Dirigido por Eli Roth, O Sorveteiro encontra força no terror trash e na violência absurda, mas se perde ao tentar transformar uma ideia simples em um discurso pretensioso
Existe algo genuinamente fascinante na união entre o infantil e o macabro. Quando elementos associados à inocência são transformados em instrumentos de horror, o resultado pode ser perturbador justamente pela quebra de expectativa. Eli Roth entende perfeitamente esse mecanismo e, em O Sorveteiro, leva essa contradição ao extremo ao transformar uma das figuras mais inofensivas da infância em uma máquina de caos, sangue e destruição.
O problema é que Roth parece não confiar na própria ideia.
A princípio, O Sorveteiro funciona melhor quando abraça descaradamente o espírito do terror trash dos anos 80. O sorveteiro interpretado por Ari Millen é uma presença silenciosa, estranha e ameaçadora, construída muito mais pelo olhar e pelas expressões do ator do que por qualquer explicação. Ele não precisa falar para causar desconforto, quanto menos sabemos sobre aquela figura aparentemente comum, mais interessante ela se torna.

Cena de “O Sorveteiro”- Distribuição Diamond Pictures
A história poderia funcionar perfeitamente como uma sucessão de situações absurdas envolvendo um grupo de crianças enfrentando uma ameaça inexplicável. Em vez disso, Roth cria uma origem envolvendo um estrangeiro injustamente condenado pela opinião pública, morte, vingança e até mesmo uma aliança com um necromante. O que poderia ser uma simples justificativa para a existência do monstro transforma-se em uma mitologia que parece muito mais preocupada em explicar o próprio simbolismo do que em tornar a história melhor.
E essa é uma das grandes contradições de O Sorveteiro: o filme quer ser trash, mas ocasionalmente parece ter vergonha de simplesmente ser trash.
A crítica ao sonho americano já estava estampada em cada detalhe da produção. A vizinhança artificialmente perfeita, as cores saturadas, os cenários excessivamente limpos e a estética de comercial de margarina constroem uma versão tão plástica dos Estados Unidos que praticamente não seria necessário acrescentar nenhuma explicação. O filme já dizia tudo visualmente. Ainda assim, Roth insiste em verbalizar e ampliar aquilo que funcionava muito melhor no subtexto.
Quando a produção passa a associar de maneira tão direta o estrangeiro à ameaça contra o futuro daquela sociedade, representado pelas crianças, o comentário social deixa de ser provocador e passa a ser confuso. O filme tenta questionar o xenofobismo e o falso ideal americano, mas sua construção é tão literal que, em alguns momentos, corre o risco de reproduzir justamente a lógica que aparentemente pretende criticar.

Ari Millen em cena de “O Sorveteiro”- Distribuição Diamond Pictures
O mais curioso é que o próprio sorveteiro é muito mais interessante quando não representa absolutamente nada.
Eli Roth acerta novamente ao entender que um monstro não precisa parecer um monstro. Ari Millen não possui a maquiagem grotesca de Pennywise ou a iconografia imediatamente reconhecível de Freddy Krueger. Ele é simplesmente um homem. Um homem sorrindo, observando e caminhando enquanto tudo ao seu redor mergulha no absurdo. Existe algo genuinamente perturbador nessa normalidade, especialmente porque o personagem funciona mais como um catalisador da violência do que como sua origem propriamente dita.
É nas crianças, inclusive, que O Sorveteiro encontra sua maior força.
As crianças conseguem sustentar boa parte do caos da narrativa com uma energia que combina perfeitamente com a proposta. A inocência dos personagens contrasta com situações cada vez mais grotescas, e o roteiro encontra momentos de humor genuinamente eficazes, enquanto outros somente não encontram a mesma força.
A violência é outro ponto em que Roth demonstra saber exatamente o que está fazendo, e ao mesmo tempo, revela um dos maiores problemas da produção.
Não existe qualquer preocupação em conter o sangue. Tripas viram cordas, cérebros são tratados como sobremesa e crianças são colocadas no centro de situações que seriam desconfortáveis mesmo para personagens adultos. Algumas mortes são inventivas e visualmente divertidas dentro da lógica do trash, enquanto outras parecem existir simplesmente porque Roth pode fazê-las.
Quando a violência nasce da criatividade, ela provoca. Quando nasce apenas do desejo de chocar, rapidamente se torna gratuita. O Sorveteiro oscila constantemente entre esses dois extremos, e nem sempre consegue justificar o excesso que coloca em tela. O uso de efeitos práticos ajuda bastante, assim como os enquadramentos que transformam determinadas mortes em verdadeiros espetáculos grotescos. Mas o impacto diminui justamente quando o filme parece mais interessado em aumentar a quantidade de sangue do que em encontrar novas formas de utilizá-lo.

Charlie Storey em cena de “O Sorveteiro”- Distribuição Diamond Pictures
E então existe a inteligência artificial.
Ainda que seu uso seja aparentemente limitado, as sequências que recorrem ao recurso são suficientemente perceptíveis para quebrar a experiência. O argumento de que a artificialidade poderia complementar a estética plástica do filme não se sustenta completamente, porque o problema não está na intenção, mas na execução. A tecnologia não parece fazer parte daquela linguagem visual; ela parece estar ali. E, quando o espectador percebe a ferramenta em vez da cena, a ilusão desaparece.
Isso é especialmente frustrante porque O Sorveteiro possui uma identidade visual muito mais interessante quando aposta justamente no artificial feito de maneira artesanal. A plasticidade dos cenários, a saturação das cores e os efeitos práticos criam um universo que parece deliberadamente falso. A IA, ao contrário, denuncia o processo em vez de incorporá-lo à estética.
No fim, O Sorveteiro é uma produção que tinha todos os elementos para ser uma divertida e perturbadora carta de amor ao terror trash dos anos 80, mas que se sabota ao tentar ser mais inteligente do que realmente precisa. A estrutura de crianças enfrentando um inimigo aparentemente invencível remete diretamente ao cinema de horror daquela década, mas Roth injeta tantos discursos, explicações e exageros contemporâneos que a homenagem perde parte de sua espontaneidade.
O filme não precisava de uma mitologia complexa. Não precisava explicar tanto seu vilão. Não precisava transformar cada elemento em uma alegoria. E definitivamente não precisava provar que existe algo maior por trás de cada litro de sangue derramado.
Bastava confiar no sorveteiro.
Porque, quando Eli Roth simplesmente coloca um homem silencioso atrás de um carrinho de sorvete e deixa crianças enfrentarem o absurdo, O Sorveteiro encontra uma identidade própria. Quando tenta transformar essa premissa em uma grande alegoria sobre os Estados Unidos, xenofobia, infância e decadência social, o filme perde o equilíbrio e transforma aquilo que poderia ser simplesmente divertido em algo excessivamente explicado.
Distribuído pela Diamond Pictures Brasil, O Sorveteiro chega aos cinemas em 3 de setembro.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



