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Daisy Edgar-Jones e George MacKay em cena de "Razão e Sensibilidade"- Divulgação Universal Pictures
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Razão e Sensibilidade’ reinventa o clássico de Jane Austen

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 28 de outubro de 2026
8 Min Leitura
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Daisy Edgar-Jones e George MacKay em cena de "Razão e Sensibilidade"- Divulgação Universal Pictures
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Dirigido por Georgia Oakley, Razão e Sensibilidade é um espetáculo visual e melodramático que Jane Austen teria orgulho de assistir

Publicado originalmente em 1811, Razão e Sensibilidade foi o primeiro romance de Jane Austen e estabeleceu algumas das bases literárias que consagrariam a autora. Possivelmente inspirado, ao menos em parte, na relação com sua própria irmã, Cassandra, o livro acompanha os amores e as desventuras das irmãs Elinor e Marianne Dashwood: enquanto a primeira representa a razão e o bom senso, a segunda se entrega às emoções com intensidade. Mais do que um conflito entre personalidades distintas, a história investiga as contradições de uma sociedade que impõe regras rígidas ao comportamento feminino, sobretudo quando o assunto é o amor.

Publicado em um período marcado pelo Romantismo, o romance estabelece um diálogo entre a valorização das emoções e a necessidade de agir com prudência, sem reduzir essa oposição a uma escolha simples entre razão e sentimento. Sua permanência no imaginário popular ajuda a explicar por que a obra continua recebendo novas adaptações. Desta vez, Georgia Oakley oferece uma interpretação que privilegia o naturalismo e a contemplação, transformando a paisagem em parte fundamental da experiência narrativa.

Com amplos planos abertos, animais em cena, luz natural e movimentos de câmera expressivos, a diretora insere as personagens em um cenário bucólico que reforça tanto a beleza quanto a melancolia de suas experiências. Em comparação com a adaptação de Ang Lee, lançada em 1995, esta versão aposta em um melodrama mais contido visualmente, embora não menos intenso em seus sentimentos.

Esme Creed-Miles em cena de "Razão e Sensibilidade"- Divulgação Universal Pictures

Esme Creed-Miles em cena de “Razão e Sensibilidade”- Divulgação Universal Pictures

A sequência da queda de Marianne ilustra bem essa diferença: enquanto Lee transforma o acidente em um acontecimento romântico sob uma chuva torrencial, Oakley opta pela praia e por uma abordagem mais contemplativa, na qual a natureza não funciona apenas como pano de fundo, mas como extensão do estado emocional da personagem.

A atmosfera de conto de fadas e o romantismo mais exuberante de Lee dão lugar, portanto, a uma melancolia naturalista que aproxima a produção da estética de Emily (2022, Frances O’Connor). Essa afinidade aparece na composição dos cenários, no trabalho de câmera, na condução das atuações e até na trilha sonora. Em vez de recorrer a grandes gestos para comunicar os sentimentos das personagens, Oakley encontra força nos detalhes, nos silêncios e nas sutilezas que revelam aquilo que elas nem sempre conseguem expressar verbalmente.

Nesse sentido, pequenos gestos adquirem grande importância, seja na maneira como as irmãs prendem os cabelos, seja nos olhares trocados com seus respectivos interesses amorosos. Daisy Edgar-Jones e, principalmente, Esmé Creed-Miles sustentam essa proposta com atuações que valorizam as nuances emocionais de Elinor e Marianne.

O mesmo, porém, não pode ser dito do núcleo masculino. George MacKay, Edward Ferrars, Frank Dillane, John Willoughby, e Herbert Nordrum, Coronel Brandon, não recebem o mesmo espaço para desenvolver seus personagens, que acabam parecendo menos carismáticos e complexos do que as interpretações de Hugh Grant e Alan Rickman na versão de 1995. A limitação não está necessariamente na competência dos atores, mas na maneira como a adaptação distribui a atenção dramática.

Daisy Edgar-Jones e George MacKay em cena de "Razão e Sensibilidade"- Divulgação Universal Pictures

Daisy Edgar-Jones e George MacKay em cena de “Razão e Sensibilidade”- Divulgação Universal Pictures

Mesmo sem ter familiaridade prévia com o romance de Razão e Sensibilidade, é possível perceber que a produção de Oakley parece buscar uma relação mais próxima com o material literário, enquanto a versão de Lee investe mais abertamente no romantismo e no encantamento. Essa diferença, contudo, não precisa ser entendida como uma disputa entre uma adaptação superior e outra inferior. Ambas encontram caminhos próprios para interpretar Austen: uma privilegia a contenção, a observação e o naturalismo; a outra se apoia no humor, na exuberância romântica e na força de seu elenco.

Ao longo de quase duas horas, Razão e Sensibilidade articula drama, romance, humor e uma melancolia de contornos quase novelescos. Os sentimentos são apresentados em toda a sua intensidade: acompanhamos a dor de Elinor, que precisa esconder o próprio sofrimento, enquanto Marianne enfrenta as consequências de se entregar completamente às emoções.

A produção não tem receio de abraçar o melodrama, por vezes de maneira bastante explícita, mas essa característica não chega a comprometer a experiência. Pelo contrário, o espectador acaba entrando no jogo emocional da narrativa, consciente de que, mesmo diante de tantos desencontros, existe a promessa de uma resolução.

Daisy Edgar-Jones em cena de "Razão e Sensibilidade"- Divulgação Universal Pictures

Daisy Edgar-Jones em cena de “Razão e Sensibilidade”- Divulgação Universal Pictures

Menos engraçada do que a adaptação de 1995, Razão e Sensibilidade mantém a composição visual como um de seus principais pilares. Ainda assim, talvez lhe falte um pouco mais de sensibilidade na maneira como articula a beleza dos enquadramentos com as emoções que pretende transmitir. Os planos em tons de bege são belos e contemplativos, mas nem sempre alcançam a mesma força dramática da história que procuram emoldurar. Em determinados momentos, a preocupação estética parece se sobrepor à espontaneidade dos sentimentos, como se a imagem precisasse ser tão calculada quanto as decisões de Elinor.

Ainda assim, Razão e Sensibilidade encontra sua força justamente na observação das contradições humanas. Um olhar ou uma mudança quase imperceptível na expressão pode revelar tanto quanto um grito ou o mais profundo dos silêncios, e dentro do cenário realista de Oakley, cada sequência é orquestrada para que não ocorra um sentimento gigante de catarse, mas um conforto em observarmos a jornada destas protagonistas.

Ao acompanhar as irmãs Dashwood, somos convidados a refletir sobre o equilíbrio entre aquilo que sentimos e aquilo que escolhemos demonstrar, sem que razão e sensibilidade sejam tratadas como forças necessariamente incompatíveis. Afinal, essa tensão permanece tão presente hoje quanto na época de Jane Austen.

Distribuído pela Universal Pictures, Razão e Sensibilidade chega aos cinemas em 29 de outubro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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