Dirigido por Ana Luiza Azevedo, Medley é um capítulo honesto na vida de uma adolescente que, apesar de ter potencial para ser mais explorado, sabe exatamente o que quer ser
Embora já tenham trabalhado juntos em diversas ocasiões, existem diferenças consideráveis entre os cinemas de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Ambos são sócios e fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, estrutura que proporcionou liberdade artística e criativa para seus respectivos projetos. Entretanto, enquanto Furtado costuma seguir um direcionamento mais humorístico, irônico e experimental, Ana Luiza encontra seu caminho no drama humano e na observação das relações cotidianas, especialmente no ambiente familiar. Uma característica que resume Medley com bastante propriedade.
A produção acompanha Lola, uma jovem nadadora de 16 anos que, após uma discussão com a mãe, Cristina, com quem mantém uma relação distante, foge para a cabana isolada do tio, em Salto Bonito. Nesse novo ambiente, passa por experiências comuns à adolescência: apaixona-se, estabelece novas amizades, encontra inimizades e começa a ressignificar a ausência de um pai que nunca esteve presente em sua vida. Uma ausência que também está relacionada a um trauma responsável por sua dificuldade em nadar o estilo borboleta.
O filme acompanha Lola e sua rotina sem grandes conflitos, reflexões elaboradas ou momentos de clímax. É simplesmente a vida de uma adolescente registrada de maneira lenta e contemplativa. Até mesmo as interações metalinguísticas, como o encontro com Gabriel, quando os dois discutem como seria aquela situação caso estivessem em um filme, acabam perdendo parte da força e do charme que uma abordagem mais experimental, característica do cinema de Furtado, poderia proporcionar.

Mel Maia em cena de “Medley”- Divulgação Sessão Vitrine Petrobras
O valentão, a rivalidade com as outras meninas da equipe, o romance com Gabriel e até mesmo a relação com o treinador de natação parecem fragmentos de histórias que poderiam ser muito mais exploradas. Praticamente na metade da produção, por exemplo, a prefeita aparece discutindo a possibilidade de cobrir a piscina para a realização de um evento. A questão, entretanto, é resolvida rapidamente e sem qualquer resistência significativa: basta reconhecer Lola como filha de Cristina para que a situação seja encerrada, ampliando, de maneira pouco orgânica, o mistério em torno de seu pai.
Medley é confortável, leve e lindamente filmado, especialmente nas sequências que envolvem a água e no breve relance do Carnaval. Entretanto, dentro dessa proposta cinematográfica contemplativa, a produção corre o risco de se tornar esquecível. As relações permanecem superficiais, sem que os acontecimentos alcancem uma dimensão realmente significativa. O que resta são interações cotidianas e vínculos afetivos que, embora reconhecíveis, pouco acrescentam ao repertório de histórias semelhantes já exploradas pelo cinema.
Com uma fotografia marcada por tons de bege e cores pastéis, Medley também poderia aproveitar melhor as possibilidades visuais e as particularidades de Salto Bonito. A narrativa dedica bastante atenção às cenas envolvendo a água, mas deixa o restante da cidade visualmente apagado, quase sem vida. Com isso, um espaço que poderia adquirir uma identidade própria e se tornar um ambiente marcante e acolhedor para a protagonista acaba funcionando apenas como pano de fundo.

Mel Maia em cena de “Medley”- Divulgação Sessão Vitrine Petrobras
Ao final, o que sobra de Medley? Temos um coming of age orgânico, sem grandes reviravoltas e com um arco dramático relativamente claro: a busca de Lola por um pai que nunca conheceu, a relação distante com a mãe, o primeiro amor e o trauma que a impede de nadar borboleta. Entretanto, são muitos elementos para um único filme, e a tentativa de contemplar todos eles resulta em conflitos pouco desenvolvidos, prejudicando a experiência audiovisual como um todo.
Momentos que poderiam ganhar muito mais relevância, como a descoberta da sexualidade de Lola, suas brigas com o namorado e as interações com as colegas de equipe, acabam recebendo atenção limitada. A produção prefere acompanhar suas reflexões e experiências individuais, adotando uma estrutura narrativa episódica e novelesca que parece encontrar mais espaço em uma série do que em um longa-metragem.
Não se trata de exigir grandes acontecimentos, mas de perceber que a simplicidade narrativa também precisa de profundidade para sustentar o interesse do espectador, e mesmo com a questão familiar de Lola sendo tão presente, falta um maior mergulho nesta questão para realmente nos prendermos no filme.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Medley passou pelo Festival do Rio e pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, chegando finalmente aos cinemas em 29 de outubro.
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