Entre a emoção do reencontro, a força do ARMY e os problemas de organização, a primeira noite da turnê ARIRANG em São Paulo mostrou que um show pode ser inesquecível e, ainda assim, deixar questões importantes em aberto.
A gente queria muito estar lá dentro.
Queria ver o BTS subir ao palco, ouvir as primeiras notas de perto e sentir aquele estádio inteiro reagindo ao mesmo tempo. Para quem acompanha o grupo e é ARMY há anos, o retorno ao Brasil depois de sete anos não era apenas mais uma data de turnê. Era um reencontro esperado por muita gente que atravessou pausas, mudanças, saudades e uma longa espera.
Nós, da Genius Lab, estamos em São Paulo acompanhando tudo muito de perto. Não estávamos dentro do MorumBIS na noite de 28 de outubro, e essa distinção importa. O que trazemos aqui é o olhar de quem vive a cidade durante esse momento, conhece muito bem e acompanha a movimentação do fandom e reúne informações publicadas, registros compartilhados por fãs e relatos sobre uma noite que mobilizou milhares de pessoas.
Mesmo do lado de fora, é difícil não sentir a dimensão do que está acontecendo.
Sete anos depois, o reencontro finalmente aconteceu
O BTS voltou ao Brasil com a turnê BTS WORLD TOUR ‘ARIRANG’, em três apresentações marcadas para os dias 28, 30 e 31 de outubro, no MorumBIS, em São Paulo. O primeiro show reuniu um estádio lotado e marcou o retorno do grupo ao país desde 2019.
A expectativa já era enorme antes de os integrantes aparecerem no palco. A movimentação de fãs, as filas e a presença do ARMY nas ruas transformaram o entorno do estádio em parte da experiência — embora nem tudo ali tenha funcionado como deveria.
Dentro do show, os relatos e registros publicados revelaram momentos que ajudam a explicar por que essa relação entre BTS e Brasil é tão particular.
As interações em português aproximaram ainda mais o grupo do público. E, quando a apresentação abriu espaço para referências brasileiras, o encontro entre culturas ganhou forma de brincadeira: durante “Butter”, o BTS entrou na onda do passinho do Jamal e do famoso “ombrinho do Paquetá”.
Não era necessário entender cada palavra para perceber a intenção. Eram referências que fazem parte do repertório popular brasileiro, incorporadas a um espetáculo global e devolvidas ao público com humor. Para os fãs, esses momentos têm um valor que vai além da coreografia: são sinais de atenção, de troca e de reconhecimento.
Quando o público também vira parte do espetáculo
Um dos momentos mais comentados aconteceu durante “Body to Body”, faixa do álbum ARIRANG. A música incorpora elementos ligados à tradição coreana, e a participação do público brasileiro ajudou a transformar a apresentação em uma experiência coletiva.
Nos registros compartilhados após o show, o canto do ARMY durante o trecho associado a “Arirang” aparece como um dos pontos altos da noite. É uma imagem simbólica: uma canção conectada à memória cultural coreana ecoando na voz de milhares de pessoas reunidas em São Paulo.
As músicas-surpresa também fizeram parte desse reencontro. Na primeira noite, o grupo apresentou “Black Swan” e “Silver Spoon”, conhecida pelo título coreano “Baepsae”. A escolha resgatou faixas queridas pelos fãs e acrescentou ao repertório uma dose de expectativa que acompanha a dinâmica da turnê.
Para quem conhece a trajetória do BTS, cada música carrega suas próprias lembranças. E é justamente aí que está uma das forças do grupo: a apresentação não se resume ao que acontece no palco. Ela também é atravessada por tudo o que cada pessoa leva consigo até aquele momento.
A frustração com “IDOL” e uma mudança que não passou despercebida
Nem toda expectativa foi atendida.
Antes da apresentação, a produção informou que o grupo não faria a tradicional volta pelo meio do público durante “IDOL”, alegando questões de segurança. A decisão gerou frustração entre fãs que aguardavam esse momento, conhecido em outras apresentações da turnê.
O BTS, porém, apresentou a coreografia completa no palco.
A mudança acabou criando uma cena diferente, mas não apagou a decepção de quem esperava vivenciar a música de outra forma.
É importante reconhecer os cuidados necessários em um evento dessa dimensão. Segurança não é detalhe, e uma decisão desse tipo pode envolver fatores que o público não consegue avaliar de fora. Ao mesmo tempo, quando uma mudança afeta uma parte tão aguardada do espetáculo, é legítimo que os fãs queiram entender o que aconteceu e como a decisão foi comunicada.
A questão não é exigir que tudo saia exatamente como imaginado. É reconhecer que informação clara e comunicação no momento certo também fazem parte da experiência de um grande show.
O lado de fora também faz parte dessa história
Enquanto os registros do palco circulavam, outros relatos chamavam atenção para os problemas enfrentados pelo público.
A cobertura jornalística apontou filas extensas, falhas de sinalização e dificuldades de circulação no entorno do MorumBIS. A chuva e a falta de orientação relatada por fãs tornaram a espera ainda mais desgastante. Também circularam queixas sobre acesso, códigos de ingressos e pessoas que afirmaram ter enfrentado dificuldades para entrar mesmo tendo comprado suas entradas.
Outro ponto de insatisfação foi a estrutura audiovisual. Enquanto apresentações de outras etapas da turnê utilizaram uma configuração de telões diferente, a etapa sul-americana foi anunciada com quatro painéis integrados à estrutura central. Fãs questionaram a visibilidade a partir de determinados setores.
A discussão chegou às autoridades. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) notificou a Live Nation Brasil e a Ticketmaster Brasil para solicitar informações sobre a estrutura dos shows e sobre o que foi comunicado aos consumidores durante a venda dos ingressos. A medida busca esclarecer os fatos; não significa, por si só, que uma irregularidade já tenha sido comprovada.
É um ponto importante porque a experiência de um show não depende apenas do artista. Depende também das condições oferecidas a quem investiu dinheiro, tempo, planejamento e expectativa para estar ali.
O ARMY não é apenas público
A mobilização em torno do BTS mostra, mais uma vez, que o ARMY é muito mais do que uma plateia que compra ingressos e canta as músicas. É uma comunidade que organiza viagens, compartilha informações, cria redes de apoio e transforma um evento musical em um acontecimento coletivo.
Essa força também torna ainda mais necessário ouvir o que os fãs dizem quando algo não funciona. O vínculo emocional com o grupo não elimina o direito de cobrar uma organização melhor. Pelo contrário: quanto maior a expectativa criada em torno de um evento, maior deve ser o compromisso de quem o produz com segurança, acessibilidade, informação e respeito ao público.
Não é preciso diminuir a emoção do reencontro para falar dos problemas. Tampouco é necessário ignorar as falhas para celebrar o que foi bonito.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
Um sonho que continua em movimento
A primeira noite do BTS no Brasil deixou imagens e momentos que vão permanecer na memória de quem esteve no MorumBIS: as músicas-surpresa, as referências brasileiras, as interações em português e milhares de vozes cantando juntas.

Para nós, que estamos em São Paulo acompanhando essa movimentação de perto, há também algo especial em observar como a cidade muda quando um encontro assim acontece. O fandom ocupa espaços, cruza trajetos, compartilha histórias e cria uma atmosfera que não cabe apenas dentro de um estádio.
A gente queria estar lá dentro. Esse desejo continua fazendo parte da história. Mas acompanhar de perto também é perceber o tamanho desse acontecimento, ouvir quem viveu a noite e olhar para o que precisa melhorar.
O BTS ainda tem duas apresentações pela frente em São Paulo, nos dias 30 e 31 de outubro. A expectativa é que os próximos encontros preservem o que fez a primeira noite ser tão significativa e que os pontos de atenção recebam respostas concretas.
Porque um show pode terminar quando as luzes se apagam. O que ele representa para uma comunidade, porém, continua reverberando muito depois.
E, para o ARMY brasileiro, esse reencontro está apenas começando.
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