Dirigido por Travis Knight, O Bosque Selvagem é um espetáculo artesanal em tempos de digitalização, demonstrando que, acima de tudo, a arte é e sempre será humana
Apesar de nunca ter vencido um Oscar, o estúdio LAIKA conquistou reconhecimento pela humanidade presente em suas produções. Não à toa, a frase “Das mesmas mãos que fizeram Coraline” ganhou tanto destaque nos trailers de divulgação de O Bosque Selvagem. Afinal, Coraline e o Mundo Secreto (2009, Henry Selick), continua sendo reconhecido pelo público como uma das grandes obras do stop-motion. Em uma época marcada pela digitalização e pelo avanço da inteligência artificial, testemunhar uma produção tão artesanal faz diferença.
Baseado no livro homônimo de Colin Meloy, O Bosque Selvagem passou 16 anos em desenvolvimento, dos quais cerca de quatro a cinco foram dedicados à produção da animação em si. Atualmente, é considerado o maior filme em stop-motion já produzido e desponta como um dos favoritos à estatueta de Melhor Filme de Animação no Oscar de 2027. E, honestamente, seria merecido.
Em quesito de adaptação, o filme amplia o arco dramático de Alexandra, atribuindo-lhe maior humanidade e uma motivação que vai além da destruição por destruição presente no livro. Começar o filme com a antagonista, e não com Prue, a protagonista, é uma decisão deliberada e eficiente, que confere maior grandiosidade à narrativa e estabelece a atmosfera sombria que permeia boa parte da produção.

Cena de “O Bosque Selvagem”- Divulgação Imagem Filmes
Ao desenvolver o luto de Alexandra pela morte do filho, o filme constrói uma vilã profundamente humana. Ela não é necessariamente má, mas alguém emocionalmente destruído pela própria dor. Apesar da eficácia dessa abordagem, porém, a produção não consegue transmitir toda a força dramática que sua trajetória poderia alcançar. Em determinados momentos, os acontecimentos parecem apressados e artificiais, enquanto o livro desenvolve essas situações de maneira mais orgânica. Ainda assim, o verdadeiro espetáculo de O Bosque Selvagem está em outro lugar.
Resultado da combinação entre stop-motion e efeitos visuais digitais (VFX), a produção impressiona pela fluidez de seus movimentos e pela riqueza de cada plano ao longo de mais de duas horas. Em certos momentos, é inevitável pensar: “Não é possível que isso seja stop-motion”. Afinal, alguém movimentou e fotografou, quadro a quadro, os elementos de uma grandiosa sequência de guerra que remete diretamente a As Crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis, mas que encontra identidade própria e espaço para brilhar sem depender dessas referências.
A decisão de apresentar Prue como uma jovem mais confiante e contestadora do que sua versão literária também é um acerto. Sua jornada passa a ser, sobretudo, um exercício de humildade e escuta, em vez de se limitar à trajetória de uma garota inocente que se vê envolvida em uma guerra enquanto procura o irmão sequestrado. É uma mudança que fortalece a personagem e amplia suas possibilidades dramáticas. Uma pena que Curtis não receba o mesmo cuidado: o personagem perde força, especialmente em sua relação com Brendan e os demais bandidos, cuja complexidade é muito mais evidente no livro do que nesta adaptação.

Cena de “O Bosque Selvagem”- Divulgação Imagem Filmes
À medida que a narrativa percorre cenários que vão de florestas densas, céus abertos, Portland, castelos e calabouços, acompanhamos criaturas fantásticas e animais falantes em um universo visual impressionante. O nível de elaboração é espantoso, e algumas sequências exploram planos longos que permitem contemplar a movimentação dos personagens e a riqueza dos cenários. Cada detalhe contribui para a construção de um mundo que, acima de tudo, é movido pelo amor e realizado com evidente dedicação artesanal.
Em entrevistas, Travis Knight defende que a inteligência artificial carece de humanidade porque nunca amou. A afirmação encontra um contraponto interessante em O Bosque Selvagem: uma obra cuja contemplação e cujo ritmo mais sereno frequentemente falam mais alto do que a própria fantasia de sua história. Aqui, a técnica não serve apenas para impressionar, mas também para demonstrar o potencial expressivo da animação quando existe cuidado em cada etapa do processo. Mais do que uma demonstração de virtuosismo, o filme se torna um argumento em favor do trabalho humano por trás da criação artística.
Na dublagem brasileira, entretanto, há um problema de mixagem de som que prejudica a experiência do espectador. Em determinados momentos, os diálogos ficam excessivamente baixos diante da música, enquanto, nas sequências seguintes, o volume aumenta de maneira perceptível. No campo da dublagem, Giulia Benite, como Prue, e Pedro Burgarelli, como Curtis, entregam interpretações bem executadas, com destaque para Benite, cuja atuação vocal se distancia de seus trabalhos mais reconhecíveis.

Cena de “O Bosque Selvagem”- Divulgação Imagem Filmes
Ao final, para além de uma estética capaz de marcar a memória do espectador por meio de cenários e sequências deslumbrantes, a maior força de O Bosque Selvagem está em seus personagens, nas camadas que os constituem e nas interações genuínas que estabelecem entre si. O roteiro também demonstra habilidade ao equilibrar humor e drama sem deixar que um elemento se sobreponha excessivamente ao outro.
Embora algumas escolhas narrativas enfraqueçam o impacto emocional da história, o conjunto entrega uma animação que pode alcançar diferentes gerações e que, no futuro, tem potencial para se consolidar como um clássico, e ganhar para o estúdio a tão sonhada estatueta.
Distribuído pela Imagem Filmes, O Bosque Selvagem estreia nos cinemas em 29 de outubro.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



