Dirigido por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite, O Filho da Puta mergulha na literatura de cordel para construir uma animação em 2D de estética singular, humor escatológico e muito coração.
Com um dos títulos mais inusitados da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, O Filho da Puta transforma a cultura nordestina em matéria-prima para uma aventura que passa longe de qualquer inocência infantil. Entre sexo, violência, piadas de duplo sentido e palavrões, a animação aposta deliberadamente no grotesco, sem deixar que a escatologia se torne um fim em si mesma. Por trás de toda a vulgaridade, existe uma história sensível sobre um jovem que tenta compreender suas origens e encontrar seu lugar no mundo.
A trama acompanha Ismael, dublado por Gabriel Martins, que é literalmente um filho da puta: sua mãe é dona do maior prostíbulo de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Em busca do pai que nunca conheceu, ele parte rumo à Praia do Espelho acompanhado de Bacalhau, seu cachorro, dublado por Matheus Nachtergaele. Ao longo do caminho, os encontros com figuras tão excêntricas quanto imprevisíveis transformam a jornada em um processo de descoberta, no qual cada experiência ajuda o protagonista a compreender um pouco mais de si mesmo.
O grande trunfo da produção, porém, está em sua estética. Inspirada na literatura de cordel, a animação se organiza praticamente em capítulos que conferem personalidade própria aos encontros de Ismael e Bacalhau. Seja diante de um assassino cantor ou durante a iniciação sexual do protagonista com Vera, o filme explora cores intensas, texturas marcantes e composições visuais que fogem da uniformidade de boa parte da animação comercial contemporânea. Cada sequência apresenta uma identidade particular, enquanto as referências ao Cinema Novo reforçam o diálogo da obra com tradições artísticas brasileiras.

Cena de “O Filho da Puta”- Divulgação Lança Filmes
Essa liberdade visual não serve apenas como ornamento. As cores participam ativamente da construção dramática, traduzindo as sensações e os conflitos que atravessam a jornada. O amarelo incandescente do sertão e o vermelho opressor que domina determinados momentos contrastam com o azul que toma conta das cenas finais, quando Ismael finalmente encontra o oceano.
É uma mudança cromática que acompanha o movimento interior do personagem, enquanto a sequência em que ele reencontra o pai dentro de uma baleia sintetiza o caráter fantástico e simbólico da narrativa. A animação encontra, assim, uma maneira própria de transformar sentimentos em imagens, sem depender exclusivamente dos diálogos para comunicar suas ideias.

Cena de “O Filho da Puta”- Divulgação Lança Filmes
A estrutura narrativa também merece atenção. Entre fábulas, contos de fada e referências à jornada do herói, O Filho da Puta abraça o imaginário popular para contar a história de alguém que deseja ser mais do que a origem que lhe foi atribuída. Ismael parte em busca do pai, mas sua verdadeira necessidade é construir uma identidade que não esteja limitada às circunstâncias de seu nascimento. Como acontece nas boas histórias de amadurecimento, aquilo que o protagonista acredita procurar nem sempre corresponde ao que realmente precisa encontrar.
Nem tudo, entretanto, funciona com a mesma precisão. O regionalismo dá autenticidade ao universo retratado, mas o ritmo e a fluidez dos diálogos podem dificultar a compreensão de determinadas falas. Ainda assim, a força visual da animação e a progressão episódica da narrativa ajudam a sustentar o interesse, mesmo quando as palavras não chegam com a mesma clareza.

Cena de “O Filho da Puta”- Divulgação Lança Filmes
Depois do estranhamento inicial provocado por uma estética deliberadamente áspera, distante do acabamento polido das grandes produções norte-americanas, o filme revela uma personalidade que compensa eventuais irregularidades. Sua sujeira é também uma forma de liberdade: em vez de suavizar suas escolhas para agradar a todos, a obra assume suas excentricidades e encontra nelas boa parte de seu encanto.
Premiado na última edição do Festival do Rio com o Prêmio Especial do Júri na Première Brasil, O Filho da Puta é distribuído pela Lança Filmes e integrou a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, sendo ao seu final, uma animação imperfeita, irreverente e visualmente inventiva, que encontra na mistura entre o grotesco e o afetuoso sua principal força.
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