogo protocolou na 2ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio de Janeiro o Plano de Recuperação Judicial que pretende reorganizar um passivo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão.

O documento, assinado pelo diretor da SAF, Eduardo Iglesias, ainda dependerá da aprovação dos credores em assembleia e da posterior homologação judicial. Até lá, todas as condições apresentadas permanecem como propostas.

O plano estabelece tratamentos diferentes para cada categoria de credores. Enquanto atletas do elenco atual e algumas classes consideradas estratégicas poderão receber integralmente seus créditos em prazo reduzido, outros grupos deverão enfrentar condições bastante mais duras.

Dependendo da classificação do crédito, o deságio poderá alcançar 95%, acompanhado de períodos de carência e cronogramas de pagamento que chegam a 20 anos.

Segundo a SAF, esse tratamento diferenciado é indispensável para preservar a atividade esportiva e permitir que o clube continue competitivo enquanto reorganiza suas finanças.

No documento entregue à Justiça, o Botafogo afirma que continua economicamente viável e revela já existir interesse de investidores em conceder novas linhas de crédito, além da possibilidade futura de aportes de capital por meio da aquisição de participação acionária.

A estratégia financeira apresentada gira em torno de quatro frentes complementares: reduzir o peso da dívida por meio da renegociação com os credores, captar recursos com custo menor após a reestruturação, atrair novos investidores para fortalecer o caixa e utilizar negociações de atletas como instrumento de geração de receitas, sempre tentando preservar o desempenho esportivo.

Para Rafael Brasil, advogado especializado em recuperação judicial, o caso representa um dos maiores testes já enfrentados pela legislação brasileira aplicada ao universo das SAFs.

“O tratamento diferenciado entre credores, com deságios que chegam a 95% para alguns grupos e quitação integral para outros, como os atletas, mostra a complexidade de equilibrar a viabilidade econômica do clube com a manutenção de sua competitividade esportiva. É um plano ousado, que testa os limites da Lei 11.101/2005 aplicada a um modelo societário ainda recente no futebol nacional”, afirma.

Na avaliação do especialista, a estrutura do plano segue a lógica utilizada em recuperações empresariais consideradas bem-sucedidas, mas dependerá de uma execução extremamente rigorosa para conquistar a confiança dos credores.

“Vimos casos como o do Cruzeiro, em que a reestruturação societária destravou investimento e resultado esportivo simultaneamente. O Botafogo caminha em direção semelhante, mas em escala bem maior. São R$ 1,2 bilhão em jogo.”

Vasco tenta recomeçar do zero

Se no Botafogo a prioridade é reorganizar o passivo, em São Januário o objetivo é reconstruir completamente o modelo societário do futebol.

O Club de Regatas Vasco da Gama e a Vasco SAF protocolaram na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro um pedido para iniciar o processo competitivo de venda de 90% das ações de uma Nova SAF.

O pedido não significa que a venda já tenha sido concluída.

Na prática, o clube busca autorização judicial para criar uma nova sociedade que concentrará todos os ativos relacionados ao futebol. Somente depois dessa reorganização societária será realizada a disputa entre investidores interessados.

A proposta que serve como referência para o processo foi apresentada pela Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa ligada ao empresário Marcos Faria Lamacchia. Pelo modelo jurídico escolhido, a companhia atua como stalking horse bidder, expressão utilizada para designar o investidor que apresenta a proposta-base, garantindo prioridade para igualar eventuais ofertas superiores apresentadas durante a concorrência.

Isso significa que outros grupos poderão participar normalmente da disputa.

Caso apareça uma proposta mais vantajosa, a Almirante terá preferência para cobrir a oferta.

O projeto prevê um aporte obrigatório de R$ 500 milhões destinados diretamente ao futebol, distribuídos em cinco parcelas anuais entre 2026 e 2030.

Além desse investimento inicial, o futuro controlador deverá aplicar pelo menos R$ 120 milhões na conclusão do Centro de Treinamento do futebol profissional e outros R$ 30 milhões na estrutura das categorias de base.

Somando apenas esses compromissos, o investimento direto alcança R$ 650 milhões.

Mas a operação é significativamente maior.

Encontro da SAF com o Pedrinho novo presidente do Club de Regatas Vasco da Gama em 12 de Novembro de 2023. Foto: Matheus Lima/Vasco.
Foto: Matheus Lima/Vasco.

Segundo as informações divulgadas pelo clube, o novo investidor também assumirá parte importante das obrigações financeiras da SAF, incluindo o fluxo de caixa projetado para os próximos anos, a renegociação das dívidas existentes e a aquisição das ações atualmente vinculadas à A-CAP.

Na prática, a negociação ultrapassa os R$ 2 bilhões quando todos esses compromissos são considerados.

Outro ponto relevante do memorando é a obrigação de manter os 90% adquiridos durante pelo menos dez anos.

Nesse período, também não haverá distribuição de dividendos, com todo eventual lucro sendo reinvestido no próprio futebol.

A urgência da janela de transferências

O pedido apresentado pelo Vasco à Justiça deixa claro que existe urgência na tramitação.

Segundo a petição, a rápida entrada de recursos é considerada essencial para garantir o cumprimento do Plano de Recuperação Judicial, preservar o equilíbrio financeiro e permitir investimentos imediatos no elenco ainda durante a atual janela de transferências.

O clube também argumenta que fortalecer a equipe esportivamente reduz o risco de rebaixamento, cenário que poderia comprometer significativamente as receitas futuras.

Outro aspecto importante envolve o financiamento DIP atualmente existente.

Caso a Almirante seja confirmada como vencedora da disputa, o empréstimo — estimado em aproximadamente R$ 82,8 milhões — será convertido em participação acionária da Nova SAF.

Se outro investidor vencer o processo competitivo, esse valor deverá ser quitado integralmente antes da conclusão da operação.

Os movimentos simultâneos de Botafogo e Vasco ajudam a explicar como o mercado brasileiro das SAFs amadureceu em poucos anos.

Quando Cruzeiro, Botafogo e Vasco deram os primeiros passos rumo ao modelo empresarial, o cenário era de extrema urgência financeira.

Os clubes buscavam investidores capazes de impedir o colapso econômico.

Ronaldo assumiu o Cruzeiro.

John Textor adquiriu o controle da SAF do Botafogo.

A 777 Partners comprou a participação majoritária do Vasco.

Em comum, todos esses processos tinham a velocidade como prioridade.

O tempo mostrou que contratos pouco amadurecidos também produziram problemas importantes.

O Cruzeiro acabou mudando novamente de controlador.

O Vasco rompeu judicialmente com a 777.

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No Botafogo, a disputa envolvendo John Textor e a Eagle Football abriu um longo embate societário, enquanto o clube acabou negociando o controle para o grupo norte-americano GDA Luma, operação ainda contestada pelo empresário.

Essas experiências mudaram a forma como o mercado passou a enxergar as SAFs.

A terceira geração das SAFs

Para Cristiano Caús, advogado especializado em direito desportivo e sócio do CCLA Advogados, o futebol brasileiro entrou em uma terceira fase das SAFs.

Segundo ele, o objetivo deixou de ser exclusivamente captar dinheiro para pagar dívidas.

A governança, a transparência e até mesmo a Reforma Tributária passaram a influenciar diretamente a decisão dos clubes.

“O modelo associativo tradicional está com os dias contados a partir de 2027 devido ao aumento de custos em comparação ao formato empresarial. Se as primeiras ondas de SAFs foram motivadas pelo sufoco financeiro, busca por investidores e melhora em campo, o próximo movimento será impulsionado pela sobrevivência tributária.”

Além da questão fiscal, os novos projetos já incorporam exigências de Fair Play Financeiro, conselheiros independentes, maior transparência contábil e contratos muito mais rigorosos.

Clubes como Guarani e Ponte Preta discutem modelos semelhantes, enquanto o Juventus da Mooca já começa a colher resultados esportivos e estruturais após concluir sua transformação em SAF.

Rio de Janeiro torna-se laboratório das SAFs

Coincidentemente, os dois casos mais relevantes desta nova etapa acontecem no Rio de Janeiro.

Botafogo e Vasco chegam a este momento por caminhos completamente diferentes, mas ambos representam experiências que serão observadas atentamente por dirigentes, investidores, advogados e clubes de todo o país.

No Botafogo, a aposta está na recuperação judicial como instrumento para reorganizar um passivo bilionário sem interromper a competitividade esportiva.

No Vasco, o desafio é reconstruir praticamente toda a estrutura societária do futebol, buscando um parceiro disposto a investir pesado em troca de estabilidade de longo prazo.

Independentemente dos desfechos, as decisões tomadas agora tendem a influenciar a forma como futuras SAFs serão estruturadas no Brasil.

Se a primeira geração foi marcada pelo desespero financeiro e a segunda pela chegada de grandes grupos internacionais, a nova fase parece colocar a segurança jurídica, a governança e o planejamento de longo prazo como elementos centrais do futebol brasileiro.

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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