Dirigido por Kitao Sakurai, Street Fighter apresenta potencial e uma estética grandiosa. No entanto….
Em certos aspectos, Street Fighter me lembra mais a estrutura de Super Mario Bros. O Filme (2023, Aaron Horvath e Michael Jelenic), do que dos filmes recentes da franquia Mortal Kombat. A animação da Illumination pegou uma propriedade intelectual consagrada e construiu uma produção narrativamente fraca, mas repleta de estímulos visuais. Já Mortal Kombat II (2026, Simon McQuoid), soube aproveitar melhor o material de origem para construir algo marcante, com traços de profundidade dramática e uma jornada do herói mais bem delineada.
Desde o primeiro trailer, fica evidente que Street Fighter aposta nos excessos. Os figurinos bregas, inseridos em um elenco cuidadosamente escolhido, e o uso de What’s Up?, do 4 Non Blondes, como trilha sonora ajudam a transportar o público para os anos 1990 e abraçar a cafonice que já era esperada. Existe um arco dramático? Claro. Bison matou o pai de Chun-Li, Ryu está sendo tentado pelo lado sombrio, e Ken precisa urgentemente encontrar seu lugar no mundo para, enfim, alcançar a paz. Todos esses conflitos são explorados, mas nenhum deles atinge seu verdadeiro potencial.

Mel Jarnson em cena de “Street Fighter”- Divulgação Paramount
Com um número excessivo de personagens, algo que Simon McQuoid soube administrar melhor por meio das semelhanças heróicas entre Kitana e Johnny Cage, Street Fighter se transforma em uma verdadeira chuva de estímulos. A trilha sonora carregada parece uma playlist dos anos 1990 reproduzida no modo aleatório, enquanto a direção de fotografia abraça o neon sem qualquer receio de fazer as cores saltarem aos olhos. A câmera lenta, por sua vez, é utilizada para intensificar os golpes de maior impacto. O resultado é um espetáculo visual vibrante, mas dramaticamente vazio.
A produção se mostra tão dispersa que alguns personagens simplesmente desaparecem ao longo da narrativa, como Zangief, enquanto confrontos promissores, como Guile contra Vega, são apenas mencionados. Também falta uma sequência de ação verdadeiramente memorável, como as que marcaram o filme de McQuoid. É uma pena, pois a produção apresenta mais de dez grandes lutas, incluindo Ryu contra Ken e Chun-Li contra Bison. Há material de sobra para construir momentos empolgantes, mas a quantidade de confrontos não se traduz em cenas capazes de permanecer na memória do espectador.
O maior trunfo de Street Fighter é seu elenco, escolhido a dedo, com destaque para Cody Rhodes como Guile e Callina Liang como Chun-Li. Até mesmo David Dastmalchian escapa da inevitável comparação com o saudoso Raúl Juliá, ao construir um Bison muito mais caricato, enquanto um leque de mais de 10 outros personagens auxiliam na construção deste exagerado universo.
E essa é uma das chaves para compreender por que a produção tropeça em suas próprias escolhas: tudo é exagerado demais, a ponto de o impacto de cada elemento se diluir. Quando tudo tenta chamar a atenção ao mesmo tempo, nada consegue se destacar de verdade.
As sequências animadas em 2D estão entre os momentos mais interessantes do longa, um verdadeiro deleite visual. Entretanto, quando a narrativa retorna ao universo de cores vibrantes, personagens bizarros e exageros constantes, a experiência perde parte de seu encanto. Embora apresente mais de dez sequências de luta e reúna dois personagens capazes de lançar um hadouken, o filme se arrasta em passagens pouco inspiradas e conduz a trama a uma conclusão que parece servir mais à preparação de uma continuação do que ao encerramento da história proposta, deixando o espectador com a sensação de ter assistido a uma longa preparação para um filme que ainda não existe.
O filme, de fato, apresenta ideias bastante interessantes. Ryu luta contra seu lado sombrio, enquanto Ken, com sua personalidade mais solar, se torna o principal apoio do amigo. Existe uma dinâmica promissora nessa relação, mas o ambiente artificial em que ela se desenvolve impede que o arco dramático ganhe força. O mesmo problema aparece nas piadas inseridas durante os momentos mais sérios: em vez de complementar a narrativa, elas frequentemente interrompem qualquer possibilidade de envolvimento emocional.
O excesso de piadas de teor homossexual não chega a incomodar tanto quanto uma piada metalinguística sobre amizades masculinas nas quais os amigos cantam uns para os outros. O problema não está necessariamente no humor, mas na dificuldade de Street Fighter em definir o próprio tom. O filme pretende ser uma paródia metalinguística do universo hipermasculino das lutas e da masculinidade tóxica que o próprio jogo, em alguma medida, ajudou a alimentar? Ou deseja levar a sério uma história de camaradagem entre Ken e Ryu, cuja relação atravessa toda a narrativa?

Callina Liang em cena de “Street Fighter”- Divulgação Paramount
As duas propostas poderiam coexistir, mas a produção não encontra o equilíbrio necessário para desenvolvê-las. No fim, o que deveria ser uma relação com potencial dramático acaba reduzido à gritaria.
E, ao final, Street Fighter é exatamente isso: gritaria. A montagem truncada, marcada por cortes secos que atordoam o espectador e prejudicam a continuidade das cenas, dá a impressão de que importantes passagens de contextualização foram deixadas de fora. Não é possível afirmar se elas tornariam o filme melhor, mas a versão apresentada nas telas parece mais interessada em preparar uma sequência do que em entregar uma obra capaz de aproveitar todo o seu potencial.
Há uma identidade visual marcante, um elenco promissor e ideias que poderiam sustentar uma narrativa envolvente. O problema é que o filme não sabe o que quer ser, e por consequência, acaba soterrado pelos próprios excessos.
Distribuído pela Paramount Pictures, Street Fighter estreia nos cinemas brasileiros em 15 de outubro de 2026.
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