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Maria de Medeiros em cena de "Silvestre"- Divulgação Mostra SP
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Silvestre’ é subversão em sua mais pura forma de arte

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de outubro de 2026
7 Min Leitura
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Maria de Medeiros em cena de "Silvestre"- Divulgação Mostra SP
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Dirigido por João César Monteiro, Silvestre utiliza o imaginário medieval para revisitar narrativas fundamentais da tradição portuguesa e refletir sobre o papel da mulher em uma sociedade patriarcal

Grande parte do nosso imaginário coletivo sobre lendas e mitos medievais nasce da tradição oral dos trovadores. Não à toa, diferentes histórias acabam compartilhando símbolos, arquétipos e estruturas narrativas semelhantes, como acontece com “A Mão do Finado” e “Barba Azul”. Quando transmitidas oralmente de geração em geração, essas histórias inevitavelmente sofrem alterações, mas preservam temas recorrentes, entre eles, a força, a determinação e a resistência de suas personagens femininas.

Silvestre adapta principalmente duas narrativas tradicionais portuguesas: o romance “A Donzela que Vai à Guerra” e a novela oral “A Mão do Finado”. Em sua estreia no cinema, Maria de Medeiros interpreta Silvia, uma jovem inocente que após cometer um crime e decepar a mão de um forasteiro, mergulha em uma espiral de acontecimentos capaz de transformar não apenas sua própria vida, mas também a de sua irmã, Suzana.

Esteticamente, a produção portuguesa é um verdadeiro espetáculo. Com quase duas horas de duração, Silvestre assume um ritmo deliberadamente lento, construído a partir de planos longos nos quais os atores repetem gestos, ciclos e diálogos que parecem pertencer a outro tempo. Essa artificialidade não é um defeito, mas parte essencial da proposta: a linguagem do filme se aproxima muito mais da literatura oral e do teatro do que do cinema clássico, enquanto o cuidado cenográfico transforma cada enquadramento em uma composição cuidadosamente elaborada.

Maria de Medeiros em cena de "Silvestre"- Divulgação Mostra SP

Maria de Medeiros em cena de “Silvestre”- Divulgação Mostra SP

O real divide espaço com o artificial de maneira constante. Os cenários pintados, os objetos de cena e a própria construção visual reforçam a sensação de estarmos diante de uma história que existe dentro de seu próprio universo fantástico. Isso fica evidente na sequência em que o cavaleiro mata o dragão, seguida por um longo momento de contemplação quase imóvel. Não há preocupação em conferir realismo à situação; Monteiro prefere nos lembrar de que estamos diante de uma fábula, de um mundo regido por suas próprias regras.

Dentro desse universo, Silvia começa como uma filha inocente e jovial e, aos poucos, descobre uma inteligência, uma esperteza e uma capacidade de sobrevivência que a transformam profundamente. Sua trajetória chega a adquirir contornos de uma Joana d’Arc, aqui chamada de Silvestre, enquanto a personagem abandona progressivamente a passividade que lhe é imposta.

A todo momento, Silvestre evoca fragmentos de histórias clássicas. Há ecos de Mulan, das avelãs presentes em versões tradicionais de Cinderela, do conto de Barba Azul e de inúmeros outros símbolos associados aos contos de fadas. Até mesmo o recorrente número três aparece como elemento estrutural, como nas três interações entre Silvia, Suzana e o forasteiro, conduzindo a narrativa em direção ao inevitável desfecho.

Maria de Medeiros em cena de "Silvestre"- Divulgação Mostra SP

Maria de Medeiros em cena de “Silvestre”- Divulgação Mostra SP

O mais interessante, porém, está justamente na maneira como João César Monteiro subverte os contos de fadas tradicionais. O diretor constrói uma estética artificial, quase infantil, para revelar uma realidade patriarcal muito mais cruel e atual do que gostaríamos de admitir. Silvia e Suzana são, frequentemente, as personagens mais inteligentes daquele universo, mas suas vozes são constantemente silenciadas pelas estruturas de poder que as cercam, e quando não, elas contam diretamente para o público os acontecimentos mais odiosos. E, ao contrário do conto de fadas tradicional, não há espaço para um verdadeiro final feliz.

Quando Suzana relata que o forasteiro foi devorado pelos porcos até restarem apenas os ossos, enquanto Silvia se transforma em uma com as estrelas, o filme se aproxima muito mais das versões sombrias e violentas das narrativas populares antigas do que das adaptações suavizadas destinadas às crianças. Monteiro não romantiza essas histórias: ele recupera justamente aquilo que havia de estranho, cruel e perturbador nelas.

O detalhismo é constante, mas o ritmo pode ser um desafio. Os planos são longos, a trilha sonora possui enorme importância e Maria de Medeiros constrói uma protagonista que faz muito mais do que diz. Essa cadência quase sisífica pode levar o espectador à exaustão, mesmo quando cada sequência parece uma obra de arte isolada, ou uma referência pictórica, como uma linda evocação de O Balanço (1766, Jean-Honoré Fragonard). É um cinema artificial em sua forma, mas profundamente vivo em seus significados.

Maria de Medeiros em cena de "Silvestre"- Divulgação Mostra SP

Maria de Medeiros em cena de “Silvestre”- Divulgação Mostra SP

Silvestre funciona melhor como uma sucessão episódica de acontecimentos que investigam o pensamento medieval, os mecanismos das narrativas tradicionais e o lugar destinado à mulher dentro desse universo do que como uma narrativa clássica de começo, meio e fim. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior força. O filme é um espetáculo que aproxima teatro e cinema de maneira singular, construindo uma experiência lenta, contemplativa e, ainda assim, capaz de manter o olhar preso à tela, muito graças à presença magnética de Maria de Medeiros.

Ao final, como obra de cinema de arte e investigação sobre as narrativas tradicionais que ajudaram a moldar nosso imaginário e continuam inspirando produções audiovisuais até hoje, Silvestre é mais do que um bom filme. É uma espécie de documento histórico sobre a maneira como contamos histórias, sobre aquilo que escolhemos preservar e, principalmente, sobre aquilo que tentamos esquecer.

Participando da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Silvestre terá sessões especiais durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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