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Cena de "A Sapatona Galáctica"- Divulgação Festival do Rio
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘A Sapatona Galáctica’ é grito por representatividade conduzido pelo exagero

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 13 de fevereiro de 2026
8 Min Leitura
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Cena de "A Sapatona Galáctica"- Divulgação Festival do Rio
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Dirigido por Leela Varghese e Emma Hough Hobb, A Sapatona Galáctica usa exagero e caos para confrontar décadas de apagamento e exigir espaço dentro do cinema contemporâneo.

Vamos começar esta crítica de um jeito diferente. Você que está lendo sabia que o primeiro beijo hétero da história do cinema ocorreu em 1896, em um curta-metragem conhecido como The Kiss (William Heise)? Em contrapartida, o primeiro beijo lésbico ocorreu somente em 1931, fugindo da censura de um nazismo crescente, no filme alemão Senhoritas de Uniforme (Leontine Sagan).

Enquanto estudiosos e críticos do cinema estudam a esmo grandes diretores da primeira era do cinema como Fritz Lang, os irmãos Lumière, Georges Méliès, D.W. Griffith, entre tantos outros, personalidades como Alice Guy-Blaché, Lois Weber e Dorothy Arzner, uma das únicas mulheres diretoras na época de ouro de Hollywood e abertamente lésbica, permanecem à margem do debate.

Cito esses dados para estruturar um argumento simples: o cinema, desde a sua criação, foi um ambiente “criado por” e dominado por homens, em sua esmagadora maioria héteros e brancos, e isso persiste até hoje, como vemos nas diferenças salariais dentro da indústria audiovisual, no número de indicações e até mesmo nas vitórias, ainda muito mais comuns entre homens. Porém, cada vez mais, vozes contemporâneas estão abrindo caminhos e mostrando a que vieram, mesmo que, às vezes, elas abram sem dó nenhuma com uma serra elétrica, como é o caso de A Sapatona Galáctica.

Cena de "A Sapatona Galáctica"- Divulgação Festival do Rio

Cena de “A Sapatona Galáctica”- Divulgação Festival do Rio

A animação independente australiana segue um humor rápido, adulto, exagerado e autoirônico, usado em peso em produções como Rick and Morty (2013, Dan Harmon, Justin Roiland), porém com um coração e uma alma abertamente gay. E desde o seu título, A Sapatona Galáctica não tem receio algum de demonstrar isso a todo momento: é uma farsa musical que aponta diretamente para esse sistema audiovisual heteronormativo e grita a plenos pulmões: “Vocês nos excluíram por muito tempo; agora finalmente chegou a nossa vez”.

A Sapatona Galáctica apresenta uma premissa simples. É uma jornada do herói que já vimos diversas vezes: uma protagonista introvertida precisa lidar com os próprios demônios internos para salvar quem ama, apenas para perceber, no caminho, que está fazendo essa jornada pelos motivos errados. Assim, do modo mais caótico e aleatório possível, com direito a naves machistas, drags vilanescas, humanoides héteros brancos, pênis gigantescos que atiram sêmen e tantos outros lembretes de que a sociedade contemporânea é muito mais ampla do que costuma ser mostrada no cinema, a produção martela sua proposta de forma incessante e, por vezes, até cansativa.

Da mesma forma que o cinema menosprezou personagens LGBT+ por tantos anos, relegando-os a vilões, arquétipos exagerados ou coadjuvantes cômicos, A Sapatona Galáctica faz o mesmo com a heteronormatividade. É o ideal, numa jornada por um cinema mais amplo e franco? Isso fica a cargo de cada um. Mas a raiva e o exagero são tão claros quanto o amor que seus criadores demonstram por cada passo dessa caminhada.

Cena de "A Sapatona Galáctica"- Divulgação Festival do Rio

Cena de “A Sapatona Galáctica”- Divulgação Festival do Rio

A jornada de Saira, uma princesa lésbica, introvertida e apaixonada, se torna uma ode e uma odisseia que se relaciona diretamente à cultura LGBT+ como um todo. Não à toa, a busca pela lábris, símbolo diretamente associado à força feminina, ocupa um lugar tão importante na narrativa e, ao mesmo tempo, funciona como um completo McGuffin. Afinal, como nas melhores histórias clássicas, tudo o que a heroína precisava era acreditar no próprio potencial.

As músicas autorais são bregas e clichês na medida certa, remetendo a canções de grandes ídolas do rock como Joan Jett e até mesmo Avril Lavigne. As cores e os exageros preenchem a produção com gosto, e os detalhes de fundo funcionam como pequenos lembretes de que este filme foi feito para um público específico, e que chegou a hora de ele brilhar. Não à toa, A Sapatona Galáctica venceu o Prêmio Félix de Melhor Filme Internacional na última edição do Festival do Rio e o Prêmio do Público de Melhor Filme Internacional no último Festival MixBrasil, dois reconhecimentos relevantes dedicados a obras de temática LGBT+.

Para desfrutar de A Sapatona Galáctica, o ideal é se livrar de julgamentos automáticos e entender seu lugar dentro do campo audiovisual: uma space opera que atua como um grito de guerra, exagerado e frontal, que pode ser compreendido por parte do público mais conservador como uma ofensa, o que, em certa medida, não deixa de ser. Mas, muito além disso, a produção é um lembrete de que o cinema, como um todo, não pode mais se dar ao privilégio de reduzir a sociedade contemporânea ao que é mais confortável de representar.

Cena de "A Sapatona Galáctica"- Divulgação Festival do Rio

Cena de “A Sapatona Galáctica”- Divulgação Festival do Rio

Uma boa narrativa independe da sexualidade, do gênero ou da cor de sua protagonista: depende de como a jornada dessa protagonista dialoga com o público. E na trajetória de Saira para se encontrar, por mais absurda, caótica, exagerada e lunática que seja, todos podemos nos enxergar um pouco. No momento em que uma mulher desconhecida chora para Saira por ter sido rejeitada e melhora apenas por ser escutada, é impossível não relacionar isso a alguma história da nossa própria vida, ainda mais quando, diariamente, vemos tantas notícias em que “o homem” é colocado, muitas vezes com razão, sob uma ótica negativa, e esse cinema feminino precisa gritar cada vez mais alto para ser compreendido.

Cada vez mais, produções como Hotel Hazbin (2019, Vivienne Medrano), Bottoms (2023, Emma Seligman) e A Sapatona Galáctica estão rompendo com esse cinema heteronormativo, com boas histórias, exageros e diferentes graus de raiva e de ofensa à estrutura clássica, para buscar um lugar que possam chamar de seu. E, em rápidos 87 minutos, este universo absurdo parece maior e bem mais rico do que o de muitas produções nascidas dentro do cinema “clássico”.

Com distribuição da Synapse Distribution, A Sapatona Galáctica estreia nos cinemas brasileiros em 12 de fevereiro.

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Tags:Cinemacinema lgbtcriticaCrítica A Sapatona Galácticafestival do rioSapatona Galáctica
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