Dirigido por Hermano Moreira, Hotel Amor estrutura um grande plano-sequência para mostrar o caos que se instaura dentro de um hotel português, mas perde o fogo após algum tempo
A primeira memória que me veio logo no começo de Hotel Amor foi relacionada a The Office (2005, Greg Daniels). Não por conta da estética, afinal, um longo plano-sequência foge de toda a ideia de um mocumentário com depoimentos, mas porque seus personagens são tão únicos e inaptos para suas respectivas profissões, ou absurdamente estúpidos no geral, que acabam sendo os verdadeiros motores da produção e aquilo que nos mantém atentos quando já não aguentamos mais a mesma escolha técnica.
O plano-sequência é tanto uma escolha ousada quanto um tiro no pé. Apesar de ser um “falso plano-sequência”, com cortes que não são necessariamente escondidos do público, como um time lapse que permite o anoitecer em Portugal ou ambientes escuros que obviamente possibilitam transições, a sensação de continuidade permanece durante boa parte da experiência.
Todos os acontecimentos de Hotel Amor ocorrem em um intervalo de pouco menos de 24 horas, e é neste momento caótico de venda do hotel, despedidas de solteira, fãs de futebol, senhoras estrangeiras desaparecidas, faxineiras fofoqueiras, Marcelo Adnet, um chef de cozinha teimoso e tantas outras situações que Catarina, a gerente, começa a descobrir que existe vida além do trabalho.

Cena de “Hotel Amor”- Divulgação Imovision
O que se inicia com o despertar de Catarina, que dorme em sua própria sala, e termina com ela abandonando o hotel de vez ao lembrar que existe mais na vida do que aquelas quatro paredes, é algo que, ao mesmo tempo, parece rápido demais e demora demais para acontecer. Jessica Athayde é um estouro como uma gerente cansada e viciada em trabalho, que se torna o porto seguro de todos, mas não encontra ninguém que seja o seu, até que um antigo amor se hospeda no hotel.
Existem diversos arcos, muitas situações caóticas e uma bola de neve de desastres que encontra poucos momentos de repouso. A paleta amarelada e o plano-sequência “ininterrupto” aumentam ainda mais essa sensação de estagnação, como se nada estivesse realmente acontecendo e, de repente, percebêssemos que tudo já aconteceu.
O humor de situações é eficiente somente até certo ponto, e o verdadeiro charme vem justamente de seus personagens, com destaque para Catarina e Júlia, interpretada por Júlia Palha. Marcelo Adnet, por sua vez, atua essencialmente como ele mesmo e encontra alguns momentos de respiro, mas não o suficiente para trazer o dinamismo que o filme realmente necessita.

Cena de “Hotel Amor”- Divulgação Imovision
Mesmo com orgias, pessoas desaparecidas, fofocas e uma verdadeira escalação de caos, a produção ainda se prende ao básico e aos exageros mundanos, quando poderia abraçar completamente o absurdo em todas as suas camadas.
Para aqueles que já trabalharam em hotéis ou conhecem suas dinâmicas internas, Hotel Amor deve se assemelhar ao que A Noite Americana (1973, François Truffaut) representa para quem trabalha com cinema e arte. Esta não é exatamente a realidade, mas um exagero dela, quase como uma sátira de um meio capitalista e burocrático. O problema é que o filme é morno demais diante das situações que apresenta, o que inevitavelmente provoca certo cansaço na audiência.
Ironicamente, os momentos de calmaria, quando vemos Catarina flertando e realmente desfrutando da vida, apresentam muito mais energia do que a sequência da orgia ou da despedida de solteira com os jogadores de futebol. Essa intimidade funciona justamente como um respiro: uma pausa diante da trilha sonora incessante e dos movimentos de câmera que parecem não nos deixar respirar. Quando a câmera finalmente para de se movimentar e apenas observamos uma mulher em seu momento mais íntimo, encontramos um dos pontos altos do filme.
Ao final, Hotel Amor não é tão meticuloso quanto outras produções que utilizaram um plano-sequência tratado como contínuo, mas apresenta momentos espirituosos que, apesar de caírem na repetição, entregam divertimento e até mesmo uma reflexão sobre o mercado de trabalho. No fim das contas, porém, a produção se concentra no entretenimento e em um caos que nunca encontra o fogo necessário para realmente se soltar.
Distribuído pela Imovision, Hotel Amor chega aos cinemas no dia 24 de setembro.
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