Ao usar este site, você concorda com a Política de Privacidade e termos de uso.
Aceito
Vivente AndanteVivente AndanteVivente Andante
  • Cinema e Streaming
  • Cultura e Arte
  • Literatura e HQs
  • Música
  • Turismo
Font ResizerAa
Vivente AndanteVivente Andante
Font ResizerAa
Buscar
  • Cinema e Streaming
  • Cultura e Arte
  • Literatura e HQs
  • Música
  • Turismo
Anne Hathaway em cena de "Verity"- Divulgação Sony Pictures Br
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Verity’ higieniza Collen Hoover em busca de um grande suspense

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 29 de setembro de 2026
10 Min Leitura
Share
Anne Hathaway em cena de "Verity"- Divulgação Sony Pictures Br
SHARE

Dirigido por Michael Showalter, Verity transforma o suspense de Colleen Hoover em uma comédia involuntária ao higienizar justamente aquilo que tornava o livro tão controverso

Pouco antes do início da cabine de imprensa de Verity, conversava com um colega sobre a equipe responsável pela adaptação: Michael Showalter na direção, Nick Antosca no roteiro e um elenco encabeçado por Dakota Johnson. Depois de assistir ao filme, ficou difícil não pensar que este três nomes da produção explicam perfeitamente tanto suas qualidades quanto seus maiores problemas.

Verity tinha material para ser um thriller provocativo, desconfortável e eroticamente carregado. Em vez disso, entrega uma adaptação tão preocupada em parecer um grande suspense que frequentemente esquece de, de fato, provocar qualquer tensão.

Michael Showalter não é um diretor sem talento, mas sua filmografia ligada à comédia pesa contra ele. Conhecido por trabalhos como Mais um Verão Americano (2001, David Wain), A Ideia de Você (2024) e Oh, Que Divertido! (2025), Showalter parece incapaz de abandonar completamente esse repertório ao entrar no terreno do thriller. O problema não está simplesmente em fazer comédia, mas em permitir que a lógica cômica contamine cenas que deveriam ser conduzidas com seriedade.

Sequências construídas para gerar medo acabam provocando risadas; momentos pensados para serem sensuais parecem artificiais; e jump scares chegam tão fora de hora que, em determinados momentos, parecem paródias involuntárias do próprio gênero.

Anne Hathaway em cena de "Verity"- Divulgação Sony Pictures Br

Anne Hathaway em cena de “Verity”- Divulgação Sony Pictures Br

Em uma das sequências, por exemplo, a produção constrói uma atmosfera de tensão por meio da trilha sonora e da possibilidade de que uma ameaça permaneça escondida. Bastaria trabalhar com o fora de campo, utilizar uma voz e permitir que a imaginação completasse aquilo que a câmera não mostra. Showalter faz justamente o contrário: revela o que deveria permanecer oculto e mata a tensão antes mesmo que ela tenha a oportunidade de nascer. É como se o filme tivesse medo de deixar o espectador com medo.

E essa incapacidade de compreender o próprio suspense se repete constantemente. Verity não sabe criar tensão, não sabe sustentá-la e, pior, parece não perceber quando uma cena deixa de ser perturbadora e passa a ser engraçada. O filme quer que levemos tudo a sério, mas sua direção frequentemente parece estar fazendo exatamente o contrário.

O roteiro de Nick Antosca agrava o problema ao suavizar boa parte dos elementos mais controversos do livro de Colleen Hoover. O erotismo é reduzido, as relações são aceleradas e as ambiguidades são transformadas em explicações. Ao tentar tornar a história mais palatável para o cinema, o roteiro remove justamente aquilo que poderia diferenciá-la de tantos outros thrillers genéricos.

A relação entre Lowen e Jeremy é o exemplo mais evidente. No livro, o envolvimento extraconjugal cresce progressivamente, permitindo que desejo, culpa e desconfiança convivam dentro da protagonista. No filme, tudo acontece com a velocidade de quem está tentando cumprir uma lista de acontecimentos antes dos créditos finais. Lowen praticamente salta da mulher introspectiva e retraída para alguém capaz de ameaçar Verity com um alfinete, sem que a transformação pareça emocionalmente construída.

Isso fica ainda mais evidente na maneira como o roteiro trata o grande mistério da história. O livro funciona justamente porque constrói uma narrativa baseada na dúvida. Verity é uma narradora potencialmente não confiável, mas Lowen também é. O leitor é colocado entre duas perspectivas e obrigado a decidir no que acredita.

Dakota Johnson em cena de "Verity"- Divulgação Sony Pictures Br

Dakota Johnson em cena de “Verity”- Divulgação Sony Pictures Br

O filme, entretanto, parece não confiar no espectador nem por um segundo.

A todo momento, Verity aponta para o próprio mistério, sublinha pistas, reforça informações e praticamente grita: “Não se esqueça do grande twist!”. O que deveria ser uma construção de paranoia se transforma em uma apresentação de PowerPoint sobre o próprio plot twist. E quando o filme finalmente chega à revelação, boa parte do impacto já foi desperdiçada pela necessidade de explicar repetidamente aquilo que deveria permanecer ambíguo.

Curiosamente, os melhores momentos surgem justamente quando Verity abandona essa necessidade de explicar. Os delírios de Lowen, especialmente quando ela lê o manuscrito e passa a enxergar Verity narrando os acontecimentos diretamente para ela, e consequentemente, para nós, são alguns dos poucos momentos em que o filme encontra uma linguagem própria. Ali existe uma tentativa interessante de brincar com percepção, realidade e imaginação.

A sequência onírica na banheira também é um dos raros momentos em que o filme parece compreender o potencial erótico da história. Dakota Johnson se entrega ao desejo da personagem, mas nem mesmo aqui a produção consegue reproduzir a carga de sensualidade existente no livro. E isso é especialmente curioso considerando que Dakota já esteve no centro de uma franquia construída em torno do erotismo, Cinquenta Tons de Cinza (2015, Sam Taylor-Johnson).

Lowen nunca foi uma personagem construída para ser um poço de carisma, mas a interpretação de Johnson a transforma em algo ainda mais difícil de acompanhar: uma protagonista praticamente sem presença. A atriz passa grande parte da produção presa à mesma expressão facial, ao mesmo tom de voz e à mesma energia.

Em determinado momento, Lowen diz: “Esta é minha cara de paisagem”. O problema é que parece ser também a cara de Dakota Johnson para praticamente todas as outras cenas do filme. A plateia riu, e é difícil culpá-la. A frase funciona involuntariamente como uma autocrítica perfeita para a própria atuação.

Ao lado de Anne Hathaway, o contraste se torna ainda mais brutal. Hathaway entende que está em um thriller exagerado e trabalha dentro dessa lógica, entregando uma personagem maior, mais teatral e mais magnética. Johnson, por outro lado, parece estar em outro filme. O resultado é uma protagonista que deveria carregar a ambiguidade da história, mas que frequentemente parece apenas esperar a próxima cena.

Anne Hathaway em cena de "Verity"- Divulgação Sony Pictures Br

Anne Hathaway em cena de “Verity”- Divulgação Sony Pictures Br

E existe uma ironia particularmente cruel nisso: Lowen deveria ser justamente a personagem que nos faz questionar o que estamos vendo. Mas a atuação de Johnson é tão apagada que a dúvida deixa de ser “será que Lowen está dizendo a verdade?” e passa a ser “por que Lowen está reagindo tão pouco a tudo isso?”.

Visualmente, Verity tenta compensar aquilo que falta ao roteiro. A fotografia é competente, o design de produção é expressivo e os cortes secos ajudam a criar uma aparência de thriller contemporâneo. Mas não existe estética capaz de esconder indefinidamente uma narrativa que não sabe o que fazer com seus próprios elementos.

O mais frustrante é que Verity tinha tudo para ser exagerado da maneira certa. O livro já oferece sexo, obsessão, violência, paranoia, manipulação e uma protagonista presa entre duas versões possíveis da realidade. Não era necessário transformar tudo em algo mais comportado. Era necessário abraçar a estranheza.

Ao retirar o erotismo, simplificar as relações, explicar excessivamente o mistério e conduzir o suspense de modo equivocado, Verity acaba destruindo aquilo que poderia torná-lo memorável. O que sobra é um thriller de plástico: bonito na embalagem, barulhento na superfície e surpreendentemente vazio por dentro.

No fim, a sensação é de desperdício. Não apenas porque Verity poderia ser melhor, mas porque ele parece trabalhar ativamente contra aquilo que poderia fazê-lo funcionar. A adaptação não tropeça por falta de material. Tropeça porque escolhe retirar justamente os elementos mais incômodos, controversos e interessantes da história.

E quando finalmente tenta assustar, provocar ou seduzir, muitas vezes consegue apenas fazer rir.

Talvez essa seja a maior ironia de Verity: um filme baseado em um dos livros mais controversos de Colleen Hoover conseguiu realizar a façanha de ser menos perturbador do que a própria comédia involuntária que acontece na sala de cinema.

Distribuído pela Sony Pictures Brasil, Verity chega aos cinemas em 1º de outubro.

Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!

Leia mais

  • Crítica: ‘A Queda 2 – No Limite’ é maior, mais ousado, mas faltando algo importante
  • Crítica: ‘Digger’ transforma o ego de Iñárritu em épico cinematográfico
  • Crítica: ‘Protocolo de Extermínio’ abraça o exagero à moda Grindhouse
Tags:Anne HathawayCinemacríticacrítica VerityDestaque no Viventefilmes Anne Hathawayfilmes da Anne Hathawayonde assistir Anne HathawayVerityVerity Anne HathawayVerity filme
Compartilhe este artigo
Facebook Copie o Link Print
PorAndré Quental Sanchez
Me Siga!
André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

Vem Conhecer o Vivente!

1.7KSeguidoresMe Siga!

Leia Também no Vivente

Trap de Cria
Cinema e StreamingCríticaMúsicaNotícias

Trap de Cria | Documentário mergulha na cena trap carioca e dá voz às comunidades

Mariana dos Santos
3 Min Leitura
Luis Lobianco e Isaac Amendoim em imagem de divulgação de 'Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa'- Foto: Fabio Braga/Pivô Audiovisual, Fernando Fahia
Cinema e StreamingCrítica

Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa: Filme consegue unir diversão e reflexão social; entenda

danielledelaneli
4 Min Leitura
Crítica Bad Boys 4 Até o Fim, pelo jornalista Alvaro Tallarico
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Bad Boys Até o Fim’ tem as melhores cenas de ação da franquia

Alvaro Tallarico
4 Min Leitura
logo
Todos os Direitos Reservados a Vivente Andante.
  • Política de Privacidade
Welcome Back!

Sign in to your account

Username or Email Address
Password

Lost your password?