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Bets deixam o Brasil após regulamentação, mas impactos das apostas preocupam famílias e jovens

Marcas conhecidas abandonaram ou não avançaram no mercado brasileiro após as novas regras, enquanto pesquisas apontam crescimento da exposição de adolescentes às apostas

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 11 de agosto de 2026
15 Min Leitura
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Tópicos
  • As bets também aparecem no debate sobre saúde mental
  • O futebol se tornou um dos principais veículos para normalizar as apostas
  • A regulamentação mudou as empresas, mas não resolveu o debate
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A regulamentação do mercado brasileiro de apostas mudou completamente as condições para empresas que desejam atuar no país. Desde janeiro de 2025, as chamadas bets passaram a enfrentar exigências financeiras, estruturais e operacionais mais rígidas.

O novo cenário já provocou mudanças importantes. Um levantamento do Aposta Legal identificou dez marcas conhecidas que deixaram o Brasil, foram absorvidas por concorrentes ou não conseguiram avançar no mercado federal.

Entre os nomes estão Betway, Dafabet, AmuletoBet, Arena Esportiva, Vera&John, Parimatch, Pagbet, Betmotion, Bodog e Betsat.

A saída dessas empresas, porém, não significa que o mercado tenha perdido força. Pelo contrário. O Brasil continua com centenas de marcas autorizadas, enquanto a publicidade das apostas permanece presente no futebol, nas redes sociais e no cotidiano dos consumidores.

É justamente nesse ponto que surge uma preocupação que vai além da disputa empresarial: a normalização das apostas e os efeitos sobre pessoas que podem desenvolver comportamento de risco, especialmente adolescentes e jovens.

Antes da regulamentação, entrar no mercado brasileiro era relativamente simples. Uma empresa precisava oferecer um site em português, disponibilizar meios de pagamento utilizados no país e investir em divulgação.

O cenário mudou com as novas regras.

Para operar legalmente no mercado federal, uma empresa precisa pagar R$ 30 milhões por uma autorização válida por cinco anos. Também deve manter sede e administração no Brasil, ter um sócio brasileiro com pelo menos 20% do capital social, certificar seus sistemas e cumprir regras relacionadas à identificação dos apostadores, pagamentos, publicidade e jogo responsável.

Segundo o levantamento do Aposta Legal, a lista federal atualizada em 28 de julho de 2026 reunia 188 marcas legais, distribuídas entre 82 empresas e 85 autorizações.

São 185 domínios .bet.br ativos e três marcas que ainda aguardam definição de domínio.

O número é próximo ao registrado em 2025, quando havia 79 empresas e 183 marcas. A principal mudança, portanto, ocorreu na composição do mercado.

De acordo com o levantamento, algumas empresas simplesmente encerraram suas operações durante a transição. Outras foram absorvidas por concorrentes que permaneceram no país.

Betway, Dafabet, AmuletoBet, Arena Esportiva e Vera&John estão entre as marcas que encerraram suas atividades.

Parimatch e Pagbet foram absorvidas por empresas que continuaram no mercado.

Já Betmotion chegou a solicitar autorização, mas não avançou até a lista definitiva. Bodog e Betsat ficaram fora do mercado federal.

O movimento mostra que a regulamentação funcionou como um filtro financeiro e estrutural.

Além dos R$ 30 milhões de outorga, as empresas passaram a enfrentar custos com certificação, estrutura local, controles contra lavagem de dinheiro, identificação dos usuários, armazenamento de dados e tributação.

O resultado foi uma seleção de empresas com maior capacidade financeira e interesse em permanecer no Brasil.

A saída das marcas não representa o fim dos problemas associados às apostas.

A discussão ganhou uma dimensão ainda maior com a exposição de crianças e adolescentes à publicidade das bets.

Um dos textos enviados aponta justamente essa preocupação ao abordar o impacto da publicidade durante a Copa do Mundo.

Segundo dados da Caru, inteligência artificial criada para apoiar mães, as consultas relacionadas a apostas e crianças saltaram de menos de dez por mês para cerca de 100 por dia durante as transmissões da Copa.

O aumento mostra como a presença das apostas no futebol chegou também às famílias.

A situação descrita no material é simples: uma criança assiste a uma partida, vê um jogador ou influenciador divulgando uma casa de apostas e pergunta aos pais o que aquilo significa.

A publicidade, portanto, não precisa ser direcionada diretamente ao público infantil para alcançá-lo.

Ela aparece durante partidas de futebol, em transmissões, placas, intervalos, redes sociais e conteúdos produzidos por influenciadores.

O problema é ainda mais delicado porque o futebol funciona como porta de entrada para muitas crianças e adolescentes.

Curiosidade aparece como um dos principais gatilhos para as bets

Os números apresentados nos textos enviados reforçam a preocupação.

O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) apontou que 10,5% dos adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos apostaram dinheiro no último ano.

Entre meninos de 16 e 17 anos, o índice chega a 20%.

Mais preocupante é o comportamento identificado entre os adolescentes que apostam.

Segundo o levantamento, 55,2% dos adolescentes que apostaram já apresentam sinais de jogo de risco ou jogo problemático. Entre adultos apostadores, o índice é de 38,8%.

Outra pesquisa, realizada pela Ipsos a pedido da Unico com 1.200 jovens de 10 a 17 anos, apontou que 11% apostaram em 2025.

O principal motivo declarado chama atenção: 41% disseram que chegaram às apostas por curiosidade.

A promessa de dinheiro fácil apareceu em segundo lugar, com 34%.

Os dados mostram por que a publicidade das bets preocupa além da questão financeira. A curiosidade pode ser o primeiro contato de um adolescente com um comportamento que posteriormente pode assumir características problemáticas.

O futebol também acrescenta uma característica particular ao problema.

Quando a aposta está relacionada a um esporte que o jovem acompanha, existe o risco de surgir a percepção de que ele consegue prever o resultado.

A pessoa conhece os jogadores, acompanha os times e acredita entender o desempenho das equipes. Isso pode criar uma falsa sensação de controle.

O material enviado destaca ainda o funcionamento do cérebro durante a infância e a adolescência. O núcleo accumbens, relacionado ao prazer e à dopamina, apresenta grande atividade, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos e avaliação de riscos, ainda está em desenvolvimento.

Nesse cenário, o contato precoce com apostas pode aumentar a vulnerabilidade a comportamentos de risco.

O problema não começa necessariamente quando alguém perde grandes quantias.

Pode começar com uma pequena aposta, uma brincadeira entre amigos ou a curiosidade despertada por uma propaganda.

A regulamentação também tenta limitar a publicidade

As novas regras passaram a tratar com maior rigor a publicidade de apostas direcionada a crianças e adolescentes.

Segundo o material enviado, as regras estabelecidas pelas Portarias Interministerial nº 73/2026 e SPA/MF nº 1.964/2026, em vigor desde 17 de julho, consideram abusiva a publicidade de apostas dirigida direta ou indiretamente a menores.

As normas incluem restrições a campanhas com participação de menores de 18 anos e a elementos considerados especialmente atrativos para esse público.

As peças publicitárias também precisam apresentar advertências sobre os riscos das apostas.

Entre as mensagens estão:

“Apostar pode causar dependência”

e

“Aposta não é investimento”.

Lojas de aplicativos, sistemas operacionais e redes sociais também passaram a ter obrigações relacionadas à publicidade destinada a contas de menores.

Mesmo assim, permanece um problema difícil de resolver.

Uma transmissão de futebol é assistida por toda a família. Crianças podem estar na mesma sala durante uma partida e receber a mesma publicidade destinada aos adultos.

Assim, mesmo que o anúncio não tenha sido criado especificamente para crianças, sua mensagem chega até elas.

As bets também aparecem no debate sobre saúde mental

A preocupação com os efeitos das apostas não se limita aos adolescentes.

O material da Demà Jovem destaca os impactos socioeconômicos e psicológicos das apostas entre jovens que estão ingressando no mercado profissional.

Flamengo
Foto: Gilvan de Souza/CRF

A organização promoveu a iniciativa “Ação Aprendiz”, com palestras voltadas aos riscos das apostas esportivas.

Aline Mariano, coordenadora nacional de Psicossocial da Demà, destacou a necessidade de discutir o tema de forma aberta.

“Estamos orgulhosos de poder falar sobre este assunto de forma franca, clara e aberta para tantos jovens simultaneamente. Sabemos que as bets causam inúmeras preocupações e não podemos deixar de abordar uma temática apontada como fator para desenvolver compulsão, ansiedade e endividamento.”

O psicólogo André Luiz Silveira Gonçalves também chamou atenção para a promessa de dinheiro fácil.

“A maior armadilha do jogo está na ilusão do dinheiro fácil, que pode levar à dependência e ao comprometimento da estrutura emocional e financeira do jovem. Muitos acabam omitindo informações, mentindo para a família e se endividando na tentativa de recuperar perdas, o que gera um ciclo prejudicial.”

O problema pode atingir com maior intensidade jovens em situação de vulnerabilidade.

Segundo o especialista:

“Para muitos jovens, as bets podem alimentar uma falsa esperança de mudança de vida, seja para ajudar a família ou alcançar independência financeira. No entanto, essa busca pode resultar em ansiedade, frustração e depressão quando os ganhos esperados não se concretizam e para combater os malefícios do vício digital e das apostas, a educação é essencial.”

A explosão de dúvidas registradas pela Caru revela outro aspecto do problema.

Pais e responsáveis passaram a precisar explicar às crianças o que são as bets, por que jogadores e influenciadores falam sobre elas e quais são os riscos envolvidos.

Daniela Seibel, CEO da Canguru e idealizadora da Caru, explica que o aumento das consultas mostrou uma demanda que já existia, mas permanecia pouco visível.

“Quando a mesma pergunta chega cem vezes por dia, ela deixa de ser dúvida individual e vira sintoma coletivo. Percebemos que uma resposta correta, mas mal calibrada, poderia despertar exatamente a curiosidade que a mãe estava tentando evitar. Por isso passamos a alimentar a base da Caru com teses acadêmicas e literatura de profissionais de saúde mental e do comportamento, para ajustar a sensibilidade das respostas por faixa etária.”

A orientação apresentada no material é evitar transformar a conversa em uma espécie de propaganda involuntária.

Para crianças mais novas, a recomendação é explicar que as empresas ganham dinheiro com as apostas e que o jogador corre o risco de perder.

Entre 11 e 13 anos, a conversa pode avançar para a publicidade e para a pergunta sobre quem está pagando determinado influenciador ou atleta.

Já para adolescentes, o debate pode abordar de forma mais direta dependência, endividamento, perdas financeiras e comportamento compulsivo.

O futebol se tornou um dos principais veículos para normalizar as apostas

A presença das bets no esporte brasileiro aumentou a exposição do público às marcas.

O problema não está apenas no anúncio isolado. A repetição ajuda a transformar a aposta em parte natural da experiência esportiva.

O torcedor vê marcas de apostas nas transmissões, nos uniformes, nas placas, nas redes sociais e nos conteúdos produzidos por personalidades do futebol.

Para crianças e adolescentes, essa associação pode ser ainda mais poderosa.

seleção brasileira futebol convocados Brasil x Croácia em Liverpool. Neymar. Lucas Figueiredo/CBF
Brasil x Croácia em Liverpool. Neymar. Lucas Figueiredo/CBF

O jogador que aparece como ídolo dentro de campo pode ser visto também como uma referência fora dele.

Por isso, a questão não se resume a saber se uma determinada propaganda é legal ou ilegal.

Existe uma discussão mais ampla sobre qual comportamento está sendo normalizado e quem está sendo alcançado por ele.

A regulamentação mudou as empresas, mas não resolveu o debate

O levantamento do Aposta Legal mostra que a regulamentação alterou o perfil do mercado.

Dez marcas conhecidas ficaram pelo caminho. Algumas encerraram operações. Outras foram absorvidas. Algumas não conseguiram completar o processo de autorização.

O mercado, porém, continuou grande.

Isso significa que a regulamentação pode ter criado mecanismos para controlar quem opera no país, mas não eliminou os riscos associados ao próprio modelo de apostas.

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A questão agora passa também por publicidade, educação financeira, saúde mental, proteção de menores e prevenção ao jogo problemático.

A saída de empresas como Betway, Dafabet e Parimatch representa uma transformação empresarial importante.

Mas o desafio mais difícil continua sendo outro: impedir que apostar seja apresentado como uma forma comum, fácil e divertida de ganhar dinheiro, principalmente para um público que ainda não possui maturidade para avaliar completamente os riscos.

No fim, a discussão sobre as bets não deveria ser apenas sobre quais empresas permaneceram no Brasil.

É também sobre quantas pessoas continuarão sendo atraídas para esse mercado e qual será o custo para quem não conseguir parar de apostar.

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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