Cinco anos depois de emocionar o público em sua estreia, Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui retorna ao Rio de Janeiro reafirmando seu lugar entre os espetáculos mais importantes do teatro negro contemporâneo. A partir de 6 de agosto, o Teatro Correios Léa Garcia recebe a montagem idealizada e protagonizada por Cyda Moreno, que transforma o palco em um espaço de memória, denúncia e celebração da resistência feminina negra.
A nova temporada dialoga diretamente com o Agosto Lilás, campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, ampliando o debate para uma realidade ainda pouco discutida: a violência sofrida por mães negras que convivem diariamente com o extermínio da juventude periférica.
Escrito por Márcia Santos e dirigido por Édio Nunes, o espetáculo parte da figura histórica de Luiza Mahin — personagem central das lutas negras do século XIX e mãe do abolicionista Luiz Gama — para construir uma narrativa que atravessa o tempo e conecta passado e presente. A dramaturgia utiliza como ponto de partida uma carta escrita por Luiz Gama sobre sua mãe e incorpora relatos reais de mulheres que perderam seus filhos para a violência, transformando essas histórias em um potente manifesto artístico.
Mais do que reconstruir a trajetória de uma personagem histórica, a montagem propõe uma reflexão sobre como o racismo estrutural continua produzindo tragédias semelhantes mais de um século depois.
No palco, a experiência ganha ainda mais força pela presença da música executada ao vivo pelos próprios atores. A trilha original, assinada por Jorge Maya e Regina Café, aproxima o espetáculo de um rito ancestral, reforçando a atmosfera emocional construída ao longo dos 55 minutos de apresentação.
Reconhecida nacionalmente por trabalhos recentes na televisão, como a novela Dona de Mim, da TV Globo, Cyda Moreno construiu uma carreira marcada por personagens femininas que representam capítulos fundamentais da história negra.
Nos últimos anos, deu vida à escritora Carolina Maria de Jesus, à cantora Nina Simone e agora volta a interpretar Luiza Mahin, consolidando uma trajetória artística voltada para narrativas de memória, identidade e representatividade.
Além da carreira como atriz, Cyda também desenvolve intensa atuação acadêmica e educacional. Mestre em Ensino de Artes Cênicas, doutoranda pela UNIRIO e professora em uma escola pública da Mangueira, ela utiliza o teatro como ferramenta de formação cultural e transformação social.
Segundo a atriz, trazer novamente o espetáculo ao Rio possui um significado especial.
“É uma violência contra a mulher negra quando seus filhos são exterminados na periferia. Trazer Luiza Mahin de volta ao Rio, após cinco anos, é destacar que essa história não terminou e permanece viva na cidade carioca, sobretudo nos morros e favelas. A personagem simboliza todas as mulheres negras que seguem lutando pela sobrevivência de seus filhos. O que está em cena é o presente do Brasil”, afirma.
A trajetória da montagem começou em 2020 como uma performance apresentada durante o Festival 2ª Black.
No ano seguinte, ainda durante a pandemia, a obra ganhou formato teatral completo e estreou no Teatro Petra Gold, dividindo programação com Luiz Gama: Uma Voz pela Liberdade. A estreia foi acompanhada por importantes debates sobre racismo, memória e genocídio negro, reunindo intelectuais como Conceição Evaristo, Jurema Werneck, Paulo Lins, Jefferson De, Leda Maria Martins, Isabel Fillardis e Mônica Cunha.
Desde então, Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui percorreu diversos teatros do Rio de Janeiro e de São Paulo, passando por espaços como Teatro Laura Alvim, SESC Pinheiros e unidades culturais em cidades como Bauru, Ribeirão Preto, Piracicaba, São José dos Campos, Campos dos Goytacazes, Petrópolis, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Barra Mansa e São João de Meriti.
Premiada em festivais pelo país, a produção retorna agora ao Rio celebrando essa trajetória construída ao lado do público.
O elenco reúne Cyda Moreno, Márcia Santos, Tais Alves e Joe Jonathan, além da participação especial de Márcia do Valle.
Lygia Fagundes Telles inspira leitura dramatizada gratuita no Teatro TotalEnergies
Outra atração que merece espaço na agenda cultural carioca acontece no dia 20 de julho, quando o Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch recebe mais uma edição do projeto Dramaturgia em Leituras.
A iniciativa apresenta uma leitura dramatizada do conto O Espartilho, de Lygia Fagundes Telles, um dos textos mais marcantes da literatura brasileira contemporânea.
Adaptada para o palco por Silvia Monte, a obra acompanha Ana Luísa, uma mulher que revisita sua infância marcada pela criação rígida de uma avó autoritária, reconstruindo pouco a pouco sua própria identidade enquanto enfrenta temas como repressão feminina, patriarcado, memória e emancipação.
Extraído da coletânea A Estrutura da Bolha de Sabão (1991), o conto ganha nova dimensão por meio de um elenco formado por Raquel Penner, Duaia Assumpção, Mila Moura, Adriana Seiffert, Bibiana Rozembaum, Verônica Reis, Anderson Cunha e Nicole Rocha.
A apresentação integra um projeto dedicado à adaptação de clássicos da escritora para o teatro, aproximando novas gerações da obra de uma das maiores autoras brasileiras.
Realizado no histórico edifício projetado por Oscar Niemeyer, na Glória, o Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch tornou-se um dos principais espaços culturais da cidade desde sua reabertura, oferecendo uma programação que reúne teatro, música, literatura e performances.
Serviço
Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui
Estreia: 6 de agosto de 2026
Temporada: Quinta a sábado, às 19h, até 29 de agosto
Local: Teatro Correios Léa Garcia — Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro – Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia)
Vendas: Sympla e bilheteria
Classificação: 14 anos
Duração: 55 minutos
Dramaturgia em Leituras – O Espartilho
Data: 20 de julho
Horário: 19h
Local: Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch — Rua do Russel, 804, Glória
Classificação: 12 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos: disponíveis pela plataforma Ingresso.com
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