Dirigido por Pil Gamseong, Minha Filha é Um Zumbi privilegia a intimidade e o melodrama em detrimento da ação e do terror, e este é justamente seu maior trunfo
Enquanto Hollywood parece cada vez mais presa a fórmulas conhecidas, o cinema sul-coreano continua encontrando maneiras interessantes de revisitar gêneros já bastante explorados. Minha Filha é Um Zumbi não é exatamente uma obra original em sua premissa. Desde George A. Romero, os mortos-vivos são utilizados para refletir sobre diferentes aspectos da sociedade, e inúmeras produções já encontraram suas próprias maneiras de abordar o tema.
O diferencial de Minha Filha é Um Zumbi está justamente em não transformar a infecção em uma ameaça global, mas em reduzir essa distopia a um núcleo familiar. Aqui, importam menos as causas do apocalipse e mais as consequências que ele provoca.
É muito mais fácil nos identificarmos e torcermos por um personagem do que por todo um universo. E é justamente nesse aspecto que Minha Filha é Um Zumbi encontra sua maior força: a história de um pai tentando preservar a filha que ama, mesmo depois de ela ter se transformado em uma criatura que, em qualquer outra narrativa do gênero, provavelmente seria tratada como uma ameaça a ser eliminada.

Choi Yoo-ri, Lee Jung-eun e Jo Jung-suk em cena de “Minha FIlha é um Zumbi’- Divulgação O2 Play
Existe algo quase semelhante de Como Treinar o Seu Dragão (2010, Chris Sanders e Dean DeBlois), nessa relação. Em ambos, o afeto é capaz de enxergar humanidade onde os outros enxergam apenas uma criatura perigosa. Aqui, Lee Jeong-hwan percebe que sua filha Soo-ah, mesmo transformada em zumbi, ainda apresenta sinais de consciência. A partir disso, ele embarca em uma jornada para preservar suas memórias, emoções e, acima de tudo, a própria relação entre os dois. A jovem Choi Yoo-ri é fundamental para que essa dinâmica funcione, equilibrando inocência, humor e emoção em uma personagem que poderia facilmente cair no exagero.
A relação entre pai e filha, que já era inicialmente distante, torna-se praticamente impossível depois da transformação. Ainda assim, o amor permanece. E é justamente essa contradição que move o filme. Mesmo diante de uma situação potencialmente trágica, Pil Gamseong encontra espaço para o humor físico, reações exageradas e diálogos rápidos e irônicos. O resultado é uma obra que consegue alternar com naturalidade entre o absurdo e o melodrama. Quando a narrativa decide abandonar a comédia e simplesmente quer nos fazer chorar, ela consegue com bastante eficiência.
Nesse sentido, a dublagem brasileira também merece destaque. A participação do Omelete e o trabalho de Roberjane de Andrade na direção ajudam a aproximar ainda mais a história do público brasileiro. Em uma produção cuja principal força está na emoção, ouvir Soo-ah chamar pelo pai em português produz uma proximidade diferente daquela proporcionada pelo idioma original. É um recurso que reforça justamente aquilo que o filme deseja provocar: identificação.
A escolha de limitar a narrativa a esse pequeno grupo de personagens também funciona muito bem. Minha Filha é Um Zumbi flerta com o horror, mas nunca está realmente interessado em construir uma mitologia complexa sobre os mortos-vivos. O universo existe apenas o suficiente para sustentar o drama. O verdadeiro foco está em Soo-ah, Lee Jeong-hwan, Kim Bam-sun, Shin-Yeon e nos demais personagens que acabam formando uma espécie de família improvável diante de uma situação absurda.

Lee Jung-eun e Jo Jung-suk em cena de “Minha FIlha é um Zumbi’- Divulgação O2 Play
Até mesmo Shin-Yeon, inicialmente apresentada de maneira antipática e quase como uma antagonista, ganha importância dentro dessa jornada. Ela representa aquilo que Lee Jeong-hwan poderia fazer, mas se recusa a fazer: desistir de alguém que ama diante de uma situação aparentemente irreversível. Enquanto ela escolheu abandonar aquele que amava, ele insiste em acreditar na filha. Essa oposição funciona como um espelho importante para o protagonista e ajuda a estabelecer o verdadeiro conflito do filme: até onde alguém é capaz de ir para preservar uma pessoa que ama?
É por isso que cada pequena evolução de Soo-ah pesa tanto emocionalmente. Cada riso, cada interação com o pai e cada demonstração de consciência nos faz acreditar que talvez exista uma possibilidade de recuperação. Torcemos por ela não porque o roteiro nos obriga, mas porque a relação construída entre os dois faz com que realmente desejemos vê-los juntos novamente.
Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Minha Filha é Um Zumbi se arrasta em determinados momentos, principalmente quando começa a prolongar conflitos que já haviam sido suficientemente estabelecidos. O terceiro ato também apresenta uma estrutura curiosa, quase como se oferecesse dois finais consecutivos: primeiro, um caminho mais pessimista; depois, uma resolução mais otimista, encerrando a história com um evidente senso de joie de vivre. A escolha pode soar excessivamente manipuladora, mas também conversa com a proposta emocional do filme.
Há ainda algumas inconsistências na utilização de determinados personagens. Kim Bam-sun, por exemplo, é apresentada inicialmente como uma figura de enorme força e protagoniza uma sequência de ação que remete diretamente à energia de Matrix (1999, Lana e Lilly Wachowski). Entretanto, conforme a narrativa avança, essa personagem perde parte da presença que inicialmente parecia destinada a ter. É uma pena, principalmente porque sua introdução cria expectativas que o restante do filme não consegue sustentar completamente.

Lee Jung-eun em cena do filme “Minha Filha é um Zumbi”- Divulgação: O2 Play
Ainda assim, Minha Filha é Um Zumbi entende algo que muitas produções do gênero parecem esquecer: não precisamos conhecer todo o mundo para nos importarmos com o que acontece nele. Ao reduzir o apocalipse a uma família, o filme transforma uma história sobre zumbis em uma história sobre amor, memória e incapacidade de abandonar alguém que ainda enxergamos como humano.
É uma produção para ser assistida com a guarda baixa, sem medo de sentir. Pil Gamseong manipula nossas emoções de maneira bastante consciente, mas encontra força justamente por compreender aquilo que existe por trás do absurdo: o medo de perder alguém que amamos e a esperança irracional de que, de alguma forma, ainda seja possível trazê-lo de volta.
Talvez seja justamente essa simplicidade que faça Minha Filha é Um Zumbi funcionar tão bem. Por trás dos zumbis, da comédia física e das situações absurdas, existe uma história essencialmente humana, e diante dela, é difícil não torcer para que o amor seja suficiente.
Uma distribuição da O2 Play e da Omelete Company, Minha Filha é Um Zumbi chega aos cinemas em 3 de setembro.
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