Dirigido por Bruno Safadi, Antártida apresenta tecnologia de ponta e um elenco mais do que capaz, mas uma narrativa que passa longe de alcançar seu verdadeiro potencial
Se olharmos os principais comentários do trailer oficial de Antártida, disponível na página da Paris Filmes no YouTube, é possível encontrar diversas comparações com O Enigma de Outro Mundo (1982, John Carpenter). E não é difícil entender o motivo. O material de divulgação vende a produção como um thriller misterioso ambientado em um espaço isolado coberto por gelo, no qual um crime transforma todos os presentes em potenciais suspeitos. A premissa é naturalmente interessante. O problema está justamente em como ela é desenvolvida.
Há, inicialmente, muito a ser considerado no aspecto técnico. A chamada “Antártida Carioca” foi inteiramente construída nos estúdios Globo, em uma estrutura de mais de 300 metros quadrados, utilizando painéis de LED e a tecnologia Unreal para gerar cenários em tempo real. O recurso permite trabalhar com iluminação, atmosfera e movimentos de câmera de maneira bastante particular, ao mesmo tempo em que impõe algumas limitações, especialmente em relação à profundidade de campo.
O resultado é uma nevasca praticamente permanente ao redor dos personagens, recurso que deveria ampliar a sensação de isolamento e perigo. Em determinados momentos, funciona. A própria artificialidade do espaço contribui para a sensação de claustrofobia que o filme procura construir. O problema é que a atmosfera acaba sendo mais eficiente do que a narrativa responsável por sustentá-la.

Cena de “Antártida”- Divulgação Paris Filmes
E isso fica ainda mais evidente quando entramos no elenco. Antártida reúne grandes nomes da televisão brasileira, alguns interpretando personagens muito próximos daquilo que já conhecemos deles, outros em registros diferentes. Marina Ruy Barbosa é claramente o grande chamariz da produção, mas sua personagem, Inês, perde força depois de um acontecimento importante ao final do primeiro ato e passa a ser definida quase exclusivamente por aquilo que lhe aconteceu.
Andrea Beltrão, por outro lado, encontra talvez o papel mais interessante do conjunto. Sua personagem funciona como uma espécie de Ripley brasileira, assumindo progressivamente uma posição de proteção diante dos demais e se tornando um dos principais pontos de sustentação do filme. Leandra Leal e Lázaro Ramos permanecem mais próximos de suas zonas de conforto, mas entregam atuações sólidas.
A questão é que Antártida não se resume a esses quatro personagens.
Para construir uma espécie de Among Us cinematográfico, a produção coloca mais de dez pessoas dentro da instalação. São personagens com históricos, personalidades e comportamentos distintos, entre indivíduos violentos e traumatizados e outros mais dóceis e reprimidos. A ideia poderia funcionar muito bem dentro de um suspense de sobrevivência, principalmente porque o isolamento deveria transformar cada personagem em uma peça potencialmente suspeita.
Só que, com pouco mais de uma hora e meia, o filme tenta dar espaço demais a gente de menos. O mistério perde força justamente porque a narrativa precisa interromper constantemente sua própria tensão para desenvolver histórias paralelas, relações pregressas e conflitos que nem sempre encontram espaço suficiente para amadurecer.
É nesse ponto que entra também o tratamento dado ao abuso sexual, um dos temas mais delicados abordados pelo longa.

Lázaro Ramos e Leandra Leal em cena de “Antártida”- Divulgação Paris Filmes
Existem inúmeras maneiras de representar e discutir a violência sexual no audiovisual, dos caminhos mais simbólicos e poéticos aos mais realistas e diretos. Antártida escolhe a segunda opção, mas acaba confundindo contundência com insistência. A produção não parece confiar que a própria situação seja suficiente para comunicar sua gravidade e, por isso, retorna repetidamente ao trauma, reforçando aquilo que o espectador já compreendeu.
A sequência em que os homens observam Inês como uma presa e, principalmente, a própria representação do estupro são exemplos dessa escolha. Não se trata de questionar a importância de mostrar a violência ou suas consequências, mas de discutir a maneira como a câmera decide permanecer sobre determinadas situações. Quando a imagem parece existir mais para provocar choque do que para aprofundar personagem, contexto ou narrativa, o impacto inicial rapidamente se transforma em desconforto sem necessariamente produzir reflexão.
O problema se agrava porque Antártida acaba reduzindo boa parte de seus conflitos a uma oposição bastante simplificada entre homens e mulheres. As personagens femininas são frequentemente colocadas em uma posição de força, enquanto os homens recebem os papéis mais violentos, reprimidos ou moralmente questionáveis. Há uma intenção evidente nessa construção, mas ela acaba sendo tão explicitada que deixa pouco espaço para contradições.
E é justamente aí que Antártida desperdiça algumas de suas melhores possibilidades.
Não basta mostrar como o estupro destrói Inês física e psicologicamente; seria interessante compreender as diferentes formas pelas quais ela reage ao trauma. Não basta estabelecer homens violentos e mulheres que precisam sobreviver a eles; seria mais instigante explorar as ambiguidades existentes naquele ambiente. Não basta apresentar um crime em uma estação isolada; seria necessário permitir que a desconfiança contaminasse verdadeiramente cada relação.
Em vez disso, o filme frequentemente explica aquilo que poderia simplesmente deixar acontecer.
Os próprios diálogos contribuem para essa sensação. Mantendo uma estética de produção televisiva bastante evidente, determinadas conversas assumem um tom próximo ao de uma novela, prolongando conflitos e verbalizando sentimentos e posições que poderiam ser trabalhados pela mise-en-scène. O resultado é um suspense que fala constantemente sobre sua própria tensão, mas raramente consegue fazer com que ela permaneça na tela.
Há sequências que parecem existir menos por necessidade narrativa do que pela oportunidade de demonstrar aquilo que a tecnologia utilizada pela produção consegue fazer. É curioso porque o aparato técnico é justamente um dos elementos mais interessantes de Antártida, mas, quando colocado a serviço de cenas que não acrescentam à história, acaba evidenciando ainda mais a fragilidade do roteiro.
A produção possui os elementos necessários para criar um suspense eficiente: isolamento, nevasca, espaço limitado, um crime, personagens com segredos e uma tecnologia capaz de transformar o ambiente em uma extensão psicológica da narrativa. O problema é que esses elementos raramente trabalham em conjunto.

Mariana Sena, Marina Ruy Barbosa e Leandra Leal em cena de “Antártida”- Divulgação Paris Filmes
O longa parece conter material para uma série inteira comprimido dentro de um filme. Existem histórias pregressas mais interessantes do que algumas daquelas que efetivamente acompanhamos, personagens que poderiam ganhar mais espaço e conflitos que pedem tempo para se desenvolver. Em outro formato, talvez fosse possível explorar melhor essas relações e permitir que parte do contexto permanecesse subentendida.
O mais frustrante é justamente perceber que o filme sabe onde deveria chegar. A fotografia, a tecnologia, o isolamento e a própria premissa apontam para um thriller claustrofóbico e paranoico. Mas, quando a tensão finalmente parece atingir seu auge, Antártida volta a se alongar em tramas paralelas, debates pouco desenvolvidos e situações que nem sempre encontram uma conclusão satisfatória.
No fim, sobra a sensação de uma produção que poderia ter encontrado um interessante equilíbrio entre tecnologia, suspense e comentário social, mas que acaba explicando demais, desenvolvendo de menos e deixando pelo caminho o mistério que deveria ser seu principal motor.
Distribuído pela Paris Filmes, Antártida estreia nos cinemas em 17 de setembro.
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