Dirigido por Joko Anwar, Fantasma na Prisão é um terrir dos mais inventivos, combinando política, drama, humor e terror com uma desenvoltura rara em produções do gênero.
Desde que a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi anunciada, Fantasma na Prisão figurava entre os filmes que mais despertavam minha curiosidade. A sinopse, centrada em um fantasma que ataca prisioneiros marcados por uma aura pesada, obrigando-os a se unir para purificar suas energias, já parecia promissora. Ainda assim, surpreende a maneira como Joko Anwar abraça a premissa sem receio de levar suas possibilidades mais absurdas às últimas consequências.
Inicialmente, o mistério em torno da identidade do fantasma caminha lado a lado com a crítica política. Dentro da prisão, figuras ligadas ao poder recebem tratamento privilegiado, enquanto os demais detentos são submetidos a condições desumanas. A desigualdade não é apenas um pano de fundo para o horror, mas parte fundamental da construção do universo do filme. A resolução dos conflitos pode soar fácil e até utópica, mas essa escolha está anunciada desde as primeiras sequências, quando a produção deixa claras suas intenções satíricas.
É no terror, entretanto, que Fantasma na Prisão encontra algumas de suas imagens mais memoráveis. À medida que o fantasma elimina suas vítimas e transforma os corpos em composições que parecem saídas de uma bienal macabra, o longa abraça o grotesco com uma liberdade visual impressionante. As mortes são escatológicas, exageradas e, ao mesmo tempo, cuidadosamente construídas para provocar tanto repulsa quanto fascínio. A atmosfera de tensão se fortalece justamente porque os detentos reagem a esses acontecimentos com uma mistura de pânico, incredulidade e desespero que frequentemente desemboca no humor.

Cena de “Fantasma Na Prisão”- Divulgação Mostra SP
Visualmente, a produção aposta em uma paleta dominada por tons de bege, marrom e amarelo, criando uma atmosfera abafada que combina com o confinamento dos personagens. A predominância de planos fechados e enquadramentos centrados nas reações dos prisioneiros reforça a sensação de claustrofobia, enquanto as sequências de ação rompem momentaneamente essa contenção.
Uma das lutas, em particular, é tão desajeitada que chega a lembrar a confusão coreografada de Amores à Parte (2025, Michael Angelo Covino). O exagero também se manifesta na encenação das mortes e na maneira como os corpos são apresentados como obras de arte macabras, mas o filme preserva um vínculo com a realidade que impede o absurdo de se tornar completamente gratuito.
O humor, por sua vez, nasce principalmente dos próprios personagens e das circunstâncias cada vez mais insólitas em que se encontram. Anggoro, considerado uma espécie de pai por seus companheiros, carrega o peso de ter suas penas constantemente aumentadas por proteger os outros detentos, enquanto permanece afastado da própria família. Ao seu redor, figuras como Six, capaz de enxergar auras e fantasmas, e Wildan, um muçulmano devoto, ajudam a compor um grupo tão improvável quanto carismático. A dimensão dramática dessas histórias impede que os personagens se reduzam a meros instrumentos de comédia, ainda que Fantasma na Prisão nem sempre consiga explorar toda a profundidade sugerida por seus conflitos.
Quando os prisioneiros percebem que as vítimas compartilham uma aura vermelha, a tentativa coletiva de purificar essas energias transforma-se em uma sucessão de situações absurdas. Danças, orações e exercícios de paz passam a integrar uma estratégia de sobrevivência contra uma entidade que pode matá-los de maneiras grotescas. A premissa é tão disparatada que sua execução se torna irresistivelmente cômica: homens encarcerados precisam dançar para aliviar suas auras e evitar uma morte sobrenatural. É nesse contraste entre a gravidade do perigo e o ridículo dos métodos adotados que Fantasma na Prisão encontra boa parte de sua identidade.

Cena de “Fantasma Na Prisão”- Divulgação Mostra SP
As trocas rápidas de diálogo, as one-liners e a alternância entre tensão e alívio cômico sustentam alguns dos melhores momentos da produção. Embora a narrativa se torne repetitiva em determinados trechos, Joko Anwar encontra novas formas de explorar o mesmo princípio absurdo, fazendo com que situações cada vez mais extravagantes pareçam naturais dentro daquele universo fantástico e tenebroso. O problema é que essa repetição nem sempre resulta em progressão dramática: em alguns momentos, o filme parece satisfeito em reiterar uma fórmula que já demonstrou sua eficácia.
Essa limitação fica mais evidente no segundo ato, quando as explicações passam a ocupar um espaço excessivo e interrompem o ritmo que torna o longa tão envolvente. Em vez de confiar nas imagens, nas reações dos personagens e na força de sua própria premissa, a narrativa insiste em esclarecer mecanismos que já são relativamente fáceis de compreender.
O resultado é uma perda de dinamismo justamente quando a produção poderia se entregar às possibilidades mais inventivas do horror. Quando deixa as explicações em segundo plano e se concentra nas mortes, no grotesco e no espetáculo visual, Fantasma na Prisão demonstra sua maior virtude: sabe transformar o absurdo em entretenimento sem abrir mão de uma identidade própria.
O desfecho, mais confortável e próximo do healing horror, reforça a dimensão conciliadora da obra, embora reduza parte da contundência que sua crítica social poderia alcançar. Ainda assim, Joko Anwar entrega um filme que encontra no humor macabro e na criatividade visual suas armas mais eficazes.
Fantasma na Prisão pode tropeçar no excesso de explicações e na repetição narrativa, mas, quando abraça sua vocação para o espetáculo, deixa claro que sabe muito bem o que está fazendo.
Fantasma na Prisão integrou a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que se encerra em 29 de outubro e reúne mais de 300 filmes de diferentes gêneros e países.
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