A literatura de Clarice Lispector continua encontrando novos caminhos para dialogar com o público. Desta vez, é o teatro que mergulha no universo da escritora em Palavras, espetáculo da Companhia Ensaio Aberto que realiza uma apresentação especial neste sábado (18), às 19h, no Armazém da Utopia, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Após essa sessão, a montagem retorna para duas apresentações em agosto, nos dias 6 e 13.
Longe de uma adaptação convencional, o espetáculo transforma os textos de Clarice em matéria viva. Em cena, a atriz Tuca Moraes conduz o público por uma experiência em que pensamentos, memórias, sentimentos e fragmentos da obra da autora surgem como um fluxo contínuo, fazendo da palavra o verdadeiro motor da encenação.
A proposta nasce da pesquisa da Companhia Ensaio Aberto sobre teatro narrativo e teatro épico, criando uma linguagem que rompe com estruturas tradicionais e coloca o encontro entre atriz e plateia no centro da experiência.
O grande diferencial de Palavras está justamente na imprevisibilidade.
Durante a apresentação, Tuca Moraes não segue apenas uma interpretação previamente estabelecida. A atriz constrói sua dramaturgia em tempo real, enquanto recebe interferências de luz, som e direção feitas ao vivo por Luiz Fernando Lobo, responsável pela direção do espetáculo.
Essa dinâmica faz com que nenhuma sessão seja igual à outra.
A própria atriz define a experiência como um exercício de risco.
“É um enorme desafio se jogar no abismo de Clarice, no abismo do mundo sem nenhuma linha de vida pra te salvar. O experimento é uma enorme desconstrução e uma aposta no encontro com cada espectador. É também levar ao extremo a relação de confiança atriz/diretor. Eu me jogo. Se estiver me afundando, sei que o Luiz Fernando Lobo vai intervir. É um jogo de risco. Um jogo de verdade”, afirma Tuca Moraes.
A montagem aproxima o público do processo criativo, permitindo que linguagem, silêncio e emoção se construam diante dos espectadores.
Ao invés de adaptar uma única obra da escritora, Palavras utiliza diversos textos de Clarice Lispector como ponto de partida para investigar suas principais inquietações existenciais.
Questões como identidade, linguagem, solidão, desejo e percepção do mundo aparecem em fragmentos que vão se sobrepondo ao longo da apresentação, criando uma atmosfera intimista e contemplativa.
Essa opção dialoga diretamente com a própria visão da autora sobre arte e criação. Como escreveu Clarice:
“Toda verdadeira arte é experimentação, e toda verdadeira vida é experimentação.”
É justamente essa ideia que norteia a pesquisa da Companhia Ensaio Aberto.
Outro elemento que reforça o caráter intimista da montagem é o espaço cênico.
Criado por J.C. Serroni, o cenário acomoda apenas 40 pessoas por sessão, aproximando atores e público de forma quase confidencial.
A iluminação de Cesar de Ramires e os figurinos assinados por Beth Filipecki e Renaldo Machado completam a proposta estética, transformando o Armazém da Utopia em um ambiente onde palavra, silêncio e presença dividem o protagonismo.
Companhia mantém pesquisa sobre novas linguagens
Reconhecida por desenvolver investigações sobre teatro contemporâneo, a Companhia Ensaio Aberto utiliza Palavras para aprofundar sua pesquisa sobre narrativas não lineares e novas formas de relação entre artista e espectador.
A produção integra a programação patrocinada pela Petrobras por meio da Lei Rouanet e reafirma o Armazém da Utopia como um dos espaços mais dedicados à experimentação teatral no Rio de Janeiro.
Com capacidade reduzida e temporadas curtas, a montagem aposta na proximidade com o público como parte essencial da experiência artística.
Serviço – Palavras
Com: Tuca Moraes
Baseado na obra de: Clarice Lispector
Data especial: 18 de julho, às 19h
Sessões extras: 6 e 13 de agosto, às 19h
Local: Sala Sérgio Britto – Armazém da Utopia
Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia)
Classificação: Livre
Duração: 60 minutos
Capacidade: 40 espectadores
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