Dirigido por Mauro Borrelli, A Última Ceia tira Jesus do centro da própria história e usa o olhar de seus discípulos para revisitar um dos acontecimentos mais conhecidos do Novo Testamento.
Existe um nicho de filmes religiosos que consistentemente encontra público, especialmente em um país de forte influência cristã como o Brasil. Não por acaso, muitas dessas produções retornam aos momentos mais emblemáticos da trajetória de Jesus. No caso de A Última Ceia, a narrativa acompanha os últimos dias de Jesus antes da crucificação. Nesse contexto, o mais curioso é perceber que, apesar de sua presença constante, o Cordeiro de Deus não é o verdadeiro protagonista, e sim dois de seus principais seguidores.
Assim como em Amadeus (1984, Miloš Forman), onde Mozart é observado a partir da perspectiva de Salieri, o filme de Borrelli constrói sua narrativa através de dois olhares centrais: Pedro, o seguidor fiel, e Judas Iscariotes, o traidor. Mesmo para quem não tem proximidade com a religião, os principais eventos são facilmente reconhecíveis: a multiplicação dos pães e peixes, a expulsão dos mercadores do templo, a última ceia, a lavagem dos pés e o beijo de Judas.

James Ward em cena de “A Última Ceia”- Divulgação Imagem Filmes
Embora essas passagens já tenham sido amplamente exploradas, inclusive em produções recentes como The Chosen, a mudança de ponto de vista funciona ao aprofundar o impacto de Jesus sobre aqueles ao seu redor. Mais do que isso, o filme se destaca ao explorar os conflitos internos de Judas, especialmente suas motivações para a traição.
É justamente nesse aspecto que a produção encontra seu ponto mais forte. A interpretação de Robert Knepper confere densidade e inquietação ao personagem, dominando as cenas em que aparece e, em muitos momentos, ofuscando até mesmo o Jesus interpretado por James Ward. Visualmente, A Última Ceia também acerta ao traduzir, de forma alegórica, os medos e dilemas de Judas, criando alguns de seus momentos mais interessantes.
A narrativa se sustenta, então, em um núcleo central formado por Jesus, Judas, Pedro e Caifás, que assume o papel de antagonista. Fora desse eixo, os demais personagens existem quase sempre como apoio funcional, sem grande desenvolvimento. Isso se torna especialmente evidente no tratamento dado a Maria Madalena, uma figura de enorme importância histórica e simbólica, mas que aqui se limita a observar os acontecimentos, calada e sem protagonismo. Ao optar por uma narrativa centrada em olhares masculinos, o filme acaba restringindo o potencial de sua própria abordagem.

James Oliver Wheatley e James Ward em cena de “A Última Ceia”- Divulgação Imagem Filmes
Entre debates sobre fé e momentos mais íntimos, os melhores trechos permanecem ligados ao conflito interno de Judas. Após sua morte, no entanto, o filme se estende além do necessário para concluir a trajetória de Pedro, enfraquecendo o impacto geral. Tanto a crucificação quanto a ressurreição são tratadas de forma apressada, quase protocolar, o que contrasta com o ritmo mais contemplativo adotado até então. Nesse sentido, a narrativa poderia facilmente se encerrar em momentos anteriores, como na prisão de Jesus ou a morte de Judas, sem prejuízo estrutural para a narrativa.
Ao final, A Última Ceia cumpre o que promete ao oferecer um novo ponto de vista sobre uma história amplamente conhecida. Ainda assim, sua relutância em ir além dessa proposta impede que o filme se destaque de forma mais contundente. Entregando o básico para quem já se interessa por esse tipo de narrativa, mas dificilmente deixa uma marca duradoura no público em geral.
Distribuído pela Imagem Filmes, A Última Ceia estreia nos cinemas em 2 de abril, aproveitando o período da Páscoa como cenário ideal para seu lançamento.
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