Dirigido por Na Hong-jin, Hope: O Primeiro Impacto entrega tensão e diversão em escala blockbuster de alto nível
Se existe um cinema capaz de bater de frente com Hollywood em escala, inventividade e domínio técnico, é o sul-coreano. Seja nas séries ou nos grandes dramas de gênero, a indústria do país frequentemente encontra maneiras de transformar premissas aparentemente convencionais em experiências cinematográficas memoráveis.
Hope: O Primeiro Impacto segue exatamente esse caminho ao misturar terror, ficção científica, ação, suspense e comédia em uma produção que, acima de qualquer reflexão mais profunda, quer fazer o espectador se deixar levar pelas emoções. E consegue. Quando percebemos, quase três horas já passaram.
Dividido em três atos bastante demarcados e acompanhado por diferentes núcleos de personagens, o filme concentra sua narrativa principalmente em Ko Bum-seok, delegado de polícia; seu primo Ko Sung-ki, um caçador; e a policial novata Im Sung-ae. Nenhum deles recebe exatamente um grande arco de redenção ou transformação. Na verdade, pouco sabemos sobre suas vidas antes dos acontecimentos retratados. E isso não parece ser um problema para Na Hong-jin: seus personagens existem, sobretudo, para sobreviver à situação absurda em que foram colocados.

Jung Ho-yeon em cena de “Hope: O Primeiro Impacto”- Divulgação Imagem Filmes
Todos vivem em Hope Harbor, uma região praticamente abandonada pelas forças policiais, que estão espalhadas pelo território para combater um gigantesco incêndio. É nesse cenário que a chegada dos alienígenas transforma a pequena comunidade em um verdadeiro campo de batalha. Como dois dos protagonistas são policiais e o terceiro é um caçador, todos possuem familiaridade com armas de fogo, mas é justamente quando esses elementos se encontram com a escala das sequências de ação que Hope: O Primeiro Impacto se torna algo realmente especial.
Existem duas grandes sequências que funcionam como os principais pilares do espetáculo. A primeira acontece na transição do primeiro para o segundo ato; a segunda, já próxima do final, se estende por quase 40 minutos de ação praticamente ininterrupta. E o mais impressionante é que, em nenhum momento, a energia despenca. Na Hong-jin entende perfeitamente como construir uma set piece: cada perseguição, explosão, disparo ou movimento de câmera parece pensado para manter o espectador permanentemente na ponta da cadeira.
A primeira dessas sequências ganha ainda mais força pela introdução de Im Sung-ae, que surge em uma das melhores apresentações de personagem que vi em muito tempo. É uma sequência que não apenas impressiona pela ação, mas também estabelece rapidamente sua personalidade, suas habilidades e algumas das regras que serão importantes para o restante da história.
É justamente nesse aspecto que o diretor demonstra uma segurança impressionante. Na Hong-jin filma as grandes sequências como quem pinta um quadro, valorizando a composição e o espaço antes de simplesmente cortar para o próximo impacto. Há longos planos, movimentos de câmera extremamente calculados, sequências de ação grandiosas filmados em plena luz do dia, e uma profundidade de campo que permite acompanhar o caos sem perder de vista o que acontece ao redor. Explosões, perseguições, tiroteios e criaturas gigantescas são apresentados com uma escala que facilmente rivaliza com produções hollywoodianas muito mais caras.
O curioso é que, no meio de toda essa grandiosidade, existe um problema visual impossível de ignorar: o CGI. Depois de quase uma hora construindo tensão em torno do monstro, mostrando apenas corpos, rastros de destruição e consequências de sua presença, finalmente somos apresentados à criatura. E, inicialmente, ela funciona. Seu design é assustador, estranho e bastante eficiente. O problema começa quando ela se movimenta.

Cena de “Hope: O Primeiro Impacto”- Divulgação Imagem Filmes
Em determinados momentos, o efeito visual parece saído diretamente de um jogo de PlayStation 1. A diferença entre a qualidade da fotografia, das locações e da ação prática e a representação digital do alienígena é tão gritante que o medo inevitavelmente se transforma em riso. E não é um riso discreto: em algumas cenas, a criatura simplesmente se torna ridícula.
Depois de algum tempo, porém, é possível abraçar essa estética como parte da experiência. Os gráficos realmente deixam a desejar, mas o design dos alienígenas é tão interessante, a atmosfera é tão imersiva e o filme é tão consciente de seu próprio absurdo que o problema passa a ocupar um espaço secundário. Mais do que isso: o próprio visual das criaturas acaba contribuindo para uma das maiores forças do longa, sua comédia.
E Hope: O Primeiro Impacto é muito engraçado. Um monólogo inteiro sobre a necessidade de segurar o cocô para não ser descoberto por uma criatura alienígena é apenas a ponta do iceberg de um filme que encontra humor nas situações mais improváveis. O mérito está principalmente no timing: Na Hong-jin sabe exatamente quando aliviar a tensão e quando deixar o absurdo tomar conta da cena.
Se existe um verdadeiro ponto de desgaste, entretanto, ele está no segundo ato. Depois da intensidade da primeira grande sequência, o filme entra em uma enorme barriga narrativa, dedicada à preparação para o que virá depois. Em teoria, é uma pausa necessária. Toda montanha-russa precisa desacelerar antes de ganhar velocidade novamente, e Hope: O Primeiro Impacto faz isso com competência. O problema é que essa desaceleração se prolonga mais do que deveria.
Entre diálogos, explicações e longos momentos de preparação, a produção começa a assumir uma estrutura muito próxima de uma cutscene de videogame. O problema não está exatamente na quantidade de informações, mas na dificuldade de manter o mesmo nível de envolvimento quando o espectador acabou de experimentar uma sequência de ação tão monumental. Quando a adrenalina é tão alta, qualquer parada parece maior do que realmente é.

Cena de “Hope: O Primeiro Impacto”- Divulgação Imagem Filmes
Ainda assim, quando o filme decide voltar à ação, não decepciona. E isso é talvez o aspecto mais importante de Hope: O Primeiro Impacto: ele entende perfeitamente qual é sua proposta e não tenta ser outra coisa.
Enquanto muitos blockbusters contemporâneos parecem obrigados a inserir simbolismos, mensagens sociais, dramas familiares e grandes discursos entre uma sequência de ação e outra, Na Hong-jin abraça o prazer do espetáculo. Existe aqui um espírito de cinema de ação dos anos 1980, especialmente de O Predador (1987, John McTiernan), misturado ao gigantismo visual de Transformers (2007, Michael Bay), e a uma disposição quase infantil de transformar cada novo cenário em uma oportunidade para aumentar a escala do caos.
Até os cavalos recebem um tratamento que raramente vemos atualmente: são filmados como verdadeiras armas de guerra. E essa escolha resume bem o espírito de Hope: O Primeiro Impacto. Tudo pode ser transformado em espetáculo. Tudo pode ser utilizado para aumentar a sensação de velocidade, perigo e grandiosidade.
O curioso é que Hope: O Primeiro Impacto também não entrega exatamente uma catarse final. Depois de acompanhar quase três horas de perseguições, criaturas, tiroteios e explosões, o filme simplesmente termina. É como chegar ao final de um videogame sem necessariamente ter concluído a fase: existe uma sensação de interrupção, de que ainda deveria haver algo além daquela última imagem.
Isso é, ao mesmo tempo, uma perda e uma espécie de alívio. Porque, depois de uma jornada construída quase inteiramente em torno do espetáculo, talvez a ausência de uma grande conclusão seja justamente a maneira mais coerente de encerrá-la. Hope: O Primeiro Impacto não quer necessariamente deixar uma mensagem; quer deixar uma sensação. E, nesse aspecto, entrega exatamente aquilo que promete: uma montanha-russa cinematográfica grandiosa, exagerada, violenta, engraçada e, acima de tudo, divertida.
Distribuído pela Imagem Filmes e pela MUBI, Hope: O Primeiro Impacto terá sessões no Festival do Rio e chega aos cinemas brasileiros em 8 de outubro.
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