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Myriem Akheddiou em cena de "Nós Acreditamos em Vocês"- Divulgação Filmes do Estação
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Nós Acreditamos em Vocês’ é agonizante retrato do processo judicial

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 2 de julho de 2026
6 Min Leitura
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Myriem Akheddiou em cena de "Nós Acreditamos em Você"- Divulgação Filmes do Estação
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Dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, Nós Acreditamos em Vocês aborda, de forma ágil e claustrofóbica, a vida de uma mulher que acaba inserida em uma burocracia infernal apenas para proteger seus filhos e preservar seu direito à fala.

Produções que retratam mães à beira de um ataque de nervos, constantemente julgadas e reprimidas pela sociedade, não são novidade no cinema. Em uma sociedade patriarcal, mulheres ainda são frequentemente encaixadas em papéis exagerados e sufocantes que, muitas vezes, não lhes cabem, mas que acabam sendo obrigadas a assumir. Em Nós Acreditamos em Vocês, acompanhamos de perto Alice, uma mãe que luta pela guarda de seus dois filhos, Etienne e Lila, contra um ex-marido abusivo.

O filme se passa quase inteiramente em um único cômodo, onde os advogados de ambas as partes, a juíza de menores, Alice e um personagem conhecido apenas como “o pai” apresentam seus argumentos. À medida que a audiência avança, o público descobre, junto da juíza, as camadas e complicações dessa dinâmica familiar: o abuso sexual sofrido por Etienne, a insistência do pai em manter contato com os filhos e o desgaste emocional que tudo isso provoca em Alice.

Myriem Akheddiou entrega uma atuação em que o silêncio fala mais alto do que qualquer discurso. O enquadramento em formato 3:4 faz com que sua presença ocupe praticamente todo o quadro, enquanto vozes em extracampo discutem um caso que diz respeito principalmente a ela. Ainda assim, Alice permanece calada, engolindo sapos e sendo privada de sua própria voz. Sua dor é evidente, assim como a angústia provocada por um processo burocrático que parece ignorar o sofrimento humano.

Nós Acreditamos em Vocês

Myriem Akheddiou em cena de “Nós Acreditamos em Vocês”- Divulgação Filmes do Estação

Propositalmente, Nós Acreditamos em Vocês é construído como um retrato frio e calculista. Quase toda a emoção é retirada da sala de audiência. A direção de arte aposta em cenários desprovidos de cor, a fotografia utiliza uma paleta em tons pastéis e o roteiro trabalha majoritariamente com fatos concretos. Enquanto isso, enquadramentos fechados fazem o espectador ansiar pelo momento em que Alice finalmente consiga gritar tudo aquilo que guarda dentro de si, mas ela permanece incapaz de fazê-lo.

A dúvida sobre se “o pai” realmente abusou dos filhos nunca é tratada como um mistério pelo roteiro. E, caso ainda reste alguma incerteza, ela desaparece quando as tentativas de aproximação do personagem encontram apenas o medo e a rejeição das crianças.

Com apenas 73 minutos de duração, Nós Acreditamos em Vocês é um golpe atrás do outro. Ironicamente, um filme com esse título faz justamente o contrário do que promete: nega à protagonista a confiança de que tanto necessita, retirando dela o direito de ser plenamente acreditada enquanto tenta desesperadamente proteger seus filhos e encontrar paz.

Myriem Akheddiou em cena de "Nós Acreditamos em Você"- Divulgação Filmes do Estação

Myriem Akheddiou em cena de “Nós Acreditamos em Vocês”- Divulgação Filmes do Estação

A escolha de nomear apenas Alice e seus dois filhos, enquanto todos os demais personagens são identificados exclusivamente por seus papéis sociais, “o pai”, “a advogada”, “a juíza”, entre outros, é claramente intencional. O filme deixa evidente que não retrata um caso isolado, mas uma realidade que se repete em uma escala muito maior do que gostaríamos de admitir.

Apesar da aparente vitória de Alice, a sequência final está longe de oferecer qualquer sensação de alívio. Tampouco entrega a catarse esperada por quem desejava ver “o pai” definitivamente punido. Assim como a juíza, o espectador compreende que não existe uma solução simples para um problema tão complexo. Em vez de oferecer respostas, o filme evidencia a frieza e a complexidade do sistema judicial, mantendo a tensão até os minutos finais e fazendo ecoar um único pedido: tenham empatia.

A Justiça pode ser cega, mas continua sendo aplicada por seres humanos. E é justamente aí que a situação se torna ainda mais complexa.

Nós Acreditamos em Vocês não é um filme fácil. Seu retrato pode parecer duro demais para parte do público, especialmente para quem ainda não está disposto a refletir sobre o mundo em que vive ou prefere ignorar situações como essa. É justamente por isso que a obra se mostra tão relevante. Ao transformar uma audiência judicial em um drama sufocante e profundamente humano, Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys constroem um filme que não busca conforto, mas consciência.

Distribuído pela Filmes do Estação, Nós Acreditamos em Vocês estreia nos cinemas brasileiros em 2 de julho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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