Encerrando a quarta temporada e abrindo possibilidades para um futuro promissor, Ted Lasso amarra suas pontas e entrega mais do que o esperado após tantos altos e baixos
A experiência de analisar individualmente cada episódio da quarta temporada de Ted Lasso foi tão interessante quanto desafiadora. Afinal, em diversos momentos, tive dificuldade para ir além de uma análise contextual e refletir mais profundamente sobre as situações apresentadas, limitando-me a destacar momentos que realmente me emocionaram ou incomodaram. Ainda assim, algumas percepções permaneceram constantes ao longo da temporada: a preparação incessante das peças para um desfecho, os arcos narrativos que beiram o clichê e os personagens principais frequentemente deixados em segundo plano.
No décimo episódio, acredito que todos os personagens se encontram em uma posição melhor do que aquela em que estavam ao final da terceira temporada. Isso merece ser valorizado, especialmente diante da intenção de expandir ainda mais esse universo. O aspecto mais gratificante do encerramento é finalmente ver as peças se encaixando e os conflitos encontrando seus desfechos. Entretanto, é impossível dissociar esse capítulo dos acontecimentos que encerraram o episódio anterior, particularmente a morte de Mae.
A sequência do velório não é necessariamente pesada; pelo contrário, funciona como um alívio e uma verdadeira homenagem a Anthony Head. Seja pela música cantada por Niamh e Siobhan, pela questão do copo de Guinness ou pela relação dos atendentes com suas respectivas mães, a cena encontra beleza nos pequenos gestos e nas conexões humanas.

Jeremy Swift e Hannah Waddingham em cena de “Ted Lasso,” já disponível na Apple TV.
O momento realmente ganha um peso emocional diferente quando Henry pergunta a Ted sobre a morte de seu avô, um acontecimento mencionado desde a segunda temporada, mas que o jovem ainda desconhecia. É uma conclusão emocionalmente gratificante, que reforça a importância da honestidade e da proximidade entre pai e filho.
Zelda Southport atinge o ápice do exagero neste episódio. Algo que tanto me incomodou ao longo da temporada, desta vez, acabou despertando uma reação diferente: simplesmente abracei o absurdo de ver Tracey Ullman sentada em uma cadeira, imitando um escorpião de maneira extravagante.
A temporada precisava de uma antagonista, mas o exagero da personagem frequentemente a aproxima do ridículo, comprometendo a construção de uma ameaça convincente. Em contrapartida, Rebecca finalmente retoma a postura de boss lady que esteve tão ausente ao longo dos episódios. O resgate do vídeo apresentado no quinto capítulo é especialmente gratificante, pois concretiza uma promessa narrativa que parecia ter ficado esquecida. Além disso, Rebecca perdoar Zelda da mesma maneira que Ted a perdoou no início da série estabelece um paralelo interessante com a trajetória da personagem e reforça um dos princípios fundamentais da produção: a possibilidade de mudança.
Existem inúmeras possibilidades para o futuro da série. No entanto, dentro da estética de reboot adotada nesta temporada, com mudanças de ritmo, linguagem e até mesmo de personalidade em figuras que aprendemos a amar ao longo de três temporadas, Beard é um exemplo evidente, Ted Lasso ainda preserva aquilo que a tornou tão especial: o conforto e o otimismo quase utópico diante de uma realidade repleta de contradições. Mesmo com os tropeços dessa nova fase, a série mantém sua capacidade de oferecer uma perspectiva acolhedora sobre as relações humanas, sem abandonar completamente os conflitos que as tornam interessantes.

Brendan Hunt em cena de “Ted Lasso,” já disponível na Apple TV.
Talvez a maior deficiência da temporada tenha sido justamente a ausência de sequências dedicadas ao futebol em si. Quando o time masculino aparece brevemente, mesmo sem que seus integrantes precisem dizer uma única palavra, fica evidente o carinho que o público desenvolveu por aqueles personagens. Esse mesmo vínculo ainda não foi estabelecido com a equipe feminina, da qual muitos espectadores provavelmente se lembram apenas de Gemma, Shannon e as gêmeas.
Nesse aspecto, a temporada falha em sua tentativa de transferir o protagonismo para um novo grupo. Afinal, se os personagens são o coração da equipe, deixar as complexidades do jogo em segundo plano para privilegiar os bastidores significa abrir mão de uma parcela considerável da diversão e do charme da série. Não basta mudar o foco: é preciso construir novas relações capazes de despertar o mesmo envolvimento emocional.
A ressignificação de Believe ganha ainda mais força com o desfecho, especialmente quando descobrimos que era Alice quem abaixava a placa de Ted. A revelação transforma um gesto recorrente em algo muito maior, conectando o legado do treinador ao futuro da equipe. Também é gratificante ver a treinadora finalmente assumir a posição que tanto desejava, com o público torcendo por sua conquista.
A postura de antagonista que parecia definir a personagem ficou para trás logo no início da temporada, dando espaço a uma trajetória mais interessante. Além disso, considerando a necessidade de Ted estar mais presente na vida de Henry, Alice assumir oficialmente o comando técnico representa uma solução natural e coerente para os caminhos que a narrativa pretende seguir.

Juno Temple em cena de “Ted Lasso,” já disponível na Apple TV.
Outra crítica recorrente que fiz ao longo da temporada diz respeito à relação entre Roy e Keeley, que parecia estagnada e incapaz de avançar para além dos conflitos já conhecidos. Felizmente, o episódio finalmente oferece sinais concretos de evolução, colocando o casal em uma posição muito mais promissora do que aquela em que terminou a terceira temporada, quando praticamente nada indicava a possibilidade de um futuro feliz para os dois.
Somada à conversa entre Roy e Rebecca, essa resolução contribui para alguns dos momentos mais satisfatórios do encerramento. Há espaço, ainda, para o rápido retorno de Nate, cuja participação funciona como um agrado aos espectadores. Embora esses acertos não sejam suficientes para apagar as inconsistências da temporada como um todo, ajudam a construir um desfecho mais coeso e satisfatório do que eu esperava.
A quarta temporada de Ted Lasso encerra sua trajetória deixando pontas amarradas, personagens em posições mais promissoras e possibilidades para o futuro. Entre escolhas questionáveis, relações que demoraram a evoluir e uma ausência sentida do futebol, a série ainda encontra forças para reafirmar seu otimismo e sua capacidade de emocionar.
Mais do que solucionar conflitos, o final recupera parte da essência que fez de Ted Lasso uma obra tão querida e demonstra que, mesmo após tantos altos e baixos, ainda há motivos para acreditar no que vem pela frente.
Disponível na Apple TV+, todos os episódios da quarta temporada de Ted Lasso já estão disponíveis na plataforma.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



