Dirigido por Patricia Mazuy, A Prisioneira de Bordeaux se apoia em uma solar Isabelle Huppert e uma contida Hafsia Herzi para construir uma amizade improvável
Ao lermos a sinopse de A Prisioneira de Bordeaux, é fácil supor que se trata de mais um filme com a fórmula do white savior já utilizado em produções como Histórias Cruzadas (2011, Tate Taylor), em que uma pessoa branca, privilegiada, auxilia uma minoria em condição desfavorável. Esse clichê já foi tantas vezes explorado ao longo da história do cinema que, em certos momentos, causa cansaço, desgaste e indignação, como no caso de Green Book: O Guia (2019, Peter Farrelly), que mesmo assim levou o Oscar de Melhor Filme.
Sabiamente, Patricia Mazuy evita esse caminho. Ao construir a amizade entre Alma, Huppert, e Mina, Herzi, duas mulheres unidas pelo fato de seus maridos estarem presos na mesma penitenciária, A Prisioneira de Bordeaux estabelece conflitos narrativos que instigam e, por vezes, incomodam o espectador, fazendo questão de lembrar que, apesar da conexão entre elas, Alma e Mina não pertencem, e jamais pertencerão, ao mesmo mundo. A festa que ocorre no terceiro ato é o exemplo mais contundente dessa divisão.

Hafsia Herzi em cena de A Prisioneira de Bordeaux- Divulgação Autoral Filmes
A produção nunca deixa de lembrar quem são essas mulheres: Alma é branca, rica, sem filhos, colecionadora de arte, e vive sozinha em uma mansão; já Mina é negra, mãe de dois filhos pequenos, moradora da periferia, sobrecarregada com as dívidas do marido e trabalha em uma lavanderia para se sustentar. À medida que a narrativa avança, torna-se claro que ambas estão presas, sejam pelas barreiras psicológicas como a solidão, ou sociais como a maternidade, mas, ao fim, apenas Mina permanece confinada, vítima das amarras de sua classe, de seus vínculos familiares e de um sistema que a impede de seguir em frente. É ela, afinal, a verdadeira prisioneira de Bordeaux.
No que diz respeito aos maridos encarcerados, o filme os mantém distantes, tanto de suas esposas quanto do público. Eles funcionam como artifício narrativo em dois sentidos: primeiro, como uma corrente que mantém essas mulheres presas à rotina das visitas semanais, sem chance de fuga; segundo, como contraste social. O marido de Alma, um médico renomado que matou uma mulher e deixou outra paralítica, consegue sair da prisão graças a um bom advogado, enquanto o marido de Mina permanece encarcerado, ainda que seu crime tenha sido “apenas” um roubo. O abismo entre as amigas, assim, se aprofunda.

Hafsia Herzi e Isabelle Huppert em cena de A Prisioneira de Bordeaux- Divulgação Autoral Filmes
A Prisioneira de Bordeaux não se esquiva da realidade. Sua missão não é consolar o espectador, como faz Green Book, com a ideia de que “se cada um fizer sua parte, tudo se resolve”. Mazuy constrói uma emancipação feminista com um tiro no peito, seco, doloroso e sem gentilezas, na medida que o amor romântico também não é a saída: Alma não ama mais o marido, enquanto Mina permanece presa, em grande parte, por causa dos filhos, somente as resta levantar a cabeça e seguir em frente, por mais doloroso que seja o passado.
Exibido na Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes de 2024, A Prisioneira de Bordeaux estreia no Brasil no dia 7 de agosto, com distribuição da Autoral Filmes.
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