Mais de seis décadas de carreira artística, uma trajetória marcada pela televisão, pelo cinema e pelo teatro e uma vida dedicada também à religiosidade, à educação e à luta antirracista. É a partir dessas diferentes dimensões que o documentário Amor e Fé: Chica Xavier revisita a história de Francisca Xavier Queiroz de Jesus, a Chica Xavier.
Dirigido por seu filho, o cineasta e educador Clementino Junior, o longa de 88 minutos integra a programação do Festival do Rio 2026 e será exibido em três sessões entre os dias 7 e 9 de outubro.
A história começa ainda nos anos 1950, quando Chica deixa Salvador rumo ao Rio de Janeiro em busca do sonho de estudar teatro. Ela chega à cidade em 6 de janeiro de 1953, Dia de Reis, acompanhada de Clementino Kelé, seu companheiro na vida e na arte por mais de seis décadas.
Três anos depois, os dois participaram de Orfeu da Conceição, peça de Vinicius de Moraes dirigida por Léo Jusi, ao lado do elenco ligado ao Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento. A montagem se tornou um dos primeiros marcos da trajetória artística de Chica.
A partir dali, a atriz construiu uma carreira que atravessou diferentes fases da dramaturgia brasileira. Na televisão, participou de novelas como Dancin’ Days, Marrom Glacê, Renascer, Pátria Minha, Força de um Desejo e Esperança. Também esteve em minisséries como Tenda dos Milagres e O Pagador de Promessas.
No cinema, sua trajetória inclui filmes como O Assalto ao Trem Pagador, A Deusa Negra, Lerfá Mú, A Partilha e Nosso Lar. Segundo o material de divulgação do documentário, Chica participou de mais de 20 novelas e 11 minisséries na TV Globo, além de trabalhos em outras emissoras.
Uma carreira que ajudou a mudar representações
O documentário também olha para os papéis que Chica Xavier interpretou ao longo da carreira e para a maneira como sua presença contribuiu para modificar a representação de mulheres negras na dramaturgia.
Muitas de suas personagens eram trabalhadoras domésticas, mulheres do povo, donas de casa ou personagens submetidas a estruturas de desigualdade. Para Clementino Junior, a forma como sua mãe interpretava esses papéis ajudou a ampliar a importância dessas personagens dentro das histórias.
“A maioria das personagens de Chica Xavier foram mulheres do povo, trabalhadoras domésticas, escravizadas da Casa-Grande, donas de casa de periferia… Sua altivez e presença de cena induziram os autores à ampliação da existência dessas personagens na trama, o que deixou para o público uma imagem diferenciada nesse tipo de representação”, afirma o diretor.
O cineasta também resgata uma crítica feita pela própria Chica em relação às desigualdades do mercado artístico. Segundo ele, a atriz questionava a diferença entre a popularidade de suas personagens e as oportunidades comerciais que recebia.
“Ela disse uma vez que fez tantas empregadas, mas nunca os produtos de limpeza ou supermercados utilizavam a popularidade de suas personagens para ações de merchandising”, relata Clementino.
Para o diretor, essa realidade só começou a mudar mais significativamente depois de 2010, período em que Chica já estava reduzindo sua participação em produções.
Religiosidade também está no centro do filme
A relação de Chica Xavier com a espiritualidade ocupa outro espaço importante no documentário.
Nascida em Salvador e criada em ambientes ligados à cultura e à religiosidade afro-brasileira, Chica teve contato com o Candomblé ainda na Bahia. No Rio de Janeiro, sua trajetória religiosa também se vinculou à Umbanda.
Ela posteriormente fundou e dirigiu o Terreiro Irmandade do Cercado de Boiadeiro, em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio.
O filme procura relacionar essa dimensão espiritual à maneira como Chica se relacionava com as pessoas e com a própria família. Para o produtor Gregory Baltz, essa característica apareceu durante o processo de entrevistas e pesquisa.
“Percebi como o núcleo familiar da Chica emanava aquela energia de união, e como essa família se transformava em algo mais amplo”, afirma.
Segundo Baltz, o contato com familiares, amigos e companheiros de trabalho revelou uma dimensão afetiva que ultrapassava o círculo familiar.
“E o que mais me marcou foi entender que, de alguma forma, a religião dela era a própria maneira amorosa como se relacionava com o próximo”, completa.
Atuação além dos palcos
O documentário também aborda o envolvimento de Chica com questões sociais e educacionais.
Durante sua atuação como conselheira da Fundação Cultural Palmares, na transição entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, ela participou de articulações relacionadas à valorização da história e da cultura afro-brasileira na educação.
O material de divulgação atribui à atriz participação nas articulações que antecederam a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas.
Para a roteirista Bruna Christine, conhecer essa dimensão da trajetória da atriz foi um dos pontos marcantes do projeto.
“Contar a história de Chica Xavier é uma honra e a continuidade do legado de uma mulher negra fiel às suas raízes”, afirma.
Ela também destaca a dimensão política da trajetória da atriz e sua importância para a educação.
“Fiquei tocada pela atuação política dela e pela dimensão da sua luta antirracista na importância para a educação”, diz Bruna.
Um documentário feito dentro da família
A relação entre Chica Xavier e Clementino Junior dá ao projeto uma característica particular. O diretor não apenas pesquisa a trajetória da atriz, mas também é seu filho.
Para Clementino, essa proximidade poderia representar um risco para a construção do documentário. Em vez de transformar o filme em uma homenagem sem conflitos ou nuances, ele buscou reunir diferentes relatos e memórias.
“Sabíamos do risco deste filme virar um documentário ‘chapa branca’ por ser uma figura de unanimidade, mas os relatos trazem muitas dimensões de uma mulher preta baiana com quem qualquer pessoa se identifica”, afirma.
O diretor também relaciona essa característica à biografia Mãe do Brasil, escrita por Teresa Montero em 2013.
“Não é à toa que sua biografia se intitula ‘Mãe do Brasil’ — apresenta essa maternidade que vem de um sentimento que só a vivência e a existência de Chica explicam”, afirma.
O resultado é um retrato que procura combinar a artista conhecida pelo público com a mulher que existia longe das câmeras, incluindo sua relação com Clementino Kelé, a família, a religiosidade e o ativismo.
Chica Xavier morreu em 8 de agosto de 2020, aos 88 anos. Amor e Fé: Chica Xavier recupera essa trajetória justamente a partir das diferentes áreas que fizeram parte de sua vida: arte, espiritualidade, família, educação e representação negra.
Serviço
Filme: Amor e Fé: Chica Xavier
Gênero: Documentário
Duração: 88 minutos
Direção: Clementino Junior
Roteiro: Bruna Christine
Festival: Festival do Rio 2026
Sessões:
7 de outubro: 18h15 — Estação Claro Gávea 3
8 de outubro: 16h — Cine Santa Teresa
9 de outubro: 16h15 — Estação Claro Rio 3
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