Dirigido por Tommy Wirkola, Espermagedom pode parecer absurdo à primeira vista, mas, para aqueles dispostos a embarcar na loucura, entrega um entretenimento de primeira
Apesar de possuir um DNA nitidamente brasileiro por conta da dublagem do grupo Porta dos Fundos, Espermagedom é uma animação norueguesa independente que bebe diretamente de produções adultas como Festa da Salsicha (2016 Conrad Vernon e Greg Tiernan). É o tipo de filme que apresenta sua proposta já no título e não parece minimamente interessado em pedir desculpas por ela.
O que inicialmente pode atrair o público é justamente a premissa absurda: espermatozoides antropomorfizados, sexualidade tratada de maneira explícita e um design de personagens propositalmente caricatural. Mas, por trás de toda essa aparência de besteirol, existe uma produção que entende muito bem o que deseja ser. A narrativa é rápida, exagerada e constantemente interessada em encontrar a próxima piada, mas também utiliza esse caos para falar sobre destino, mortalidade, amizade e a necessidade humana de encontrar algum significado para uma existência que, muitas vezes, parece curta demais.
Tommy Wirkola poderia facilmente ter construído um arco sobre a importância de um indivíduo perante milhões. Afinal, a própria natureza da premissa permitiria uma história sobre como uma única pessoa pode fazer a diferença mesmo quando todas as probabilidades estão contra ela. Espermagedom, entretanto, passa longe dessa possibilidade. E talvez seja justamente essa a sua melhor decisão.
A produção prefere abraçar a lógica do caos, da aventura episódica e do humor físico, aproximando-se muito mais de Deu a Louca no Mundo (1963, Stanley Kramer), do que de uma tradicional jornada de herói. No filme de Kramer, personalidades completamente distintas, dos mocinhos aos bandidos, partem em busca de um tesouro, e o que move a narrativa é justamente a colisão entre esses indivíduos.

Cena de “Espermagedom”- Distribuição Clube Filmes
Em Espermagedom, acompanhamos Sêmerson, um jovem espermatozoide que se sente confortável dentro do saco escrotal, mas que, diante do início do chamado “Espermagedom”, precisa embarcar em uma jornada pelo corpo humano ao lado de Semília e de outros espermatozoides em busca de um significado para suas limitadas existências.
É uma estrutura que funciona porque o filme não tenta ser mais inteligente do que precisa. Desconsiderando boa parte das questões biológicas, a produção se beneficia justamente da liberdade que possui para transformar o corpo humano em um gigantesco parque de diversões. Tudo pode acontecer. E quase tudo acontece.
A narrativa se divide entre duas histórias: a dos espermatozoides e a de dois adolescentes prestes a perder a virgindade. Curiosamente, esta segunda trama é o arco mais dramático da produção e também o mais fraco. Enquanto o núcleo dos espermatozoides compreende perfeitamente que o absurdo é sua principal ferramenta, a história dos adolescentes tenta equilibrar humor, sexualidade e amadurecimento de uma maneira que nem sempre encontra o mesmo ritmo.
Nesse sentido, a dublagem brasileira do Porta dos Fundos funciona tanto como uma das maiores forças do filme quanto como uma de suas principais limitações. Fábio Porchat parece estar em casa, provavelmente também beneficiado por sua experiência anterior com dublagem e comédia. Gregório Duvivier e Evelyn Castro, por outro lado, têm mais dificuldade em desaparecer atrás de seus personagens. Em determinados momentos, é menos um adolescente falando e mais Gregório Duvivier ou Evelyn Castro interpretando um adolescente. Para efeito de comparação, quando Mauro Ramos surge dublando uma bactéria comedora de fezes, a diferença no cuidado vocal é gritante: há uma construção de personagem muito mais evidente.

Cena de “Espermagedom”- Distribuição Clube Filmes
E existe ainda uma questão técnica que merece atenção: Espermagedom é, sim, um musical. Nas sequências musicais, porém, os ruídos e efeitos sonoros muitas vezes se sobrepõem às vozes, dificultando a compreensão das canções. O problema parece estar menos na dublagem e mais na própria mixagem de som, que nem sempre consegue criar uma harmonia entre música, diálogos e efeitos. É uma pena, especialmente porque algumas das escolhas musicais são bastante divertidas.
Ainda assim, é importante colocar os créditos onde eles realmente pertencem. Espermagedom nunca pretendeu ser uma animação de acabamento impecável ou uma produção monumental nos moldes da Pixar. Seus cenários são simples, a animação não busca necessariamente impressionar pela complexidade visual e muitas de suas soluções parecem existir apenas para viabilizar a próxima piada. Mas talvez seja justamente aí que esteja parte de seu charme.
Seu humor transita entre Monty Python, Festa da Salsicha e o besteirol mais escatológico, atirando para todos os lados e aceitando que algumas piadas simplesmente não vão funcionar para todo mundo. Mas, quando acerta, acerta em cheio. Durante uma sessão com uma plateia diminuta no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, risadas e aplausos surgiram justamente nos momentos em que a produção abraçava completamente sua própria estupidez. É difícil pedir uma prova maior de que, pelo menos para aquele público, a fórmula funcionou.
O problema aparece quando o filme tenta interromper essa lógica para abraçar o drama. Quando companheiros de Sêmerson se sacrificam, por exemplo, a morte deveria carregar algum peso emocional, mas acaba sendo absorvida pelo próprio tom cômico da produção. A situação é engraçada, mas raramente comovente. A exceção está em Zé do Leite, o espermatozoide “mafioso” que se sacrifica para derrotar Gozama, uma espécie de Homem de Ferro do mal. Ali, a morte funciona melhor porque existe algo que as outras perdas não tiveram: tempo.
Nós conhecemos o carismático e exagerado Zé do Leite. Acompanhamos sua personalidade, sua relação com os demais e, principalmente, sua rivalidade com o gigantesco vilão dublado por Ed Gama. Quando seu sacrifício acontece, existe uma trajetória anterior capaz de dar algum significado à perda. Espermagedom acaba demonstrando, involuntariamente, que uma morte só possui força dramática quando o filme nos dá tempo suficiente para sentir a ausência de quem morreu.

Cena de “Espermagedom”- Distribuição Clube Filmes
É justamente por isso que o desfecho deixa uma sensação agridoce. A jornada começa, os personagens enfrentam desafios, atravessam uma caverna profunda, confrontam o vilão, passam por sacrifícios e chegam a uma conclusão que, em teoria, deveria fechar o arco de Sêmerson. O problema é que a decisão final parece surgir de maneira repentina. O filme constrói uma grande aventura para um personagem que, no fim das contas, permanece relativamente passivo diante dela.
Sêmerson pode passar por toda uma jornada de redenção e ressignificação. Mas é Jean quem efetivamente toma as decisões finais, enquanto o protagonista parece ser somente levado. Existe uma ideia interessante nesse encerramento: a aceitação da inevitabilidade da vida e da morte, mas ela é apresentada com tanta rapidez que quase parece pertencer a outro filme.
E talvez seja aí que esteja a contradição mais curiosa de Espermagedom: ele é muito melhor quando não tenta ser profundo. A produção poderia explorar de maneira mais complexa temas como mortalidade, propósito, identidade e destino? Com certeza. Aborda questões pesadas com uma leveza que, em determinados momentos, diminui seu impacto? Também. Mas eu ri durante o filme inteiro? Sem dúvida nenhuma.
E, no fim, esse é o objetivo.
Existe uma sinceridade curiosa em uma obra que não tenta esconder sua própria vulgaridade. Espermagedom sabe que sua premissa é ridícula, sabe que algumas piadas são absurdas e sabe que sua história dificilmente será lembrada por sua sofisticação narrativa. Ainda assim, existe uma alegria genuína em transformar uma ideia completamente estapafúrdia em uma aventura ágil.
Com ritmo acelerado, boas escolhas musicais, uma dublagem brasileira que potencializa parte de seu humor e uma disposição quase inesgotável para transformar qualquer situação em piada, Espermagedom encontra valor justamente naquilo que poderia ser considerado sua maior fraqueza: o absurdo.
Pode não ser uma animação tecnicamente extraordinária. Pode não desenvolver todos os seus temas com a profundidade que eles mereciam. E certamente não será uma experiência para todos os públicos. Mas existe algo admirável em uma produção que olha para uma ideia tão absurda e decide levá-la até as últimas consequências.
No meio de tantos filmes que parecem preocupados em provar o quanto são importantes, Espermagedom simplesmente quer fazer você rir. E, para uma comédia, isso já é um objetivo bastante digno.
Distribuído pela Clube Filmes, Espermagedom está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 10 de setembro.
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