A regulamentação do mercado brasileiro de apostas mudou completamente as condições para empresas que desejam atuar no país. Desde janeiro de 2025, as chamadas bets passaram a enfrentar exigências financeiras, estruturais e operacionais mais rígidas.
O novo cenário já provocou mudanças importantes. Um levantamento do Aposta Legal identificou dez marcas conhecidas que deixaram o Brasil, foram absorvidas por concorrentes ou não conseguiram avançar no mercado federal.
Entre os nomes estão Betway, Dafabet, AmuletoBet, Arena Esportiva, Vera&John, Parimatch, Pagbet, Betmotion, Bodog e Betsat.
A saída dessas empresas, porém, não significa que o mercado tenha perdido força. Pelo contrário. O Brasil continua com centenas de marcas autorizadas, enquanto a publicidade das apostas permanece presente no futebol, nas redes sociais e no cotidiano dos consumidores.
É justamente nesse ponto que surge uma preocupação que vai além da disputa empresarial: a normalização das apostas e os efeitos sobre pessoas que podem desenvolver comportamento de risco, especialmente adolescentes e jovens.
Antes da regulamentação, entrar no mercado brasileiro era relativamente simples. Uma empresa precisava oferecer um site em português, disponibilizar meios de pagamento utilizados no país e investir em divulgação.
O cenário mudou com as novas regras.
Para operar legalmente no mercado federal, uma empresa precisa pagar R$ 30 milhões por uma autorização válida por cinco anos. Também deve manter sede e administração no Brasil, ter um sócio brasileiro com pelo menos 20% do capital social, certificar seus sistemas e cumprir regras relacionadas à identificação dos apostadores, pagamentos, publicidade e jogo responsável.
Segundo o levantamento do Aposta Legal, a lista federal atualizada em 28 de julho de 2026 reunia 188 marcas legais, distribuídas entre 82 empresas e 85 autorizações.
São 185 domínios .bet.br ativos e três marcas que ainda aguardam definição de domínio.
O número é próximo ao registrado em 2025, quando havia 79 empresas e 183 marcas. A principal mudança, portanto, ocorreu na composição do mercado.
De acordo com o levantamento, algumas empresas simplesmente encerraram suas operações durante a transição. Outras foram absorvidas por concorrentes que permaneceram no país.
Betway, Dafabet, AmuletoBet, Arena Esportiva e Vera&John estão entre as marcas que encerraram suas atividades.
Parimatch e Pagbet foram absorvidas por empresas que continuaram no mercado.
Já Betmotion chegou a solicitar autorização, mas não avançou até a lista definitiva. Bodog e Betsat ficaram fora do mercado federal.
O movimento mostra que a regulamentação funcionou como um filtro financeiro e estrutural.
Além dos R$ 30 milhões de outorga, as empresas passaram a enfrentar custos com certificação, estrutura local, controles contra lavagem de dinheiro, identificação dos usuários, armazenamento de dados e tributação.
O resultado foi uma seleção de empresas com maior capacidade financeira e interesse em permanecer no Brasil.
A saída das marcas não representa o fim dos problemas associados às apostas.
A discussão ganhou uma dimensão ainda maior com a exposição de crianças e adolescentes à publicidade das bets.
Um dos textos enviados aponta justamente essa preocupação ao abordar o impacto da publicidade durante a Copa do Mundo.
Segundo dados da Caru, inteligência artificial criada para apoiar mães, as consultas relacionadas a apostas e crianças saltaram de menos de dez por mês para cerca de 100 por dia durante as transmissões da Copa.
O aumento mostra como a presença das apostas no futebol chegou também às famílias.
A situação descrita no material é simples: uma criança assiste a uma partida, vê um jogador ou influenciador divulgando uma casa de apostas e pergunta aos pais o que aquilo significa.
A publicidade, portanto, não precisa ser direcionada diretamente ao público infantil para alcançá-lo.
Ela aparece durante partidas de futebol, em transmissões, placas, intervalos, redes sociais e conteúdos produzidos por influenciadores.
O problema é ainda mais delicado porque o futebol funciona como porta de entrada para muitas crianças e adolescentes.
Curiosidade aparece como um dos principais gatilhos para as bets
Os números apresentados nos textos enviados reforçam a preocupação.
O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) apontou que 10,5% dos adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos apostaram dinheiro no último ano.
Entre meninos de 16 e 17 anos, o índice chega a 20%.
Mais preocupante é o comportamento identificado entre os adolescentes que apostam.
Segundo o levantamento, 55,2% dos adolescentes que apostaram já apresentam sinais de jogo de risco ou jogo problemático. Entre adultos apostadores, o índice é de 38,8%.
Outra pesquisa, realizada pela Ipsos a pedido da Unico com 1.200 jovens de 10 a 17 anos, apontou que 11% apostaram em 2025.
O principal motivo declarado chama atenção: 41% disseram que chegaram às apostas por curiosidade.
A promessa de dinheiro fácil apareceu em segundo lugar, com 34%.
Os dados mostram por que a publicidade das bets preocupa além da questão financeira. A curiosidade pode ser o primeiro contato de um adolescente com um comportamento que posteriormente pode assumir características problemáticas.
O futebol também acrescenta uma característica particular ao problema.
Quando a aposta está relacionada a um esporte que o jovem acompanha, existe o risco de surgir a percepção de que ele consegue prever o resultado.
A pessoa conhece os jogadores, acompanha os times e acredita entender o desempenho das equipes. Isso pode criar uma falsa sensação de controle.
O material enviado destaca ainda o funcionamento do cérebro durante a infância e a adolescência. O núcleo accumbens, relacionado ao prazer e à dopamina, apresenta grande atividade, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos e avaliação de riscos, ainda está em desenvolvimento.
Nesse cenário, o contato precoce com apostas pode aumentar a vulnerabilidade a comportamentos de risco.
O problema não começa necessariamente quando alguém perde grandes quantias.
Pode começar com uma pequena aposta, uma brincadeira entre amigos ou a curiosidade despertada por uma propaganda.
A regulamentação também tenta limitar a publicidade
As novas regras passaram a tratar com maior rigor a publicidade de apostas direcionada a crianças e adolescentes.
Segundo o material enviado, as regras estabelecidas pelas Portarias Interministerial nº 73/2026 e SPA/MF nº 1.964/2026, em vigor desde 17 de julho, consideram abusiva a publicidade de apostas dirigida direta ou indiretamente a menores.
As normas incluem restrições a campanhas com participação de menores de 18 anos e a elementos considerados especialmente atrativos para esse público.
As peças publicitárias também precisam apresentar advertências sobre os riscos das apostas.
Entre as mensagens estão:
“Apostar pode causar dependência”
e
“Aposta não é investimento”.
Lojas de aplicativos, sistemas operacionais e redes sociais também passaram a ter obrigações relacionadas à publicidade destinada a contas de menores.
Mesmo assim, permanece um problema difícil de resolver.
Uma transmissão de futebol é assistida por toda a família. Crianças podem estar na mesma sala durante uma partida e receber a mesma publicidade destinada aos adultos.
Assim, mesmo que o anúncio não tenha sido criado especificamente para crianças, sua mensagem chega até elas.
As bets também aparecem no debate sobre saúde mental
A preocupação com os efeitos das apostas não se limita aos adolescentes.
O material da Demà Jovem destaca os impactos socioeconômicos e psicológicos das apostas entre jovens que estão ingressando no mercado profissional.

A organização promoveu a iniciativa “Ação Aprendiz”, com palestras voltadas aos riscos das apostas esportivas.
Aline Mariano, coordenadora nacional de Psicossocial da Demà, destacou a necessidade de discutir o tema de forma aberta.
“Estamos orgulhosos de poder falar sobre este assunto de forma franca, clara e aberta para tantos jovens simultaneamente. Sabemos que as bets causam inúmeras preocupações e não podemos deixar de abordar uma temática apontada como fator para desenvolver compulsão, ansiedade e endividamento.”
O psicólogo André Luiz Silveira Gonçalves também chamou atenção para a promessa de dinheiro fácil.
“A maior armadilha do jogo está na ilusão do dinheiro fácil, que pode levar à dependência e ao comprometimento da estrutura emocional e financeira do jovem. Muitos acabam omitindo informações, mentindo para a família e se endividando na tentativa de recuperar perdas, o que gera um ciclo prejudicial.”
O problema pode atingir com maior intensidade jovens em situação de vulnerabilidade.
Segundo o especialista:
“Para muitos jovens, as bets podem alimentar uma falsa esperança de mudança de vida, seja para ajudar a família ou alcançar independência financeira. No entanto, essa busca pode resultar em ansiedade, frustração e depressão quando os ganhos esperados não se concretizam e para combater os malefícios do vício digital e das apostas, a educação é essencial.”
A explosão de dúvidas registradas pela Caru revela outro aspecto do problema.
Pais e responsáveis passaram a precisar explicar às crianças o que são as bets, por que jogadores e influenciadores falam sobre elas e quais são os riscos envolvidos.
Daniela Seibel, CEO da Canguru e idealizadora da Caru, explica que o aumento das consultas mostrou uma demanda que já existia, mas permanecia pouco visível.
“Quando a mesma pergunta chega cem vezes por dia, ela deixa de ser dúvida individual e vira sintoma coletivo. Percebemos que uma resposta correta, mas mal calibrada, poderia despertar exatamente a curiosidade que a mãe estava tentando evitar. Por isso passamos a alimentar a base da Caru com teses acadêmicas e literatura de profissionais de saúde mental e do comportamento, para ajustar a sensibilidade das respostas por faixa etária.”
A orientação apresentada no material é evitar transformar a conversa em uma espécie de propaganda involuntária.
Para crianças mais novas, a recomendação é explicar que as empresas ganham dinheiro com as apostas e que o jogador corre o risco de perder.
Entre 11 e 13 anos, a conversa pode avançar para a publicidade e para a pergunta sobre quem está pagando determinado influenciador ou atleta.
Já para adolescentes, o debate pode abordar de forma mais direta dependência, endividamento, perdas financeiras e comportamento compulsivo.
O futebol se tornou um dos principais veículos para normalizar as apostas
A presença das bets no esporte brasileiro aumentou a exposição do público às marcas.
O problema não está apenas no anúncio isolado. A repetição ajuda a transformar a aposta em parte natural da experiência esportiva.
O torcedor vê marcas de apostas nas transmissões, nos uniformes, nas placas, nas redes sociais e nos conteúdos produzidos por personalidades do futebol.
Para crianças e adolescentes, essa associação pode ser ainda mais poderosa.

O jogador que aparece como ídolo dentro de campo pode ser visto também como uma referência fora dele.
Por isso, a questão não se resume a saber se uma determinada propaganda é legal ou ilegal.
Existe uma discussão mais ampla sobre qual comportamento está sendo normalizado e quem está sendo alcançado por ele.
A regulamentação mudou as empresas, mas não resolveu o debate
O levantamento do Aposta Legal mostra que a regulamentação alterou o perfil do mercado.
Dez marcas conhecidas ficaram pelo caminho. Algumas encerraram operações. Outras foram absorvidas. Algumas não conseguiram completar o processo de autorização.
O mercado, porém, continuou grande.
Isso significa que a regulamentação pode ter criado mecanismos para controlar quem opera no país, mas não eliminou os riscos associados ao próprio modelo de apostas.
A questão agora passa também por publicidade, educação financeira, saúde mental, proteção de menores e prevenção ao jogo problemático.
A saída de empresas como Betway, Dafabet e Parimatch representa uma transformação empresarial importante.
Mas o desafio mais difícil continua sendo outro: impedir que apostar seja apresentado como uma forma comum, fácil e divertida de ganhar dinheiro, principalmente para um público que ainda não possui maturidade para avaliar completamente os riscos.
No fim, a discussão sobre as bets não deveria ser apenas sobre quais empresas permaneceram no Brasil.
É também sobre quantas pessoas continuarão sendo atraídas para esse mercado e qual será o custo para quem não conseguir parar de apostar.
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