O Festival Instrumental Mulambo Jazzagrário completa dez anos em 2026 e prepara uma edição especial com três dias de programação gratuita no Rio de Janeiro. Entre 18 e 26 de setembro, o projeto ocupa o MUHCAB, a Praça XV e a Sala Cecília Meireles, reunindo shows, discotecagens e encontros dedicados à música instrumental brasileira.
Com curadoria de Nathalia Grilo e Roberto Barrucho, o festival integra a programação da Semana de Arte do Rio e leva ao público uma seleção de artistas ligados à música negra, à produção periférica, ao jazz, à música de terreiro e às experimentações sonoras.
A programação também marca uma década de um projeto que nasceu na Zona Oeste do Rio com a proposta de abrir espaço para a produção instrumental que surge nas periferias.
O nome do festival é uma homenagem ao multi-instrumentista Fernando Grilo, que morreu em 2015, aos 22 anos. Antes disso, ele havia criado a banda Mulambo Jazzagrário e desenvolvido uma atuação que aproximava música, formação e mobilização cultural.
Fernando morreu quando viajava para realizar uma parceria com o percussionista Naná Vasconcelos. Sua trajetória, apesar de curta, influenciou músicos, produtores e agentes culturais em diferentes cidades brasileiras.
O festival mantém essa memória como parte de sua identidade.
Um festival que nasceu na periferia
O Mulambo Jazzagrário surgiu em 2016, na Zona Oeste do Rio, região que possui uma importante tradição de produção de música instrumental.
Desde então, o projeto promoveu residências culturais, jam sessions, oficinas de música criativa e atividades voltadas à formação de público e artistas.
A iniciativa também se desenvolveu em territórios marcados pela desigualdade e pela falta de acesso a equipamentos culturais.
A proposta sempre foi aproximar músicos e moradores de favelas, periferias e outros territórios populares, criando espaços para circulação e experimentação musical.
Ao longo dos anos, o festival recebeu nomes importantes da música instrumental brasileira, como Robertinho Silva e Amaro Freitas.
Ambos representam uma geração de artistas negros que construíram trajetórias reconhecidas no Brasil e no exterior a partir da música instrumental e da pesquisa sonora.
A edição de 2026 retoma essa característica ao colocar diferentes gerações e linguagens no mesmo programa.
MUHCAB recebe abertura com música e debate sobre estética negra
A primeira programação acontece em 18 de setembro, no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), na Gamboa.
A tarde começa às 17h com uma discotecagem comentada do LP Mulambo, lançado pelo Mulambo Jazzagrário em 2024.
Nathalia Grilo e Sirlei Rodrigues conduzem a atividade, que propõe uma escuta acompanhada de comentários sobre o trabalho.
Às 18h30, o público participa do encontro “Estética Experimental Negra”, com Romulo Alexis e Lwiza Gannibal, sob mediação de Nath Grilo.
A conversa aborda a relação entre estética negra e experimentalismo.
O debate também parte da ideia do som como instrumento de preservação e transformação da memória. A discussão pretende refletir sobre como a música negra pode escapar de narrativas lineares e criar outras formas de escuta.
O encerramento da noite fica por conta do BailaJazz, às 20h.
Formado por cinco mulheres e criado no Morro da Conceição, no Rio, o grupo reúne jazz, latinidade, axé baiano e ritmos caribenhos.
A formação tem Nayara Daniely no saxofone e flauta, Gláucia Negreiros no piano, Navalha Carréra na guitarra, Georgia Camara na bateria e Ellis Goto no contrabaixo.
A banda trabalha com repertório autoral e tem como uma de suas propostas ampliar a presença feminina na música instrumental carioca.
Praça XV recebe jazz rap, música negra e percussão
No dia 20 de setembro, a programação segue para a Praça XV.
A partir das 16h, Nathalia Grilo e DJ Dossel apresentam um DJ Set em vinil.
Nathalia atua como historiadora, curadora, pesquisadora e artista. Sua seleção percorre diferentes períodos e geografias da música negra, estabelecendo conexões entre culturas da diáspora africana.
DJ Dossel, por sua vez, desenvolve uma pesquisa voltada à música instrumental e ao jazz brasileiro, com atenção aos cruzamentos transatlânticos e às sonoridades afro-americanas.
Às 18h, o palco recebe o Mental Abstrato.
O grupo formado por Omig One, Calmão e Guimas Santos mistura jazz contemporâneo, hip hop e referências da música brasileira.
Criado em 2005, o trio possui quatro discos lançados com exclusividade no Japão e nos Estados Unidos, além de singles publicados por selos europeus.
O Mental Abstrato é considerado um dos grupos pioneiros do jazz rap no Brasil.
Sua trajetória também inclui apresentações ao lado de artistas como Elza Soares, João Donato e Azymuth.
O grupo já recebeu convidados como Claudya, Tássia Reis, Rincon Sapiência, Karol Conká, Di Melo, Xênia França e Izzy Gordon.
Orkestra Popular Barracão encontra Gabi Guedes
O último show do dia acontece às 20h, com a Orkestra Popular Barracão convidando Gabi Guedes.
A Orkestra nasceu no bairro de São Bento, em Duque de Caxias, e desenvolve suas atividades no terreiro de candomblé Ilê Axé Odé Oran Caruanã, liderado pela iyalorixá Mãe Gilda de Odé.
Sua música parte das tradições dos terreiros e atravessa gêneros como jazz, funk, afrobeat, rock e reggae.
A apresentação também contará com a participação do percussionista baiano Gabi Guedes, um dos nomes de destaque da percussão afro-baiana.
Nascido no Alto do Gantois, Guedes cresceu próximo à tradição do terreiro do Gantois e iniciou seus estudos de percussão ainda criança.
Sua carreira internacional começou na década de 1980 e inclui apresentações em diversos países.
O percussionista também trabalhou com nomes importantes do reggae, incluindo Jimmy Cliff, além de integrar projetos ligados à música afro-baiana.
O terceiro e último dia do festival acontece em 26 de setembro, na Sala Cecília Meireles, na Lapa.
A programação começa às 18h com “Ilessi canta Tania Maria”, encontro entre a cantora Ilessi e o pianista Marcelo Galter.
O espetáculo revisita a obra da pianista, cantora e compositora maranhense Tania Maria, conhecida internacionalmente por sua combinação de música brasileira, jazz, improvisação e forte presença rítmica.
A proposta não é apenas reproduzir o repertório da artista.
Ilessi e Marcelo Galter partem de suas próprias trajetórias para reinterpretar as composições e estabelecer um novo diálogo com a obra de Tania Maria.
O espetáculo ainda terá participação do Coro Tchep Tcherep, formado por Deborah Cecília, LuDom e Renata Chiquetto.
A presença do coro amplia a dimensão vocal e rítmica da apresentação.
Festival termina com homenagem a Djalma Corrêa
O encerramento do Mulambo Jazzagrário acontece às 20h30 com “Revisitando Baiafro”, espetáculo dedicado ao legado do percussionista Djalma Corrêa.
Lançado originalmente em 1978, Baiafro ocupa um lugar importante na história da música brasileira e está associado a um movimento artístico que surgiu na Universidade Federal da Bahia.
O trabalho antecipou conceitos que posteriormente seriam relacionados ao chamado afrofuturismo.
A apresentação reunirá Luizinho do Jeje e Rodrigo Maré, além das bailarinas Ana Paula Cruz e Aninha Catão.
O espetáculo também será realizado em memória de Djalma Corrêa, cuja pesquisa sobre sonoridades africanas e afrodiaspóricas marcou sua trajetória.
Corrêa integrou o histórico espetáculo Doces Bárbaros, ao lado de Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Também participou de gravações e projetos de artistas como Tim Maia, Paulo Moura, Walter Smetak, Jards Macalé e Clementina de Jesus.
Sua atuação foi além da performance musical. O percussionista também pesquisou, colecionou e difundiu diferentes tradições sonoras africanas e afro-brasileiras.
A homenagem a Djalma Corrêa estabelece uma relação direta com um dos princípios do Mulambo Jazzagrário: utilizar a música instrumental como espaço de memória, pesquisa e criação.
Essa perspectiva também aparece na própria origem do festival.
A morte precoce de Fernando Grilo interrompeu uma trajetória que já começava a conectar músicos de diferentes territórios. O festival que recebeu seu nome passou a manter essa pesquisa viva por meio de encontros entre artistas.
Ao completar dez anos, o Mulambo Jazzagrário retorna justamente a alguns desses princípios.
A programação reúne artistas ligados à cultura negra, à música instrumental, às periferias e às tradições afro-brasileiras, mas sem limitar o festival a um único gênero musical.
Jazz, hip hop, música de terreiro, ritmos afro-brasileiros, experimentação e canção convivem no programa.
O resultado é uma programação que trata a música instrumental não como um gênero isolado, mas como uma linguagem capaz de atravessar diferentes territórios e experiências.
Programação completa
18 de setembro — MUHCAB
Rua Pedro Ernesto, 80 — Gamboa
17h às 21h
17h — Discotecagem comentada do LP Mulambo
Nathalia Grilo e Sirlei Rodrigues.
18h30 — “Estética Experimental Negra”
Romulo Alexis e Lwiza Gannibal.
Mediação: Nath Grilo.
20h — Show BailaJazz
Nayara Daniely, Gláucia Negreiros, Navalha Carréra, Georgia Camara e Ellis Goto.
20 de setembro — Praça XV de Novembro
A partir das 16h
16h — DJ Set Vinil
Nathalia Grilo e DJ Dossel.
18h — Show Mental Abstrato
Omig One, Calmão e Guimas Santos.
20h — Orkestra Popular Barracão convida Gabi Guedes
26 de setembro — Sala Cecília Meireles
Rua da Lapa, 47 — Lapa
A partir das 18h
18h — “Ilessi canta Tania Maria”
Ilessi e Marcelo Galter, com participação do Coro Tchep Tcherep.
20h30 — “Revisitando Baiafro”
Luizinho do Jeje, Rodrigo Maré, Ana Paula Cruz e Aninha Catão.
Serviço
Festival Instrumental Mulambo Jazzagrário 2026
Quando: 18, 20 e 26 de setembro de 2026
Onde: MUHCAB, Praça XV e Sala Cecília Meireles — Rio de Janeiro
Entrada: gratuita
Realização: Cavalo de Pau
Apoio: Instituto Djalma Corrêa e Iamani Chás
Curadoria: Nathalia Grilo e Roberto Barrucho
Patrocínio: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e Lei do ISS.
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