Dirigido por Daniel Porto, A Miss se fortalece no exagero para contar uma história simples, mas potente e divertida
As discussões sobre gênero mudam constantemente ao longo dos anos. Uma produção como Quanto Mais Quente Melhor (1959, Billy Wilder) dialogava com os temas e as tensões do fim dos anos 1950. Se fosse lançado hoje, no entanto, seus objetivos, seus temas e a própria abordagem narrativa seriam inevitavelmente lidos de outra forma, porque o olhar social também mudou. É justamente nesse terreno que A Miss entra: para mostrar como, quando trabalhadas com respeito, essas discussões podem atravessar o tempo sem perder relevância.
A trama acompanha Iêda, Helga Nemetik, uma ex-miss que sonha ver a filha seguir a tradição da família. Apesar de Martha, Maitê Padilha, não se animar com a ideia, seu filho Alan, Pedro David, tem talento, interesse e vontade de trazer orgulho para a mãe; por isso, decide entrar no concurso no lugar da irmã. A escolha vira a dinâmica familiar do avesso e obriga Iêda a encarar o próprio papel como mãe.
Acima de tudo, A Miss é uma produção que se sustenta no exagero: nas reações dos personagens, nos figurinos, na paleta de cores e em um texto que abraça o pastiche e o absurdo. A fotografia é nitidamente amadora, embora corajosa em diversos instantes. Ainda assim, como primeira direção de Daniel Porto, o longa entrega algo que produções com orçamentos maiores e equipes mais experientes muitas vezes não conseguem oferecer: alma.

Cena de “A Miss”- Divulgação Olhar Filmes
A verdadeira protagonista de A Miss não é a filha que se recusa a competir, nem o filho que decide entrar em seu lugar, e sim Iêda. A ex-miss repete costumes e tradições herdados da própria mãe como uma forma de se aproximar dela e, assim, lidar com o próprio luto. Sem perceber, porém, o quanto isso pesa sobre os filhos. Apesar de prazeroso ver um “azarão” se erguer no fim, o coração do filme está em outra parte: na dinâmica familiar, seja a de sangue, seja a encontrada, e o concurso de beleza em si é o que menos importa dentro deste contexto.
Com uma pegada quase teatral, o filme aposta em trocas rápidas de diálogo e em situações absurdas, lembrando o ritmo de algumas comédias populares recentes. Entre uma virada e outra, a narrativa encontra momentos de drama e reflexão que funcionam bem. Quando escorrega, costuma ser por insistir em flashbacks expositivos demais, que explicam mais do que revelam. Ainda assim, Porto sabe “pesar a mão” quando quer, como na lavagem de roupa suja que Iêda faz com os filhos logo no início, ou no atrito que se instala quando Iêda descobre que Alan é quem realmente está competindo.
Diferente de outras produções em que homens se vestem de mulheres por um objetivo específico, como Tootsie (1982, Sydney Pollack), Uma Babá Quase Perfeita (1993, Chris Columbus) ou o próprio filme de Wilder, aqui não há espaço para o pacote de piadas previsíveis sobre salto alto, maquiagem e “dificuldades do disfarce”.

Helga Nemetik em cena de “A Miss”- Divulgação Olhar Filmes
Desde o começo, para Alan, a experiência é libertadora: há um prazer genuíno em se encontrar naquele ambiente, conectando-se a discussões contemporâneas sobre identidade de gênero sem soar pedante ou forçado, justamente por estar inserido com naturalidade na própria narrativa.
Em suma, A Miss é uma comédia de costumes que lida, com leveza, com questões muito presentes no cotidiano e em nosso dia a dia. Há ali uma mensagem de otimismo e de redenção de traumas: é uma estreia que expõe suas imperfeições, mas também evidencia o potencial de todos os envolvidos. Em especial, de Helga Nemetik, atriz que começou no Zorra Total e que, apesar de hoje se dedicar mais ao teatro, imprime glamour e presença a uma personagem que remete a figuras marcantes do cinema internacional, como a de Allison Janney em Lindas de Morrer (1999, Michael Patrick Jann), coincidência feliz por também ser um filme sobre concursos de beleza.
No fim, A Miss talvez não alcance nos cinemas o sucesso que poderia, mas merece vida longa no streaming. Não só pelo cuidado com a representação, como também por encontrar um equilíbrio raro entre humor, drama realista e absurdo narrativo, assim, construindo uma história de amor sustentada por personagens, contradições e humanidade.
Distribuído pela Olhar Filmes, A Miss estreia nos cinemas no dia 26 de fevereiro.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



