Abraçando a reta final da temporada, o nono episódio de Ted Lasso entrega uma morte inesperada e chocante, ao mesmo tempo em que reafirma a dinâmica em campo e seus personagens como o verdadeiro coração da série
Apesar de Anthony Head, intérprete de Rupert, ter falecido em junho deste ano, a quarta temporada de Ted Lasso espera até o nono episódio para prestar uma verdadeira homenagem ao ator. E isso acontece por dois motivos principais: primeiro, porque finalmente descobrimos quem está por trás da compra das ações do Richmond; depois, porque a série se despede de uma personagem mais do que especial para seus fãs.
Existe um senso de camaradagem muito forte neste episódio. Keeley e Rebecca, Beard e Boots, Alice e Shannon, Niamh e Siobhan, entre tantos outros. São pequenas sequências, gestos aparentemente simples e movimentos quase imperceptíveis que, pouco a pouco, provocam ondas capazes de atravessar todo o episódio. Ao mesmo tempo, a trama finalmente apresenta sua verdadeira antagonista, enquanto Rupert consegue, enfim, descansar.
Zelda Southport ser a grande nêmesis de Rebecca é um twist inesperado, mas que, olhando em retrospecto, estava praticamente diante dos nossos olhos. A insistência da empreendedora em participar das decisões do time, o pouco que sabemos sobre sua vida privada e até mesmo o comportamento completamente desequilibrado em determinados momentos já apontavam para algo maior. Ainda assim, quando a revelação acontece, ela é construída de maneira tão abrupta que minha primeira reação foi voltar a cena para confirmar se era realmente aquilo que eu tinha entendido.

Jason Sudeikis em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
O melhor núcleo do episódio, sem dúvida, está na relação entre Roy e Keeley. Finalmente avançando no relacionamento dos dois, a sequência em que Roy narra para ela praticamente todo o jogo enquanto utiliza utensílios de beleza e maquiagem é um daqueles momentos que resumem a essência de Ted Lasso: intimidade, humor e afeto coexistindo naturalmente. E o fato de não ouvirmos a revelação de que Keeley está grávida, recebendo apenas a calorosa resposta de Kent, torna a cena ainda mais potente justamente por aquilo que a série escolhe não mostrar.
Repito algo que já discuti em críticas anteriores: o grande trunfo de Ted Lasso continua sendo seus personagens. Keeley perguntando à Siri se será uma boa mãe, enquanto a máquina responde com mais humanidade do que muitas pessoas por aí, é apenas um dos pequenos momentos espalhados ao longo da temporada. Mas é justamente por termos construído uma relação tão próxima com essas pessoas que, quando a série decide tirar uma delas de nós, o impacto é tão grande.
Até agora, a única morte realmente significativa que havíamos acompanhado em Ted Lasso era a do pai de Rebecca. Apesar de a sequência do funeral ser emocionante, nunca chegamos a conhecê-lo de fato. Agora, a coragem de matar Mae, uma das personagens mais instigantes e queridas da série, muda completamente o peso da despedida.
Presente desde o primeiro episódio e sempre uma defensora de Ted, mesmo quando tudo parecia estar contra ele, Mae se tornou uma figura fundamental naquele universo. Por isso, a decisão de encerrar o episódio sem sequer uma música durante os créditos, deixando apenas um silêncio sepulcral, transforma a morte em algo ainda mais doloroso.
Usar a morte de uma das personagens mais queridas da série para homenagear o falecimento precoce do intérprete de um de seus maiores antagonistas é uma escolha curiosa, mas extremamente potente. Não existe uma tentativa de transformar a despedida em um grande espetáculo. Pelo contrário: Ted Lasso entende que o impacto está justamente na ausência. Ao final, ficamos sem palavras.

Abbie Hern e Tanya Reynolds em “Ted Lasso”, já disponível no Apple TV.
E talvez seja justamente essa quebra que faça o episódio funcionar tão bem. Afinal, ele é majoritariamente para cima: Boots ganha humildade e abraça as luvas; Gemma consegue marcar o gol mesmo enfrentando seu problema no joelho; e a decadência de Beard se transforma em uma subtrama à parte que espero que encontre uma resolução no episódio final. Enquanto isso, Ted continua sendo jogado para escanteio diante de um leque enorme de possibilidades narrativas.
Mas é no encerramento que o episódio encontra sua verdadeira força. A união de Oh Love com a celebração do time, enquanto Rebecca atravessa um corredor da morte, séria, tentando conter aquilo que sente, até finalmente ir chamar Ted, produz uma das sequências mais potentes construídas pela série até aqui. É uma celebração que, pouco a pouco, se transforma em luto.
Para realmente abraçar uma possível vitória final, era necessário começar o último episódio na fossa. E não consigo imaginar maneira mais apropriada de iniciar o capítulo derradeiro desta inusitada temporada do que encarando as consequências de uma morte tão devastadora, e principalmente, observando como cada um desses personagens terá de lidar com a ausência de uma figura tão materna e carinhosa quanto Mae.
Disponível na Apple TV+, a quarta temporada de Ted Lasso conta com nove episódios lançados, e o episódio final será disponibilizado em 7 de outubro de 2026.
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